
Empresa ligada a Flávio pela PF lançou 3 bets e optou por não divulgá-las
Rede Loto está no centro de investigação da PF que envolve o senador Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz

A “Rede Loto”, pioneira na compra de licença para operar apostas online no Brasil e agora ligada ao senador Flávio Bolsonaro (PL) por um inquérito da Polícia Federal, é um caso incomum no país. A empresa, que tem o advogado Willer Tomaz e familiares dele como sócios, pagou R$ 5 milhões para operar no Rio de Janeiro, chegou a lançar três casas de apostas e informar ter incorporado mais uma, mas abandonou cada uma das operações pouco depois de cada lançamento sem fazer publicidade.
A empresa, que pertence à Cathedral Holdings, uma offshore na Ilha da Madeira (Portugal) que pagou viagens para Flávio Bolsonaro, ganhou notoriedade por ser a primeira a apresentar a documentação para adquirir a licença vendida pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), em meados de 2023.
Constituída dias antes do lançamento do edital, a Rede Loto apresentou sua documentação às 9h09 do primeiro dia de credenciamento. À noite, toda a documentação já estava aprovada pela Loterj, então presidida por Hazenclever Cançado (PL), um advogado que havia atuado em conjunto com Willer em diversos casos e é historicamente ligado ao bolsonarismo – antes, era assessor do senador Magno Malta (PL-ES).
Em 24 de maio de 2023 a Rede Loto estava habilitada para operar apostas esportivas no Rio de Janeiro. A própria Cathedral Holdings fez o depósito da outorga de R$ 5 milhões, a partir de uma conta corrente final 15-4 na agência 0082 do Santander, localizada na Asa Sul de Brasília.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesInicialmente a empresa operou a partir da Loto Carioca, cujo Instagram teve a primeira postagem em 14 de junho de 2023. Menos de dois meses depois, uma publicidade com o ator Eri Johnson seria o último post do perfil e, em outubro, o site já havia sido retirado do ar, segundo a empresa.
A operação se transformou na casa BestBet, lançada em novembro de 2023. No Instagram, a bet teve posts diários, com odds de jogos ao vivo, até janeiro. Depois, o perfil deixou de ser atualizado, ainda que o site tenha continuado no ar até pelo menos setembro de 2024.
Foi quando a Rede Loto anunciou à Loterj a terceira mudança na operação: sairia a BestBet para entrarem na licença a Loto Legal e a Blend365, um site que havia sido lançado mais de um ano antes e que teve como garotos propaganda os cantores Eduardo Costa e Netinho de Paula e o ex-jogador Emerson Sheik. Um dia depois, a empresa de Willer voltou atrás e desistiu da inclusão da Blend365, mantendo o pedido para a Loto Legal.
Quase dois anos de operação e R$ 360 mil em receitas
A Rede Loto operou casas de apostas pelo menos até fevereiro de 2025, último mês em que a RioPag – empresa de intermediação de pagamentos também pertencente a Willer Tomaz – informou à Loterj depósitos recebidos pela Rede Loto.
No mesmo documento, a Rede Loto declarou expressamente que “o atual contingente de colaboradores é insuficiente para assegurar a operacionalidade e administração da estrutura com o nível desejado de qualidade, eficiência e eficácia“, sem detalhar por que mantinha operação insuficiente para atuar no setor depois de ser pioneira na compra de uma licença, pagando R$ 5 milhões nela.
Apesar do alto investimento, também informou à Loterj que não tinha perfis em outras redes sociais e nem fazia qualquer tipo de comunicação com o público, seja com tráfego pago ou com afiliados.
Nesta segunda-feira (19/10), ao comentar o novo inquérito da PF, Willer Tomaz disse que “a Rede Loto, integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de aposta“, informação que contrasta com os relatórios da RioPag (também de Willer), com os perfis ainda ativos nas redes sociais e com comunicados da empresa à Loterj.
