Dino aponta "curiosa" ausência de peça-chave no quebra-cabeça de Dark Horse
ANC, outra ONG de Karina Gama, recebeu R$ 6,1 milhões de fornecedores do contrato de wi-fi, mas não se sabe onde o dinheiro foi parar

O ministro Flávio Dino, na decisão em que autorizou a Operação Make Up, deflagrada na quinta-feira (11/9), reclamou da ausência “curiosa” de uma peça-chave para se entender o quebra-cabeças que é o financiamento de Dark Horse: um relatório completo do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) a respeito das transações financeiras da Academia Nacional de Cultura (ANC).
Também controlada pela empresária Karina Gama, produtora executiva de Dark Horse, a ANC passava a margem do radar da cobertura sobre o financiamento de Dark Horse, concentrado no Instituto Conhecer Brasil (ICB), que tem contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura de São Paulo e recebia emendas de Mário Frias, e nas versões brasileira e norte-americana da Go Up Entertainment, produtora do filme e destino final dos cerca de R$ 69 milhões enviados pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Uma série de relatórios do Coaf a respeito de movimentações financeiras do ICB e de fornecedores da entidade mostraram que dinheiro que saía da prefeitura de São Paulo e de emendas passava pelo ICB, chegava a fornecedores e deles era transferido para a ANC. A Polícia Federal localizou R$ 6,1 milhões movimentados por esse caminho.
A peça que falta é um relatório que aponte todas as transações financeiras da ANC, uma entidade sem fins lucrativos de quem não se tem notícias de ter produzido evento com custos equivalentes ao montante informado nos relatórios do Coaf referentes a outras empresas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO órgão ligado à Receita Federal até produziu um relatório (chamado “comunicação número 30” na decisão de Dino), relativo às transação da ANC no período de maio de 2025 ao mesmo mês de 2026, mas que informa somente depósitos de R$ 564 mil e pagamentos de R$ 524 mil.
Dino apontou o óbvio: os números não batem com o que outras empresas pagaram à ANC. “Assim, constata-se registros do envio de um total de R$ 6.175.273,64 para a ANC, o que, novamente, torna curioso o não recebimento de comunicações simétricas referentes às contas da mencionada organização da sociedade civil, notadamente considerando que ela não tem fins lucrativos”, escreveu o ministro.
Ele continuou: “Chama a atenção o fato de ser essa a única comunicação de titularidade da ANC, pois ela aparece por diversas vezes como destinatária de recursos em comunicações de terceiros, recebendo valores bastante superiores aos mencionados nesta comunicação, o que leva a crer que ela possui outra conta bancária, que não foi comunicada”.
O próprio Dino, porém, explica por que nem tudo foi comunicado pelo Coaf. “Da mesma forma, não constam, necessariamente, comunicações oriundas de todas as instituições financeiras em que todos os comunicados porventura possuam contas, ou que englobem todas as contas existentes nas instituições financeiras que de fato comunicaram movimentações”.
Além disso, no período compreendido pelo relatório do Coaf, a ANC organizou um evento de grande porte em São Paulo, a Connect Faith, uma feira tecnológica gospel, no segundo fim de semana de junho de 2025. Como revelou esta coluna, a maior parte das despesas foi paga, de forma direta, pela prefeitura de São Paulo, que gastou R$ 3,5 milhões com seus próprios fornecedores para “apoiar” a feira em um modelo pelo qual o dinheiro não passa pela entidade beneficiada.
Mas as receitas tendem a ter sido altas, dado que a feira teve show com o cantor gospel norte-americano Kirk Franklin e vendia ingressos promocionais a R$ 500. O show ficou lotado, como mostram imagens enviadas pela prefeitura de São Paulo ao Ministério Público no âmbito de um inquérito civil aberto para apurar o caso.
De qualquer forma, a feira aconteceu em junho de 2025 e a maior parte dos R$ 6,1 milhões em repasses dos fornecedores do ICB à ANC aconteceram depois disso. O que a ANC de Karina Gama (a produtora de Dark Horse) fez com o dinheiro? Essa é a pergunta de milhões. Mas não é a única.
De onde vinha o dinheiro de Dark Horse?
Por enquanto, a decisão de Dino responde parcialmente o que outro CNPJ controlado por Karina, o da Go Up brasileira, fez com os R$ 8,9 milhões recebidos durante período de 50 dias entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025.
Os relatórios do Coaf citam que a produtora foi abastecida com recursos de um banco de câmbio (R$ 3,9 milhões, que podem ser o dinheiro que Vorcaro enviou a um fundo no exterior), do publicitário Marcello Lopes, o Marcelão (R$ 1 milhão), do deputado federal Mário Frias na pessoa física (R$ 645 mil), de outra empresa de Karina (a GO7, R$ 2,4 milhões) e da NTT Brasil (dos mesmos donos de uma fornecedora do ICB, R$ 750 mil).
E que gastou com contratações usuais de uma grande produção audiovisual, como diárias de hotel, empresa de alimentação e produtoras.
De uma parte, os números confirmam (ou ao menos não contradizem) a perícia privada contratada pela Go Up brasileira, que diz que a produtora gastou R$ 20,9 milhões no Brasil e sua versão americana outros R$ 54 milhões nos Estados Unidos. Se Daniel Vorcaro enviou cerca de R$ 69 milhões e R$ 5 milhões foram arrecadados no fim do ano com a GO7, Marcelão, NTT e Mario Frias, a conta do filme, ao menos do ponto de vista das receitas, fecha.
Mas a perícia, que levou em consideração apenas documentos disponibilizados pela Go Up, sua contratante, não leva em consideração se despesas do filme foram pagas por outras entidades ou empresas.
Também desconsidera, ao garantir que “não houve dinheiro público” no filme, que a Go7 e o grupo econômico da NTT, que ajudaram com R$ 3,2 milhões, receberam R$ 1,7 milhão do ICB, que por sua vez era financiado pela prefeitura de São Paulo e por emendas.
Para Dino, isso mostram “fortes indícios de retorno dos recursos públicos pagos ao ICB para a esfera de disponibilidade dos próprios responsáveis pela OSC, com potencial caracterização de desvio e contornos de lavagem de dinheiro”. A principal responsável pela OSC (organização da sociedade civil) é Karina Gama.
Também não fazem parte da documentação citada por Dino e relatórios relativos às transações financeiras da Go7, da qual se sabe que recebeu R$ 1 milhão do ICB (que tinha contrato com a prefeitura) e enviou R$ 2,5 milhões à Go Up (que fez Dark Hose).Todos os três CNPJs são controlados pela mesma pessoa: Karina Gama. De onde vieram os demais R$ 1,5 milhões? É outra resposta a ser buscada.
A decisão que determinou a operação desta quinta-feira não determina quebra de sigilo fiscal e tributário de nenhuma empresa. Se tal medida foi tomada, ela não faz parte da petição tornada pública.




