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Entre espera e o instante: desafios de fotografar aves raras no Brasil
Fotógrafo revela como é a rotina intensa de planejamento, paciência e emoção ao registrar espécies exóticas
atualizado
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A busca por aves raras vai muito além de apertar o botão da câmera. Para o fotógrafo Bruno Boni, especializado em bird photography, o trabalho envolve estratégia, rede de contatos e uma dose intensa de dedicação — tudo isso para capturar, muitas vezes, apenas alguns segundos de imagem.
“A procura por pássaros raros te coloca em um estado de foco absoluto. Quando surge uma boa oportunidade, você esquece de todos os problemas e canaliza tudo naquilo. A maior parte do trabalho não está na hora da foto e sim no planejamento. Hoje, apesar da tecnologia ter ajudado muito, o maior recurso ainda é humano”, explica.
Conhecimento coletivo
Segundo Bruno, ferramentas digitais facilitaram bastante o processo, mas não substituem o conhecimento coletivo da comunidade de observadores. “Na parte da tecnologia temos recursos fantásticos, como o portal brasileiro Wikiaves, o maior do mundo focado em aves e importante ferramenta de ciência cidadã, e o Merlin, um app que é um guia digital desenvolvido pelo laboratório de ornitologia da Cornell University, que usa até IA para identificar aves pelas suas fotos e, mais legal ainda, pela gravação do canto em tempo real.”
Ainda assim, o diferencial está nas conexões humanas. “Mas a parte mais valiosa de todas ainda é a rede de amigos e o conhecimento pessoal. A comunidade de ‘passarinheiros’ só cresce no Brasil e tem muita gente fantástica pronta para te ajudar a planejar a melhor forma de fotografar as espécies mais espetaculares e raras. Participo de diversas comunidades.”
Essa dedicação pode significar longas viagens e muita espera. “Não é incomum marcar uma viagem de pelo menos uma semana de duração apenas para ir atrás de uma espécie que você ainda não fotografou. Tudo isso para ficar alguns minutos com o bicho e talvez ter 2 ou 3 segundos de chance de fazer a foto perfeita. E quando você consegue, é uma euforia, talvez superior a ganhar na mega sena, porque não dependeu só de sorte: foi dever cumprido.”

Destaque verde e amarelo
O Brasil, segundo Bruno Boni, é um verdadeiro paraíso para esse tipo de fotografia. “Temos o privilégio de ser o segundo país mais rico do mundo em espécies de aves. Possivelmente o primeiro com o avanço de pesquisas e novas descobertas.”
“Aqui no Sudeste é um privilégio morar literalmente dentro do que já foi a Mata Atlântica e estar a pouco tempo de lugares fenomenais. Por exemplo, uma vez recebi um grupo de amigos estrangeiros que posaram de conexão em Guarulhos e tinham apenas um dia para ‘passarinhar’ no Brasil. Quem é passarinheiro vai entender fácil, mas eu escolhi levá-los para Tapiraí, cerca de 3h de São Paulo, para ver algumas das espécies mais raras do mundo, que só existem na nossa Mata Atlântica”, detalha.


Paixão desde criança
Para o fotógrafo, a relação com a natureza começou cedo — e de forma curiosa. Para ele, a paixão é resultado de múltiplos fatores. “Eu acredito que é uma mistura de muitas coisas, o mais importante sendo um chamado natural, mas que seria impossível de ser desenvolvido sem o ambiente e as pessoas que me entenderam ao longo da vida.”
Com o tempo, o olhar evoluiu de registros simples para a busca estética. “No começo a minha motivação era a empolgação em descobrir e registrar ‘o que tem aqui?’. Com o tempo e o estudo da fotografia essa motivação casou com a busca eterna pela estética perfeita: composição, qualidade, resolução, nitidez… tudo o que completa o ciclo e permite tornar a atividade arte de verdade. Hoje a motivação é duas coisas ao mesmo tempo: a emoção da descoberta e a busca pela imagem perfeita.”
Atualmente, ele colhe os frutos desse esforço contínuo. “Hoje tenho muito orgulho de que as aves são uma das séries mais procuradas do meu catálogo, com colecionadores do mundo inteiro buscando essas imagens para suas casas e acervos. A fotografia é uma potente ferramenta para revelar os tesouros naturais que são invisíveis para a maior parte das pessoas. Quero que se apaixonem por eles e se tornem agentes da proteção ao que ainda resta.”

Sentimento de realização
Entre todas as experiências, uma se destaca pela dificuldade — e pela recompensa. “Foi um caso que combinou a raridade com um detalhe muito curioso: uma ave que só mostra a sua beleza verdadeira por, literalmente, menos de dois segundos. A Maria-leque-do-sudeste é uma ave espetacular e com o status de conservação oficialmente vulnerável (uma etapa antes ameaçada de extinção). Ela só existe, principalmente, em uma pequena parte da Mata Atlântica, entre Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.”
O desafio não está apenas em encontrá-la, mas em registrar seu momento mais raro. “Mas nem é a sua raridade o que me atraiu, e sim a beleza. Ela tem na cabeça um leque opulente, quase carnavalesco, entre o laranja-avermelhado com as pontas que brilham em azul metálico. Mas tem um detalhe: esse leque fica totalmente escondido entre as penas da cabeça e ela abre poucas vezes por dia, de forma inesperada, por menos de dois segundos. Imagina a dificuldade de fotografar?”, brincou.

A jornada até o clique perfeito foi longa. “Para a Maria-leque eu fiz uma viagem sozinho, para um local chamado Trilha dos Tucanos, em Tapiraí, São Paulo, que fica a cerca de três horas da capital. Eu estava em meio a uma viagem de trabalho e só tinha um dia. A espécie praticamente só é observável no período reprodutivo, entre outubro e dezembro. Eu não tinha mais chance de voltar naquele ano e já tinha perdido a oportunidade nos anteriores.”
Nem o clima ajudou. “No local, começou uma garoa fina e estava muito escuro na mata, tornando tudo muito mais desafiador tecnicamente. Mas o casal estava lá o tempo todo, cuidando do ninho, que é curiosamente construído como um saquinho pendurado em um galho, sempre sobre uma corredeira, como estratégia para evitar predadores.”
A espera testou os limites. “1 hora… nada de leque. 2 horas… nada. Na terceira hora o macho abriu o leque mas lançou voo ao mesmo tempo e a foto ficou borrada pelo movimento. 4 horas… pega um inseto aqui para comer, outro lá… 5 horas… nada, comecei a ficar com medo de escurecer. Finalmente, 6 horas depois, todo molhado, bateria acabando, estômago roncando e a luz ameaçando ir embora, a fêmea começou a se coçar, a ajeitar as penas e abriu o seu leque em um dos mais espetaculares fenômenos naturais que eu já presenciei.”
E então, em segundos, tudo aconteceu. “O dedo estava lá no botão, doendo, e atenção aguçada. Pronto, fiz uma pequena sequência de fotos nesses dois segundos e depois foi só escolher a melhor. Acho que não existe mais nada no mundo que consiga prender meu foco absoluto por tanto tempo. No final é paciência e perseverança. E quem diria, do lado de uma das maiores cidades do mundo!”


















