Prefeitura quer limitar skate a 10% da área da Marquise do Ibirapuera
Proposta da secretaria do Verde e Meio Ambiente é que skatistas e patinadores só possam utilizar uma área demarcada

Na mesma semana em que a cidade de São Paulo coroou Rayssa Leal como tetracampeã mundial de skate, o mais tradicional ponto de prática da modalidade na capital paulista pode sofrer um duro golpe. A prefeitura de São Paulo deve apresentar nesta quarta-feira (10/12) uma proposta para limitar a área em que será possível andar de skate e patins na Marquise do Parque do Ibirapuera.
A coluna teve acesso a documento apresentado na semana passada a um grupo de skatistas e patinadores pelo secretário municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA), Rodrigo Ashiuchi. No mapa proposto pela gestão Ricardo Nunes (MDB), skate e patins só seriam permitidos em duas áreas delimitadas que somam 2.800 m², cerca de 10% da área total da marquise, que tem 27 mil m².
Pela regulamentação que propõe a SVMA, seria proibido andar de bicicleta na marquise, exceto em uma área kids de 750m² onde as crianças de até 10 anos poderiam usar bicicletas até aro 12. Também seriam proibido o uso de patinetes e outros veículos motorizados e/ou elétricos. Caixas de som, só até 65 decibéis. Na prática, isso proíbe ensaios de breaking, uma modalidade olímpica, e de grupos de dança.
Parte da documentação, revelada com exclusividade pela coluna, está na galeria abaixo.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA proposta foi apresentada por Ashiuchi, de acordo com pessoas que estiveram na reunião, como a melhor oferta possível aos skatistas e patinadores. Segundo o secretário, a questão é comercial: a concessionária Urbia entende a marquise como área estratégica para o plano comercial do parque. Por ser um raro espaço coberto — logo, preservado da chuva — há ali grande potencial de locação para marcas e eventos. A Urbia tem defendido a proibição total da prática esportiva sob a marquise.
No entender da prefeitura, o regulamento em vigor do Ibirapuera, da época da prefeita Marta Suplicy (PT), proíbe a “prática de esportes” debaixo da marquise. Logo, quando o espaço reabrir, em janeiro, skatistas e patinadores terão direito a nenhum espaço. A área de demarcada de 10%, proposta pela prefeitura, assim, seria uma concessão aos esportistas.
Representante dos praticantes, que se reúnem novamente nesta terça com a SMVA, alegam que historicamente crianças, patinadores, skatistas, dançarinos e visitantes de todo o tipo conviveram em harmonia sob a marquise, um lugar histórico da cidade de São Paulo exatamente por conta dessa miscigenação cultural.
Para o skate, especificamente, a marquise é um ponto de resistência. Foi ali que nasceu o skate paulistano, na década de 1980, com os Ibiraboys, que resistiram quando o então prefeito Jânio Quadros proibiu o skate na cidade. A liberação em 1989 por Luiza Erundina (então no PT) foi outro marco para São Paulo, e para a gestão dela.
Gestão Ricardo Nunes é criticada
A proibição à prática de modalidades esportivas no local, como patins, skate e patinete, assim como o veto a piqueniques, confraternizações e reuniões de “qualquer natureza”, constava em um documento apresentado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), durante uma reunião do Conselho Gestor do Parque Ibirapuera no início de novembro.
O arquivo é uma versão de um “Regulamento de Uso” para a Marquise José Ermírio de Moraes, nome oficial da obra do arquiteto Oscar Niemeyer, e estabelece regras como horário de uso do local, além de listar o que pode e o que não pode ser feito ali.
Além dessas proibições, o texto veta, por exemplo, o uso de brinquedos elétricos que “provoquem movimento e/ou ruído”, o uso de instrumentos musicais sem o aval da Prefeitura e da concessionária Urbia, que administra o parque, e o adestramento de animais no espaço.
A lista fala em proibir ainda “pessoas alcoolizadas e/ou drogadas, pedintes, pessoas com comportamento que não atendam à moral ou que coloquem em risco a integridade física, psíquica ou que incomodem de alguma forma a tranquilidade dos demais frequentadores”.
