
Vítima de suposto atentado a tiros acusa vice de Marçal de ser o mandante
Polícia do Distrito Federal ainda não concluiu inquérito e, até agora, não encontrou evidências que sustentem acusação

Vítima de um suposto atentado em outubro de 2024 em Brasília, quando disse ter tido o carro alvejado por tiros disparados pelos ocupantes de uma motocicleta, o advogado Joaquim Pereira de Paula Neto afirma ter certeza que Leonardo “Avalanche” (PRTB), candidato à vice-Presidência da República na chapa do inelegível Pablo Marçal (PRTB), foi o mandante.
“Pode escrever. Claro que foi ele que tentou matar a gente“, disse o advogado, por telefone, na quarta-feira (19). Ele chegou a ser presidente estadual do PRTB em São Paulo, mas rompeu com Avalanche e hoje diz que o político, presidente nacional do PRTB, é “bandido”. A polícia ainda não concluiu o inquérito e até agora não encontrou evidências que sustentem a acusação.
Documentos obtidos pela coluna mostram que Joaquim e a sócia Patrícia Reitter, que dirigia o carro alvo dos tiros, haviam registado dois boletins de ocorrência nas semanas anteriores informando a polícia civil de São Paulo e do Distrito Federal que estavam sendo ameaçados, tinham a vida sob risco, e culpavam Avalanche.
Oito dias antes do suposto atentado, os dois advogados haviam entregue à Polícia Federal documentos e celulares que demonstravam que Avalanche cooptou pessoas em Ferraz de Vasconcelos (SP) para se passarem por fundadores do PRTB e, utilizando documentos falsos, votarem na convenção que o levou à presidência do partido.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesProcurado pela coluna, Avalanche não respondeu as mensagens nem atendeu ligações.
O que dizem os boletins de ocorrência contra Avalanche
O primeiro dos boletins de ocorrência foi registrado na 3ª Delegacia de Polícia de Carapicuíba, na Grande São Paulo, tendo os advogados como vítimas e Avalanche como investigado. À polícia, Joaquim relatou que no início de 2024 havia sido procurado por Avalanche, seu amigo de muitos anos, que disse que assumiria a presidência nacional do PRTB e precisava de ajuda. Um mês depois, em conversa sobre “opositores políticos”, o político disse-o que “já havia mandado matar um opositor e a família dele”.
Joaquim recebeu a oferta de virar secretário nacional do partido, não poderia assumir o cargo, mas “tomou posse de maneira extraoficial”, conforme contou à polícia. Acabou assumindo o diretório estadual de São Paulo, que foi transferido para seu próprio escritório em Guarulhos (SP) em maio, após o Estadão publicar que Tarcísio Escobar de Almeida, então presidente do PRTB de São Paulo, era vinculado ao PCC.
Ele e Patrícia contaram à polícia que romperam com Avalanche após o amigo começar a tomar decisões “arbitrárias e unilaterais” enquanto presidente do PRTB. Após as primeiras discordâncias, Patrícia “passou a receber visitas na portaria do edifício onde residia, de pessoas desconhecidas, indagando se ela estava morando lá” e observar “uma movimentação de pessoas estranhas na entrada da garagem do estacionamento do seu escritório” em Brasília, pelo que relatou.
Temendo pela segurança, passou a andar de carro blindado. Em maio, quando aconteceu o rompimento definitivo, Patrícia passou a ouvir de terceiros que Avalanche anunciou que iria matá-la, sempre de acordo com seu relato à polícia. A partir de junho, passou a receber mensagens com ameaças pelo Whatsapp, de números desconhecidos.
Até que, no dia em que abriram boletim de ocorrência, os sócios estavam tomando café em um posto de combustível em Guarulhos quando um Fiat Idea encostou no local e o motorista “ficava encarando-a fixamente, com um olhar de morte”. Ao questionar o que ele fazia ali, ouviu que “a balança do carro dela estava estragada e era perigoso da roda se soltar”, o que foi entendido como promessa de um mal injusto e grave “de maneira velada”.
O carro ainda perseguiu o casal pelas ruas de Guarulhos até os advogados conseguirem despistar. Seguiram até a delegacia, onde disseram temer pela vida e planejar “buscar asilo político no exterior”.
