É o bicho!

Bailarina cega e cão-guia: a luta pela autonomia que vai além do palco

Com apoio de Faísca, a bailarina Giseli Camillo transforma deficiência em movimento e destaca a urgência de inclusão como um direito real

atualizado

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Bailarina cega e cão-guia: a luta pela autonomia que vai além do palco
1 de 1 Bailarina cega e cão-guia: a luta pela autonomia que vai além do palco - Foto: Imagem cedida ao Metrópoles

No palco, a leveza dos passos de Giseli Camillo, 47 anos, não deixa transparecer as barreiras invisíveis que ela precisou saltar fora dos holofotes. Cega desde os 16 anos, a bailarina e professora paulistana vive hoje uma nova fase de liberdade, proporcionada por Faísca, seu cão-guia há nove meses.

Mais do que um companheiro, o animal é o símbolo de uma conquista que, para muitos, ainda é um privilégio: o direito de ir e vir sem depender de terceiros. A trajetória de Giseli, marcada por superações acadêmicas e artísticas, ganha um novo ritmo neste mês, em que se celebra o Dia Internacional do Cão-Guia (29/04).

Entenda

  • Superação educacional: após sofrer bullying e exclusão na infância por causa da visão, Giseli alfabetizou-se em casa e, na vida adulta, formou-se em Educação Física, Dança e Yoga.

  • O papel do cão-guia: para Giseli, Faísca não é apenas um guia, mas um “passaporte social” que substitui a dependência de ajuda humana pela liberdade de movimento.

  • Formação especializada: o treinamento de um cão-guia leva cerca de um ano e meio, envolvendo famílias socializadoras e instrutores técnicos antes da doação gratuita.

  • Cenário nacional: o Instituto Adimax, responsável pelo Faísca, é o maior centro da América Latina, tendo entregue mais da metade dos cães-guias em atividade no Brasil.

Do preconceito à graduação

A história de Giseli começou com a catarata congênita e o estigma. “As professoras me chamavam de preguiçosa”, relembra ela, sobre uma época em que a baixa visão era pouco compreendida no ambiente escolar. O isolamento forçado pela falta de inclusão só foi rompido aos 24 anos, quando ela decidiu retomar os estudos.

Hoje, como professora na Associação Fernanda Bianchini, ela coordena o balé de cegos e ensina que o corpo pode falar quando os olhos não veem. No entanto, mesmo com todo o sucesso profissional, a falta de autonomia nas ruas era um nó a ser desatado.

Bailarina cega e cão-guia: a luta pela autonomia que vai além do palco
Giseli e o cão Faísca no balé

“Ele é os meus olhos e puro amor”

A chegada de Faísca, viabilizada pelo Instituto Adimax, mudou a rotina da bailarina. Se antes o trajeto para o trabalho exigia auxílio, hoje a dupla circula com confiança. Enquanto Giseli brilha nas apresentações, Faísca espera pacientemente nos bastidores, pronto para guiar a tutora de volta para casa.

“O Faísca representa amor, independência e autonomia. Ele é a prova de que eu não preciso mais depender de ninguém para existir na cidade”, relata emocionada. De acordo com Fabiano Pereira, coordenador técnico do Instituto, o impacto vai além da locomoção:

“Ninguém interage com uma bengala, mas todos querem interagir com um cão”.

Para ser cão-guia, formação leva até 2 anos e pode custar R$ 100 mil
A quantidade de cães em atividade ainda é um grão de areia se compararmos com o número de pessoas com deficiência visual severa no país

Um processo de longo prazo

A conquista de um cão-guia é o resultado de um processo rigoroso e solidário. Antes de chegar a Giseli, Faísca passou um ano com uma família socializadora voluntária, aprendendo a lidar com situações do cotidiano, como barulho de trânsito e circulação em locais públicos. Após esse período, o animal retornou ao instituto para um treinamento específico de seis meses.

Para ser cão-guia, formação leva até 2 anos e pode custar R$ 100 mil
Para ser cão-guia, formação leva até 2 anos e pode custar R$ 100 mil

 A quantidade de cães em atividade ainda é um grão de areia se compararmos com o número de pessoas com deficiência visual severa no país, que ultrapassa 7 milhões segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Eu gostaria muito que tivesse uma preocupação do governo em criar políticas para incentivar o treinamento de cães-guia e também a adequação dos espaços para pessoas com deficiência visual. Contamos com o apoio locais como o Instituto Adimax, mas ainda é muito pouco, não podemos ser invisíveis, precisamos e merecemos muito mais”, defende Giseli.

Instituições como a Adimax trabalham para que a inclusão deixe de ser um esforço individual e heróico das pessoas com deficiência, tornando-se, enfim, uma realidade estrutural.

Serviço: o Instituto Adimax realiza a entrega gratuita de cães-guias para candidatos que preencham os requisitos. As inscrições podem ser feitas pelo site oficial da instituição.

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