A ampla repercussão negativa fez com que a Prefeitura recuasse no projeto inicial de vetar as práticas no local. Em entrevista ao programa CBN São Paulo, Ashiuchi disse que a minuta apresentada na reunião do conselho tinha sido elaborado pela área técnica, mas que nem ele nem o prefeito da cidade estariam de acordo com o documento.
“Essa minuta vai totalmente ao contrário do que eu e o próprio prefeito Ricardo Nunes pensamos com relação ao uso da marquise”, afirmou ele, dizendo que “todo mundo vai andar na marquise, mas dentro de uma regulamentação de espaços específicos”. Segundo o secretário, haverá apenas “algumas proibições”, como o uso de patinetes elétricos, por questões de segurança.
Apoio ao regulamento
A concessionária Urbia, no entanto, é firme na defesa das restrições à prática de esportes no local.
“A Urbia informa que o uso exclusivo para pedestres não só contribui para a conservação como também evita conflitos de uso, frequentes no passado”, diz a concessionária em nota. A empresa afirma que “espaços apropriados para as práticas esportivas foram reformados e criados” desde que assumiu a gestão do parque.
“O Ibirapuera dispõe agora de um skate park adequado para essa modalidade e conta com uma pista sinalizada na Ladeira da Preguiça para a prática de skate downhill. Além disso, o uso de skate, patins e bicicletas é permitido em todas as áreas ao ar livre do parque. As bicicletas já eram proibidas sob a Marquise antes do fechamento para a reforma. Por fim, não é adequada qualquer atividade esportiva na Marquise do Ibirapuera”, encerra a nota.
Carta contra restrições
No fim do mês, frequentadores do parque divulgaram uma carta, assinada por usuários da marquise, arquitetos, moradores da região e entidades, defendendo que o lugar permaneça como “um espaço público, gratuito, aberto e democrático”.
“Ao longo de décadas, a Marquise foi lugar de circulação, encontro, permanência, práticas esportivas (patins, skate, bicicleta, corrida), feiras, manifestações culturais e convivência entre pessoas de todas as idades”, diz a carta, que pede à Prefeitura que garanta a manutenção dos usos históricos do local, com regras de convivência.
A vereadora Renata Falzoni (PSB), uma das articuladoras da carta, também solicitou em ofício ao secretário a “revisão participativa da minuta do Regulamento de Uso”. No pedido, a parlamentar destaca, entre outros pontos, que a proibição de “pedintes” pode legitimar abordagens discriminatórias e a criminalização de populações em situação de vulnerabilidade.
O que diz a Prefeitura
Em nota ao Metrópoles a SMVA disse que “está elaborando, de forma colaborativa, uma proposta de regulamentação para a Marquise do Parque Ibirapuera”.
“O objetivo é assegurar o acesso público, promover a convivência harmoniosa entre todos os frequentadores e preservar a sua função de interligar diferentes espaços do parque. O processo reúne a participação de associações de skatistas e patinadores, do Conselho Gestor, da Concessionária Urbia, de parlamentares e da sociedade civil. De maneira inédita, o novo documento prevê a destinação de mais de 4 mil metros quadrados em áreas exclusivas para práticas esportivas e para crianças, com a criação de uma “área kids”. A proposta também mantém a autorização para a realização de piqueniques e o uso de caixas de som, desde que respeitados os limites de decibéis estabelecidos pela legislação municipal”.
Relembre o fechamento da marquise
- A marquise está fechada desde 2019 por problemas em sua estrutura.
- Inicialmente, a obra no local seria feita pela própria Prefeitura e não foi objeto da concessão que entregou a adminstração do parque à Urbia.
- Em julho de 2023, a Prefeitura chegou a lançar uma licitação para a obra, com previsão de entrega para janeiro de 2025, mas o edital, foi questionado pelo Tribunal de Contas do Município (TCM).
- Depois disso, a gestão municipal sugeriu ao órgão que as obras fossem feitas pela concessionária que já administra o parque por meio de um aditivo contratual.
- A previsão inicial era de que a marquise fosse entregue em julho deste ano, mas a obra atrasou.
- Agora, a estimativa é que o espaço seja reaberto em janeiro de 2026, na semana de aniversário da cidade.
- O valor da obra, estimado inicialmente em R$71 milhões, pode passar de R$ 86 milhões ao final do projeto.




























