
É o bicho!Colunas

Estudo revela que fezes de baleias são fertilizantes vitais do oceano
Pesquisa da Universidade de Washington mostra que o ferro excretado pelas baleias impulsiona o ciclo de vida oceânico
atualizado
Compartilhar notícia

A caça histórica de baleias pode ter causado um impacto muito mais profundo do que a simples redução de suas populações: ela desequilibrou a química dos oceanos. Um novo estudo conduzido por oceanógrafos da Universidade de Washington confirma que as fezes das baleias de barbatana são ricas em ferro e cobre, nutrientes essenciais para o fitoplâncton.
Como esses microrganismos formam a base da cadeia alimentar e ajudam a remover o carbono da atmosfera, a descoberta revela que as baleias atuam como verdadeiras “jardineiras” dos mares, fertilizando ecossistemas que hoje sofrem com a escassez desses metais.
Entenda a importância da descoberta
-
Reciclagem de nutrientes: as baleias consomem o krill (rico em ferro) e devolvem esse nutriente à superfície por meio das fezes, alimentando o fitoplâncton que, por sua vez, serve de alimento ao próprio krill.
-
Paradoxo do krill: a extinção das baleias não aumentou a quantidade de krill; pelo contrário, sem o “fertilizante” das baleias, o ecossistema empobreceu e a população de krill também despencou.
-
Química acessível: o estudo identificou “ligantes” orgânicos nas fezes que tornam o ferro e o cobre assimiláveis pelos organismos, evitando que esses metais se tornem tóxicos ou se percam no fundo do mar.
-
Impacto climático: ao estimular o crescimento do fitoplâncton, as baleias potencializam a captura de CO₂, tornando-se peças-chave na regulação do ciclo global de carbono.

Para chegar a essas conclusões, a equipe analisou amostras fecais de baleias-jubarte no Oceano Antártico e de baleias-azuis na costa da Califórnia.
“Nossa análise sugere que a dizimação das baleias devido à caça histórica pode ter tido implicações biogeoquímicas amplas para o Oceano Antártico”, afirma Patrick Monreal, autor principal da pesquisa publicada na revista Communications Earth & Environment.
A coleta do material é facilitada por uma característica peculiar: as fezes de baleia flutuam, apresentando-se como uma espécie de lama ou pasta na superfície. De acordo com a professora assistente Randie Bundy, a hipótese confirmada é de que esses animais adicionam nutrientes que permitem ao fitoplâncton proliferar em áreas onde o ferro é o fator limitante para a vida.

O papel do microbioma
Um dos pontos que mais surpreendeu os cientistas foi a presença de cobre em formas não tóxicas. Inicialmente, os níveis encontrados assustaram a equipe, mas a análise detalhada mostrou que moléculas orgânicas específicas transformam os metais em versões seguras e prontas para o consumo biológico.
Os pesquisadores acreditam que a origem dessa transformação esteja no sistema digestivo dos animais. “Parece que as bactérias no intestino das baleias podem ser fundamentais”, pontua Monreal.
Essa descoberta reforça a tese de que grandes mamíferos marinhos desempenham um papel muito mais ativo nos ciclos químicos do planeta do que se imaginava, funcionando como um motor biológico que sustenta a biodiversidade em escala global.
