
Entenda polêmica do governo com a Faixa Azul, citada por Flávio Bolsonaro
Balanço final mostrou que Faixa Azul amplia mortes, mas prefeitura de São Paulo quer ampliar programa e esbarra no governo federal

Quando questionado na entrevista à Rede Globo sobre punição aos atos de violência durante o 8 de janeiro, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) levou a conversa para um tema absolutamente distinto: uma suposta perseguição do governo Lula (PT) ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que resulta na negativa da instalação da Faixa Azul em novas vias, prejudicando os motoboys.
A polêmica vem desde 2024. Nunes quer autorização para instalar uma faixa exclusiva para motociclistas em mais vias da cidade e, por se tratar de um programa piloto, não previsto na legislação nacional de trânsito, depende de autorização do Ministério do Transporte, que analisa a efetividade da medida.
A coluna mostrou que, ao final do período de testes de dois anos, a SPTrans, órgão municipal de trânsito de São Paulo, produziu um relatório técnico, enviado à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que mostra que houve aumento no número de mortes, acidentes e vítimas não fatais nas vias onde houve instalação da Faixa Azul.
O relatório compara dados de “antes” e “depois” da instalação da Faixa Azul em cada via, até 31 de dezembro de 2025. O levantamento oficial da prefeitura aponta que as vias com Faixa Azul tiveram 57 mortes antes da instalação da faixa exclusiva e 68 depois, um acréscimo de 19,2%.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesOs números são ruins para os motociclistas (aumento de 17,5% no número de sinistros fatais), mas principalmente para os pedestres, com as mortes tendo crescido 150% nas vias em que Faixa Azul foi instalada. A sensação no trânsito da cidade é que, mais protegidos no meio dos carros, os motociclistas andam mais rápido, o que causa acidentes mais graves.
O projeto, porém, é aprovado pelos motociclistas exatamente por permitir que se locomovam de forma mais veloz, o que para os motoboys significa a possibilidade de pegar mais serviço e ganhar mais dinheiro. E a prefeitura tem se apoiado nessa suposta aprovação para pedir que a Senatran autorize a ampliação do programa para cerca de 30 novas ruas e avenidas.
A gestão Nunes também alega que a Faixa Azul torna o trânsito mais seguro, apontando que a maior parte dos acidentes acontece “fora” da faixa exclusiva. Mas, como já mostrou a coluna, essa conclusão parte de uma manipulação de dados: os acidentes são registrados como sendo “dentro”, “fora” e “sem informação” e a prefeitura, ao produzir gráficos, soma “fora e “sem informação” como sendo “fora”.
É como se, em uma pesquisa eleitoral, um dos candidatos divulgasse que tem vantagem sobre o adversário porque, somou às respostas pelo seu nome também as respostas de “não sabe”.
A Senatran tem dito que os dados enviados pelos municípios que solicitaram a implantação do projeto estão em período de avaliação e, a partir disso, será definida a continuidade da Faixa Azul em caráter experimental ou avanço para a regulamentação definitiva.
