É o bicho!

Estudo revela que fezes de baleias são fertilizantes vitais do oceano

Pesquisa da Universidade de Washington mostra que o ferro excretado pelas baleias impulsiona o ciclo de vida oceânico

atualizado

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Mike Korostelev/Getty Images
Imagem colorida mostra duas baleias cachalote nadando em alto mar, uma filhote e outra adulta
1 de 1 Imagem colorida mostra duas baleias cachalote nadando em alto mar, uma filhote e outra adulta - Foto: Mike Korostelev/Getty Images

A caça histórica de baleias pode ter causado um impacto muito mais profundo do que a simples redução de suas populações: ela desequilibrou a química dos oceanos. Um novo estudo conduzido por oceanógrafos da Universidade de Washington confirma que as fezes das baleias de barbatana são ricas em ferro e cobre, nutrientes essenciais para o fitoplâncton.

Como esses microrganismos formam a base da cadeia alimentar e ajudam a remover o carbono da atmosfera, a descoberta revela que as baleias atuam como verdadeiras “jardineiras” dos mares, fertilizando ecossistemas que hoje sofrem com a escassez desses metais.

Entenda a importância da descoberta

  • Reciclagem de nutrientes: as baleias consomem o krill (rico em ferro) e devolvem esse nutriente à superfície por meio das fezes, alimentando o fitoplâncton que, por sua vez, serve de alimento ao próprio krill.

  • Paradoxo do krill: a extinção das baleias não aumentou a quantidade de krill; pelo contrário, sem o “fertilizante” das baleias, o ecossistema empobreceu e a população de krill também despencou.

  • Química acessível: o estudo identificou “ligantes” orgânicos nas fezes que tornam o ferro e o cobre assimiláveis pelos organismos, evitando que esses metais se tornem tóxicos ou se percam no fundo do mar.

  • Impacto climático: ao estimular o crescimento do fitoplâncton, as baleias potencializam a captura de CO₂, tornando-se peças-chave na regulação do ciclo global de carbono.

Estudo revela que fezes de baleias são fertilizantes vitais do oceano
Ilustração das interações (A) pré-baleia e (B) pós-baleia entre baleias, krill (rosa), um organismo semelhante a um camarão, e fitoplâncton (canto superior esquerdo de cada painel) no Oceano Antártico. O extermínio das baleias nesse ecossistema e a consequente queda na população de krill em algumas antigas áreas de caça às baleias implicam uma grande alteração na quantidade de ferro disponível devido à perda de baleias e, portanto, de micronutrientes nas fezes das baleias (canto inferior esquerdo)

Para chegar a essas conclusões, a equipe analisou amostras fecais de baleias-jubarte no Oceano Antártico e de baleias-azuis na costa da Califórnia.

“Nossa análise sugere que a dizimação das baleias devido à caça histórica pode ter tido implicações biogeoquímicas amplas para o Oceano Antártico”, afirma Patrick Monreal, autor principal da pesquisa publicada na revista Communications Earth & Environment.

A coleta do material é facilitada por uma característica peculiar: as fezes de baleia flutuam, apresentando-se como uma espécie de lama ou pasta na superfície. De acordo com a professora assistente Randie Bundy, a hipótese confirmada é de que esses animais adicionam nutrientes que permitem ao fitoplâncton proliferar em áreas onde o ferro é o fator limitante para a vida.

A temporada das baleias em Ilhabela teve início no dia 3 de junho, com 16 jubartes avistadas na 1ª expedição. Saiba como ver também - Metrópoles
Para investigar o possível papel das fezes de baleia nesse ecossistema, o estudo analisou cinco amostras fecais

O papel do microbioma

Um dos pontos que mais surpreendeu os cientistas foi a presença de cobre em formas não tóxicas. Inicialmente, os níveis encontrados assustaram a equipe, mas a análise detalhada mostrou que moléculas orgânicas específicas transformam os metais em versões seguras e prontas para o consumo biológico.

Os pesquisadores acreditam que a origem dessa transformação esteja no sistema digestivo dos animais. “Parece que as bactérias no intestino das baleias podem ser fundamentais”, pontua Monreal.

Essa descoberta reforça a tese de que grandes mamíferos marinhos desempenham um papel muito mais ativo nos ciclos químicos do planeta do que se imaginava, funcionando como um motor biológico que sustenta a biodiversidade em escala global.

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