Cesta que matou jovem foi construída de improviso para atender emenda
Vereador André Santos enviou emenda para aulas de basquete em local sem quadra. Moradores construíram tabela para projeto funcionar

A Prefeitura de São Paulo, a partir de emenda de André Santos (Republicanos), repassou R$ 50 mil para bancar aulas de basquete em um clube sem tabela de basquete, na zona leste da cidade. Para conseguir realizar o projeto, moradores da comunidade ergueram por conta própria duas cestas. Uma delas caiu quando um adolescente se pendurou no aro, no sábado (16). Ele morreu na hora.
O Clube da Comunidade (CDC) Jardim Nélia, no Itaim Paulista, onde o acidente aconteceu, foi reformado no primeiro semestre do ano passado e a reinauguração, em julho, contou com a participação do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Na obra, a prefeitura substituiu um campinho de areia por um com grama artificial, reformou os muros do CDC e instalou aparelhos de ginástica e playground infantil.
Apesar de o CDC não ter sido dotado de quadra de basquete, o vereador André Santos, que esteve ao lado de Nunes na inauguração (vide a galeria abaixo), destinou emenda de R$ 50 mil para o projeto “Basquete na Favela”, que consistia na manutenção de uma escolinha de basquete no local por três meses, entre 16 de dezembro de 2024 e 16 de março de 2025. O Google Maps mostra que, em março de 2025, o local tinha as colunas, mas não as tabelas.
De acordo com Mestrando Jacaré, presidente do Instituto Didi Santana, que administra o CDC e recebeu a emenda parlamentar, a tabela foi construída há cerca de sete meses, para atender à emenda. “O projeto era para compra de materiais, uniforme, bola, coisas que são caras. E para pagar coordenador, professor de educação física, técnico, durante três meses. Inicialmente a gente pensou em comprar a tabela de plástico, mas é muito caro, e a gente não tinha dinheiro”, ele contou ao Metrópoles.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO projeto aprovado previa R$ 14 mil em materiais esportivos e R$ 31,8 mil em recursos humanos para quatro aulas semanais de basquete, cada uma delas de duas horas.
Sem dinheiro para comprar a estrutura correta, a opção foi por construir colunas de concreto e instalar no alto delas tabelas compradas de segunda mão. “A comunidade foi ajudando a fazer. A gente fez tudo direitinho, com sapata, ferragem, nunca imaginamos que isso pudesse acontecer. Agora estamos esperando a perícia para entender”, afirma Jacaré.
Uma das colunas tombou quando Levi Edson Correa se pendurou no aro para comemorar uma cesta, no sábado. A tabela caiu sobre a cabeça do jovem de 17 anos, que morreu na hora. “Ele era um garoto muito bom. Trabalhador, praticava esporte, era da igreja, família boa. Treinava conosco durante a semana e, no sábado, que a quadra fica aberta para a comunidade, ele foi bater bola com um amigo. Lamentamos muito, muito, muito, que isso tenha acontecido.”
À coluna, a assessoria de imprensa de André Santos afirmou que o vereador lamenta profundamente o ocorrido e que a emenda “teve como único escopo a realização de oficinas de basquete para a população – sem qualquer relação com obras, reformas, instalações ou estruturas físicas”. Ele não respondeu ao questionamento sobre por que enviou emenda para aulas de basquete em local sem estrutura para a prática do basquete.
“O repasse foi formalizado por meio de Termo de Fomento aprovado pelos órgãos competentes. Vale ressaltar que o referido projeto foi finalizado há meses, tendo cumprido todas as exigências do plano de trabalho e atendido rigorosamente às normas, regras e procedimentos legais do município”, continuou.
Já a SEME, após a publicação da reportagem, destacou que os recursos repassados ao Instituto DiDi não eram destinados à realização de nenhuma obra no local. “Os valores tinham como objetivo exclusivo a compra de materiais esportivos como bolas e uniformes, além de pagamentos dos profissionais responsáveis por ministrar as aulas, pelo projeto Basquete na Favela. A instalação da área para basquete foi uma iniciativa da associação de moradores”, disse a secretaria.
“A Prefeitura se solidariza com a família do jovem e acompanha a apuração do caso pelas autoridades. Cabe ressaltar que para a formalização da parceria com o Instituto DiDi Santana cumpriu integralmente toda a legislação vigente. O espaço foi interditado preventivamente pela Subprefeitura do Itaim Paulista até a conclusão das investigações”, completou a gestão municipal.














