
Loterj tenta na Justiça cancelar contrato com empresa de amigo de Flávio
Contrato foi firmado durante gestão de advogado que tem relação próxima com dono da principal beneficiária da regulação estadual

A Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) tenta, há cerca de três meses, rescindir o contrato firmado pela gestão Cláudio Castro (PL) e que deu à RioPag, de Willer Tomaz, o monopólio da intermediação de pagamentos entre apostadores e bets no estado. O contrato já rendeu à empresa do advogado mais de R$ 188 milhões em três anos.
A coluna revelou uma decisão administrativa, há um mês, pela qual a Loterj rescindiu o contrato unilateralmente, considerando que a RioPag descumpriu diversas cláusulas contratuais. Dias depois, a empresa conseguiu uma liminar na 14ª Vara da Fazenda Pública da Comarca da Capital.
O processo corre em segredo de Justiça, mas a coluna apurou que a decisão da juíza Neusa Regina Larsen de Alvarenga Leite não impede a rescisão unilateral, apenas determina que o fim do contrato não pode ocorrer de forma abrupta, gerando risco para casas de apostas, apostadores e a própria Loterj.
A Loterj recorreu e até aqui não teve resposta, o que tem gerado incômodo na autarquia. O temor é que a Justiça postergue qualquer decisão e uma nova diretoria da Loterj, sob gestão de Douglas Ruas (PL), opte por manter um contrato que já se mostrou prejudicial ao estado – casas como a Blaze justificaram o desinteresse na licença carioca por causa do “custo RioPag”.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA coluna vem mostrando que a maior beneficiada pela criação de uma licença estadual para apostas online no Rio de Janeiro é a RioPag, de Willer Tomaz. A intermediária tem o monopólio do serviço com direito – garantido em contrato – de cobrar uma taxa de 2,5% de cada depósito feito por PIX e 1,0% de cada retirada.
Em um setor de margens relativamente estreitas, essas taxas geram à RioPag mais dinheiro do que o estado arrecada (ou arrecadava) em impostos com as apostas. As taxas são tão abusivas que tornaram mais caro para uma bet operar com a licença do Rio (que cobra alíquotas bem mais baixas) do que com a da União, afastando interessadas.
Agora, a PF investiga as relações entre Cláudio Castro, Hazenclever Cançado (presidente da Loterj até este ano) e Willer Tomaz. Já descobriu, segundo O Globo, que os dois últimos tinham “atividade profissional conjunta e proximidade pessoal”.
Willer e Hazenclever atuaram juntos enquanto advogados, conforme mostramos na coluna, e agora a PF descobriu que o presidente da Loterj (que concorreu a deputado federal pelo PL de Flávio Bolsonaro) teve viagens bancadas por Willer (que também bancou diversas viagens para Flávio).
As relações não param por aí. Uma empresa de Willer, a Rede Loto, foi a primeira credenciada pela Loterj e teve sua documentação aprovada menos de 12h depois de aberto o credenciamento. Essa empresa pertence a uma holding de Willer que tinha Flávio como “usuário master” de sua conta bancária.
Só em 2025, a empresa “mãe” da RioPag (dona da dona da intermediadora) pagou R$ 67 milhões em dividendos para Willer Tomaz, que por sua vez bancou diversas despesas de Flávio Bolsonaro, como viagens à exterior.
Já o estado ficou sem ver a porcentagem que lhe cabia na arrecadação da RioPag porque, sem qualquer justificativa, Hazenclever determinou que a empresa deixasse de pagar o estado e custodiasse o dinheiro público. Quando a nova gestão da Loterj pediu a grana de volta, Willer não respondeu. Depois, sugeriu parcelar e, enfim, disse que os recursos estavam investidos, sem dizer onde.
A Loterj conseguiu o bloqueio das contas bancárias da RioPag e não achou o dinheiro. No mesmo dia, a empresa fez um PIX de R$ 16 milhões, quatro milhões a menos do que a Loterj alega que deveria ser pago, considerando também correção monetária. A RioPag contesta e quer ficar com os rendimentos do dinheiro do estado, alegando que encerrou o suposto investimento a mando da própria Loterj.
O que dizem os envolvidos
Hazenclever não respondeu as tentativas de contato da coluna e a Loterj disse que não comentaria. Já Willer Tomaz enviou a seguinte nota:
“O advogado Willer Tomaz esclarece que a Justiça não está demorando: já decidiu. A Rio Pag obteve tutela que mantém o vínculo em vigor, diante da rescisão unilateral, abusiva e irregular promovida pela Loterj, que recorreu da decisão.
Longe de lesar os cofres públicos, o contrato assegura ao Estado a maior comissão de todo o mercado regulado de apostas, percentual superior, inclusive, ao que a autarquia pretendia firmar em caráter emergencial, com dispensa de licitação.
Willer não participou do certame que resultou na contratação da Rio Pag nem tinha qualquer ligação com a empresa à época, à qual hoje presta apenas serviços jurídicos, sem integrar a gestão de nenhuma das companhias envolvidas. Com Hazenclever Lopes Cançado, o contato é estritamente profissional: o ex-dirigente já atuou em processos em parceria com o escritório.”
