Fábia Oliveira

Especialistas alertam após Rico cogitar cirurgia para diminuir altura

Cirurgia é considerada complexa e pouco indicada sem motivo clínico; saiba detalhes

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A possibilidade de “diminuir a altura” por meio de cirurgia voltou ao debate público após Rico Melquiades revelar que cogita passar por um procedimento para reduzir alguns centímetros da estatura.

Embora soe improvável para muitas pessoas, a intervenção existe, mas está longe de ser simples, comum ou inofensiva. Segundo especialistas, trata-se de uma cirurgia complexa, com riscos relevantes e raramente indicada sem uma justificativa médica consistente.

Não afeta só a altura

Na prática, a técnica interfere diretamente na estrutura óssea das pernas, o que impacta o funcionamento do corpo como um todo. A ortopedista Juliana Munhoz explica que o encurtamento dos membros inferiores não afeta apenas a altura.

“O encurtamento das pernas altera a biomecânica do corpo. Ele influencia no alinhamento dos quadris, na pisada, redistribui a carga corporal e pode levar a dor lombar crônica, além de favorecer lesões como hérnias de disco”, afirma.

De acordo com a especialista, alterações estruturais desse tipo também podem comprometer a postura. “Dependendo do caso, há risco de escoliose funcional, alterações posturais e sobrecarga em articulações que não foram feitas para compensar essa mudança”, completa.

Não recomendada por motivos estéticos

Do ponto de vista médico, a cirurgia não é considerada saudável quando realizada apenas por motivos estéticos. “Não é um procedimento preventivo nem benéfico para a saúde. É uma cirurgia longa, com recuperação difícil e riscos reais, como infecção, trombose venosa profunda, tromboembolismo pulmonar, demora ou falha na consolidação óssea e perda de força muscular”, diz Juliana Munhoz.

Por esse motivo, muitos ortopedistas se posicionam contra a realização do encurtamento das pernas sem indicação clínica. Situações em que a cirurgia pode ser considerada envolvem deformidades ósseas importantes, grandes assimetrias entre os membros ou sequelas de acidentes. “Para fins estéticos, o risco costuma ser maior do que o benefício”, reforça a médica.

Raro no Brasil

O cirurgião plástico Danilo Ferraz explica que esse tipo de procedimento é pouco realizado no Brasil. “É uma cirurgia rara. Pouquíssimos ou praticamente nenhum profissional faz esse tipo de intervenção com finalidade estética no país. Ela é mais comum em alguns países da Ásia, especialmente para aumento de altura, não para redução”, contextualiza.

No caso do aumento de estatura, a técnica já é conhecida por ser extremamente invasiva. “É feita uma cirurgia ortopédica em que os ossos da perna, tíbia e fíbula, são serrados e um espaçador é colocado. O paciente usa uma estrutura externa, como se fosse uma gaiola, que vai aumentando a distância entre os ossos milímetro por milímetro ao longo de semanas”, explica Danilo.

Segundo ele, o processo é lento, doloroso e exige grande comprometimento do paciente. “O ganho costuma ser de apenas 2 a 4 centímetros, com um pós-operatório complicado e longo”, afirma.

Já a cirurgia para reduzir a altura segue um princípio semelhante, porém inverso. “Nesse caso, é retirado um fragmento do osso e depois se faz a síntese, geralmente com placas e parafusos, como se fosse uma fratura proposital. Isso afeta não só o osso, mas também músculos, nervos e vasos sanguíneos”, diz o cirurgião plástico.

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Discussão complexa

Apesar de não ser considerada tecnicamente complexa, a recuperação é apontada como um dos principais entraves. “É uma recuperação chata, demorada e com risco de complicações como infecções, dor crônica e até diferença de altura entre uma perna e outra, já que é muito difícil retirar exatamente a mesma medida dos dois lados”, explica Danilo Ferraz.

Outro fator relevante envolve o impacto estético secundário do procedimento. “Há incisões na perna, então a cicatrização também precisa ser considerada. Não é só a altura que muda”, pontua.

Para os especialistas, a discussão vai além da curiosidade ou da viabilidade técnica e envolve saúde, funcionalidade e qualidade de vida a longo prazo. “Quando mexemos na base do corpo, que são as pernas, todo o resto precisa se adaptar. Nem sempre essa adaptação acontece sem consequências”, resume Juliana Munhoz.

O debate em torno da cirurgia para diminuir a altura evidencia um ponto central da medicina contemporânea: nem tudo o que é tecnicamente possível é, necessariamente, indicado. Nesse caso, o consenso médico aponta que o desejo estético dificilmente compensa os riscos envolvidos.

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