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Prefeitura de SP mantém creche abandonada e 21 serão demitidos
Prefeitura de São Paulo mantém creche abandonada há quatro anos no Parque das Bicicletas e 21 educadores estão de aviso prévio
atualizado
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Vinte e um funcionários de uma creche municipal na região do Ibirapuera estão de aviso prévio e devem perder seus empregos na virada do ano, enquanto a prefeitura de São Paulo mantém abandonado há quatro anos o prédio de uma creche cuja prometida reforma nunca começou. Cerca de 150 bebês e crianças serão afetados, rompendo os vínculos pedagógicos previstos no currículo da educação infantil municipal.
O prédio abandonado é do CEI (Centro de Educação Infantil) Indianópolis e fica dentro do Parque das Bicicletas, na zona sul da cidade. A creche foi interditada sob risco de ruir no final de 2021 e aguarda uma obra que nunca foi contratada pela gestão Ricardo Nunes (MDB).
Em quatro anos, a prefeitura pagou mais de R$ 1,3 milhão pelo aluguel de um imóvel particular ali perto, para onde o CEI Indianópolis foi deslocado provisoriamente. Em julho, a proprietária informou à Secretaria de Educação que o prédio seria vendido à construtora Cyrela, que vai levantar um edifício e acionou cláusula do contrato para exigir a desocupação até 30 de janeiro.
Desde setembro os pais de cerca de 70 bebês e crianças cobram uma solução que atenda o interesse dos pequenos. “A comunidade precisa de uma solução definitiva, que assegure não apenas a preservação do espaço escolar, mas também a continuidade de um ecossistema educacional e comunitário exemplar, já reconhecido e valorizado pelas famílias e por toda a comunidade local”, diz um abaixo assinado com mais de 800 assinaturas.
Só no fim do mês passado é que a Diretoria Regional de Educação do Ipiranga anunciou aos pais e educadores sua decisão: os bebês vão para um lado – serão transferidos para uma EMEI (pré-escola), que para tanto vai se transformar em CIMEI (creche e pré-escola) – e os profissionais que cuidam deles, para outro. Para alocar todos os servidores do CEI Indianópolis de vez só vez, o CEI Ítalo Brasil Portieri vai fechar as portas.
“A decisão da diretoria de ensino não tem bom senso, não tem razoabilidade. Vão mandar embora 100% dos funcionários da escola e trazer funcionários 100% novos. É um dano para as crianças, para o desenvolvimento das crianças. Estão tratando como ‘tanto faz’. A decisão está sendo tomada para resolver um BO da diretoria. O CEI não tem mais prédio e precisamos botar o servidor em algum lugar. O jeito mais fácil de fazer isso sem ferir o interesse dos servidores é botar eles nesse CEI. Manda todo mundo embora e está resolvido o problema administrativo”, diz Felipe Moyses, gestor de uma escola particular e pai de uma criança que frequenta a creche.

O CEI Ítalo Brasil Portieri é vizinho de muro do Parque das Bicicletas e comemorou 50 anos de história em setembro. Ainda que fique em um prédio público, ele tem administração indireta – a prefeitura paga à Associação Cristã de Educação Infantil Shammah para gerí-lo.
Pela decisão anunciada na semana passada, o contrato com a entidade será rompido unilateralmente e o CEI Ítalo vai deixar de existir. As 21 profissionais que trabalham lá, todas mulheres, estão de aviso prévio para perderem seus empregos na virada do ano.
Crianças longe dos educadores
Cerca de 80 bebês e crianças hoje atendidos pelo CEI Ítalo continuarão sendo acolhidos no mesmo prédio no ano que vem, mas por uma equipe completamente diferente. Os pais também já abriram abaixo assinado na tentativa de reverter a decisão.
“É uma decisão irresponsável, que pretere o interesse das crianças, que deveria estar em primeiro lugar. Decisão tomada sem qualquer tipo de participação escolar, sem qualquer diálogo”, reclama Moyses. Uma comissão envolvendo familiares das crianças, educadores e funcionários foi recebida na terça-feira (4) pela diretora de ensino do Ipiranga, que teria dito ser um “absurdo” pais questionarem decisões da diretoria.
De acordo com uma funcionária, a maior parte das crianças está na creche desde que tinham poucos meses de vida e criaram vínculos com pessoas de referência. “Tem crianças neurodivergentes, crianças com deficiência, e não vai ter nenhuma transição. Um dia elas vão chegar aqui e vai ter outra equipe”, diz essa funcionária, que teme retaliações.
Pais das duas escolas e os profissionais do CEI que será fechado alegam que o currículo da cidade de São Paulo estabelece que “o acolhimento e o estabelecimento de vínculos estáveis entre crianças e educadores” como condições essenciais para o desenvolvimento das aprendizagens e para a garantia de uma educação de qualidade na primeira infância e que “as transições entre etapas, turmas e profissionais devem ocorrer de maneira planejada e gradual”.
Procurada pelo Metrópoles, a prefeitura não respondeu questionamentos sobre o abandono do prédio do CEI Indianópolis. A Secretaria Municipal de Educação enviou a seguinte nota:
“A Secretaria Municipal de Educação (SME) informa que está garantida para todas as crianças hoje matriculadas no CEI Indianópolis a continuidade de atendimento na rede municipal. A mudança de endereço da unidade é necessária porque o imóvel onde fica é particular e será vendido pela proprietária. A partir de 2026, as crianças do CEI Indianópolis serão transferidas, então, para o prédio onde atualmente funciona o CEI Italo Brasil Portieri. O local está no mesmo bairro da creche Indianópolis e em um imóvel municipal. Também no próximo ano, a Secretaria vai ampliar as vagas de creche na região com a transformação da EMEI Dona Anita Costa em um Centro Municipal de Educação Infantil (CEMEI), para atender crianças de 0 a 3 anos, além dos alunos do ensino infantil. Portanto, haverá vagas para as crianças de todas as famílias interessadas. Em relação às funcionárias do CEI Italo Brasil Portieri, a organização social responsável pela gestão da unidade já ofereceu a possibilidade de transferência para outras creches que a entidade mantém com a Prefeitura.”