Questionada pela coluna, a assessoria de imprensa de Willer enviou nova nota, desta vez assinada pela Rede Loto, que disse que manteve “um único site no ar, inicialmente ‘Loto Carioca’ e depois ‘BestBet’, sem campanha publicitária, patrocínio ou qualquer ação comercial. “A marca ‘Loto Legal”’ jamais foi ao ar, e a Blend365 foi objeto de tratativa que não se concretizou”.
Em dois anos e meio, segundo a empresa, R$ 732 mil foram depositados nas bets pelos apostadores. “É o movimento residual de um site sem divulgação, não de uma operação de apostas”, disse a empresa, que não respondeu por que comprou uma licença, montou operação e optou por não divulgá-la.
R$ 10 bilhões apostados em concorrente
Ao mesmo tempo em que era dono de uma empresa licenciada para operar apostas no Brasil e lançou três bets no país, Willer Tomaz, como mostrou a coluna, movimentou R$ 10 bilhões em apostas esportivas só em 2025 em uma casa de apostas em tese concorrente à dele, a Blaze. Depois, entrou na Justiça pedindo a devolução de R$ 134 milhões perdidos alegando ser viciado em jogo – o pedido foi recentemente negado.
O advogado depositava até R$ 1 milhão por vez e, depois de reclamar, conseguiu acesso a uma mesa VIP na qual podia fazer apostas de até R$ 500 mil por giro. Isso acelerou o quanto ele perdia diariamente para a empresa. Agora essas operações são investigadas pela PF.
Flávio Bolsonaro também é investigado porque a empresa dona da Rede Loto, a Cathedral Holdings, pagou viagens para ele e para a família dele. A offshore é uma espécie de empresa “irmã” da Alcazar Holdings, também registrada por Willer na Ilha da Madeira e também administrada por Mateo Scudeler.
A Alcazar é a empresa cuja conta corrente no Santander tinha Flávio Bolsonaro como “usuário master”, conforme revelou O Globo – Fayla Zulmira Menezes, que pediu ao banco a desassociação, também tinha e-mail coorporativo na Cathedral.
Leia as notas de Willer Tomaz e da Rede Loto:
Questionada pela coluna no domingo à noite, a assessoria de imprensa de Flávio Bolsonaro não retornou.
“O advogado Willer Tomaz não teve acesso ao inquérito e só tomou conhecimento dele por meio da imprensa. A defesa já requereu acesso aos autos e prestará todos os esclarecimentos necessários às autoridades. As empresas e participações do advogado são todas lícitas, identificadas em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda. Não há sócios ocultos, contas não declaradas, nem patrimônio escondido. A Rede Loto, integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas. O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer empresa do advogado. A relação entre os dois é de antiga amizade entre famílias e amizade não pode ser criminalizada. Causa muita estranheza que peças sigilosas, desconhecidas da própria defesa, sejam divulgadas de forma seletiva há seis dias do segundo turno. A defesa confia que a investigação, conduzida com acesso aos autos e contraditório, demonstrará a regularidade de todas as operações.”
“A Rede Loto, credenciada pela Loterj (Termo nº 001/2023), nunca fez o lançamento comercial de nenhuma operação. Manteve um único site no ar, inicialmente “Loto Carioca” e depois “BestBet”, com autorização da Loterj (SEI nº 85117470), sem campanha publicitária, patrocínio ou qualquer ação comercial. A marca “Loto Legal” jamais foi ao ar, e a Blend365 foi objeto de tratativa que não se concretizou. Não houve, portanto, quatro operações nem desistências. Os números confirmam isso. Em dois anos e meio, os depósitos de apostadores somaram R$ 732.584,30, uma média de cerca de R$ 24 mil por mês, e os saques, R$ 717.476,66. O resultado foi um prejuízo de R$ 10.381,74 após tarifas. É o movimento residual de um site sem divulgação, não de uma operação de apostas. Todos os recursos transitaram pelo meio de pagamento oficial e foram reportados à Loterj. O site está paralisado em cumprimento à Medida Provisória nº 1.394/2026.”