Novo boletim de ocorrência, em Brasília
Patrícia voltaria a procurar a polícia em 27 de setembro de 2024, desta vez na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Brasília. Ali, disse que passou ser alvo de Avalanche quando o político passou a desconfiar que ela é quem teria vazado a relação de Tarcísio com o PCC à imprensa.
Antes disso, em maio de 2024, se encontrou com Avalanche em Brasília e ele teria dito o seguinte: “Qualquer pessoa que se opuser a mim, eu vou mandar matar. Não só a pessoa, mas todos que estiverem em casa, criança, idoso, cachorro…”
Nos últimos tempos, vinha recebendo ligações anônimas, de pessoas que usam tom ameaçador e dizem que ela está mexendo com gente importante. “Em meio a tanta conversa, não sabe nem precisar quais ameaças tem partido a mando de Leonardo ou de Tarcísio ou de ambos”
Afirmou ainda que tinha receio de dar mais informações à polícia, pois “Tarcísio sempre se intitulou como sendo de grupo criminoso“.
Dezoito dias depois desse depoimento, em 10 de outubro de 2024, os dois informaram à polícia terem sido vítimas de um atentado a tiros na rodovia DF-001, próximo à região administrativa de Vicente Pires. De acordo com o relato deles, Patrícia estava dirigindo, com Joaquim de carona, quando eles foram abordados por duas pessoas em uma moto, que atiraram na lateral do veículo. Como o carro era blindado, eles não se feriram.
Joaquim acusa Avalanche de ser bandido
À coluna, Joaquim Neto relatou que já foi muito amigo de Avalanche, mas hoje o tem como inimigo. Segundo ele, Tarcísio Escobar dizia abertamente ser membro do PCC, assim como outras duas pessoas que faziam parte do grupo próximo a Avalanche.
Tarcísio, porém, só ficou três dias no cargo – sua ligação com o PCC vazou à imprensa e Avalanche precisou substituí-lo formalmente. Como havia um acordo para que Tarcísio comandasse o partido em São Paulo e este temia ser passado para trás pelo grupo de Pablo Marçal, a solução foi colocar alguém neutro – Joaquim – na presidência do diretório.
“Pra nós ele se intitulava assim, como sendo do PCC. Ele disse isso várias vezes. Várias, várias. Mas eu nunca vi eles falando de arma, de drogas, de dinheiro, nunca vi ameaçando ninguém. Eles ficavam falando que eram sintonia final. Era o Tarcísio, o Gordo, e mais um ex-policial de São Paulo que eu não lembro o nome. Diziam que eram do PCC e matavam“.
Joaquim diz que Avalanche “sempre foi um estelionatário” que vivia quebrado. “Eu pagava o almoço dele, porque ele não tinha dinheiro nenhum até assumir o partido. Depois disso passou a cobrar as pessoas e a ter dinheiro”.
Quando os dois racharam, Joaquim entregou o próprio celular para a Polícia Federal. Procurado pelo homem que Avalanche teria contratado para arregimentar amigos e filiares para se passarem por fundadores do PRTB, convenceu-o a depor na Polícia Civil de Ferraz de Vasconcelos. A sócia comprou os celulares dos parceiros de Avalanche na empreitada e também entregou os aparelhos à PF.
“Quando o delegado viu o tamanho do problema, mandou para a PF em Brasília. Eles tinham um grupo de conversa com o Leonardo orientando como falsificar, falando: ‘Pega o plástico da identidade velha, para parecer real”‘. Os documentos falsificados foram juntados inclusive aos autos de outros processos envolvendo Avalanche.
“Oito dias depois nosso carro foi metralhado. Eu pedi proteção da polícia, mas polícia não deu”, conta Joaquim, que relata ter negócios fora do país e estar preparando a família para ir embora do Brasil. Antes, torce para a PF agir. “A PF já ouviu todas as pessoas envolvidas e todas confirmaram o que estava escrito no celular”.
Por precaução, mantém em cofres dois celulares que não foram entregues à Polícia Federal. Um no Brasil, outro nos Estados Unidos. “Se der barulho muito grande, temos mais dois por segurança”.



