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Demétrio Vecchioli

Master emprestou R$ 336 milhões para 4 conselheiros e sócios da Biomm

Operação é semelhante à investigada pela CVM por coordenação para fazer disparar preços das ações da Ambipar

20/07/2026 02:00, atualizado 24/07/2026 17:16
Divulgação/ Biomm
Fábrica da Biomm

O envolvimento de Daniel Vorcaro com a farmacêutica Biomm ia muito além da participação acionária de 25,86% no capital social da empresa. Na mesma época em que o banqueiro se tornou acionista, o Banco Master, controlado por ele, registrou ter emprestado R$ 336 milhões para outros acionistas e conselheiros da empresa, justamente em período de forte valorização das ações da companhia.

A operação é semelhante à investigada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) referente à Ambipar. A área técnica da CVM aponta que Vorcaro, o investidor Nelson Tanure e o CEO da Ambipar, Tercio Borlenghi Junior, teriam agido em conluio para inflar as ações da companhia entre junho e agosto de 2024 a partir da aquisição coordenada de ações.

No caso da Biomm, no período em que Daniel Vorcaro emprestou R$ 336 milhões para dois fundadores da empresa, um conselheiro e um investidor, as ações se valorizaram mais de 300%, também em 2024, mas entre fevereiro e maio. Em dezembro, o Neofeed apontou que essa valorização estava atrelada a intensa movimentação de compra e venda envolvendo membros do conselho de administração.

A própria Biomm já disse, em fato relevante, “que a negociação de suas ações no mercado apresenta, historicamente, baixa liquidez, de forma que eventos isolados de compra ou venda possuem a capacidade de influir significativamente em sua cotação”. Com dinheiro do Master, outros acionistas teriam, assim, dado liquidez às ações, fazendo-as valorizar para, enfim, beneficiar os próprios acionistas, entre eles Vorcaro.

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Empréstimos para grupo ligado à Biomm

A coluna inicialmente noticiou dois empréstimos, que somam R$ 45 milhões, para que o ex-ministro do Turismo Walfrido dos Mares Guia, fundador da empresa, adquirisse um lote de ações na oferta de aumento da capital no início de 2024. Mas outros R$ 10,2 milhões foram cedidos para a Samos Participações, holding da família Mares Guia, e R$ 10,3 milhões para André Emrich, filho de outro fundador da Biomm, Guilherme Emrich. A informação consta em planilha compartilhada pelo liquidante do Master em um processo judicial.

Indicado pelo Master para ocupar uma cadeira no Conselho de Administração da Biomm, Pedro Mesquita, ex-chefe do banco de investimento da XP e fundador da Exa Capital, também tomou R$ 10,3 milhões emprestados do Master em 21 de abril de 2024, nove dias antes de ser eleito para o posto na Biomm, Em janeiro, ele já havia tomado um financiamento de R$ 5,1 milhões.

Chama atenção que o valor cedido a Pedro em abril é idêntico, até nos centavos, aos empréstimos concedidos a Walfrido e a André Emrich. Já o crédito anterior cedido a Mesquita é exatamente a metade disso. Isso fazia com que, dos sete conselheiros eleitos para o conselho de administração da Biomm em 30 de abril de 2024, fossem, na pessoa física, credores do banco do principal acionista da companhia, Daniel Vorcaro.

O maior empréstimo, de R$ 254 milhões, foi para a LPK Participações, holding patrimonial de Lucas Kallas, que participava da sociedade da Biomm através da Cedro Participações, com 8% do capital. Não há indícios de que os negócios tenham relação – ele diz que só voltou a negociar ações da Biomm em 2025.

“O financiamento foi contratado e integralmente quitado no mesmo ano pela LPK Participações, sem qualquer vínculo com a Cedro Participações ou com a Biomm. Os recursos jamais foram destinados à aquisição de ações ou a qualquer investimento relacionado à farmacêutica. Ao longo dos últimos três anos, a Cedro realizou aproximadamente dez aportes distintos na aquisição de ações da Biomm, somando cerca de R$ 65 milhões, todos realizados com recursos próprios, devidamente auditados e declarados”, afirmou via assessoria.

Mares Guia, ex-ministro do primeiro governo Lula, disse à coluna que nos casos dele e de Emrich, o empréstimo foi para financiar a integralização feita por eles no aumento de capital da empresa. Mas o valor total envolvido nas transações é superior ao total do aumento de capital da Biomm em fevereiro de 2024: R$ 217 milhões.

Foi nesta operação que Vorcaro se tornou acionista da empresa, a partir de operação realizada pelo fundo Cartago. Depois, em 2025, como forma de ressarcir o BRB pelas carteiras de crédito falsas repassadas, Vorcaro entregou essas ações ao Banco de Brasília.

Já este ano, quando o fato de as ações estarem em posse do BRB se tornou público, a gestora Alaska fez uma oferta e as adquiriu.  Também comprou as ações da Cedro Capital, de Kallas.

As sete Cédulas de Crédito Bancário (CCB) envolvendo acionistas e/ou conselheiros da Biomm foram cedidas naquele mesmo mês de abril de 2024 ao Banco Voiter, então parte do conglomerado do Master. Depois renomeada Banco Plena, e controlada pelo ex-sócio do Master Augusto Lima, ela também acabou liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central.

As operações entre o Master e acionistas da Biomm coincidiram com um aumento expressivo no valor das ações da farmacêutica na B3. Emitidas a R$ 5,75 no aumento de capital, que durou entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2024, elas bateram em R$ 17,80 em 3 de maio.

Operação semelhante também envolveu a Oncoclínicas. Em maio daquele ano de 2024, o Master emprestou R$ 517 milhões para Bruno Ferrari, fundador e então CEO da companhia, participar do aumento de capital liderado pelo próprio Vorcaro, que comprou cerca de R$ 1 bilhão em ações, conforme divulgado à época. O movimento até fez o preço dos papéis subir cerca de 25% em poucos dias, mas logo veio a derrocada. Hoje, as ações valem menos de um real.

A coluna procurou Pedro Monteiro e a Exa Capital, mas não teve resposta. Também não recebeu resposta das tentativas de contato com Lucas Kallas e sua Cedro Participações. A assessoria de Tanure disse que “a aquisição de ações da Ambipar pelo empresário ocorreu depois dos fatos que foram objeto de análise pela área técnica da CVM, de modo que não pode ser responsabilizado por circunstâncias pretéritas e relacionadas exclusivamente ao controlador da empresa” e que ele não figurou como parte no processo instaurado na CVM para avaliar eventual necessidade de realização de OPA pelo controlador da Ambipar.

A Biomm, após a publicação da reportagem, afirmou que “o fundo Cartago, citado na matéria, foi acionista da companhia no ano de 2024, assim como os outros mais de 1500 acionistas que a companhia possui, e nunca teve nenhuma influência na tomada de decisões da administração, nem teve assento no Conselho de Administração”. Disse também que o Master nunca manteve qualquer relação comercial com a Biomm e jamais participou da indicação de conselheiros da companhia.

“Cabe destacar que o Sr. Pedro Mesquita já era acionista da Biomm antes da entrada do Fundo Cartago em sua base acionária, e sua eleição ao Conselho ocorreu através de Assembleia Geral aberta a todos os acionistas da companhia”, continuou.