
Conceição FreitasColunas

O homem que não mais se reconhecia como um ser humano
Uma abordagem no semáforo gerou desconforto e evidenciou a desigualdade social brasileira. O que é ser humano?
atualizado
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Aconteceu há muito tempo, mas poderia ter sido hoje: num dia qualquer da semana descendo o Eixo Monumental de carro, no semáforo da Rodoviária, um homem de uma perna só se aproximou:
— Ser humano, me dá dez centavos.
Fiquei atônita, teria ouvido bem? O homem teria mesmo me chamado de “ser humano”. O semáforo da Rodoviária é demorado. Ele repetiu:
— Ser humano, dez centavos não vão lhe fazer falta.
Tive a impressão de ele ter forçado a entonação no “ser humano”. Ou será que foi o meu sentimento de culpa?
Ou o meu incômodo diante daquela invasão de realidade no meu mundinho aparentemente perfeito?
Motorizada, estudada, empregada, ajeitada e abnegada, fiquei incomodada. Depois de séculos de espera, o sinal verde apareceu e eu pude fugir daquela denúncia pública da desigualdade social brasileira, ali bem perto da Praça dos Três Poderes. Não me lembro se eu dei os centavos ao homem que me chamou de “ser humano”.
Ser humano. Ninguém nunca havia me chamado assim. Já tinha sido chamada de filha, mãe, tia, prima, amiga, menina, garota, namorada, dona, senhora, madame, mulher, mulé, patroa, doutora, dona Maria, de psiu, coisinha e até de outros nomes aos quais não ouvi mas que por certo devem ter me chamado. (Ou xingado, imprecado, amaldiçoado, porque como disse Ariano Suassuna num vídeo viral, falar mal dos outros pela frente é um constrangimento para quem fala e para quem ouve. A menos que seja virtualmente – essa instância que tudo permite).
Por que aquele homem me chamou de ser humano? É uma expressão que se usa com muita frequência pra revelar o quanto a existência sapiens nos decepciona:
— Eta bicho complicado é o ser humano.
— Cada dia me decepciono mais com o ser humano.
— Não se pode confiar em ser humano.
— O ser humano é capaz de tudo.
Mas aquele homem de uma perna só no semáforo da Rodoviária do Plano tinha usado a expressão com outro sentido, isso era nítido. Como eu estranhei o “ser humano” e ele ficou longos segundos ao meu lado, tive tempo de tentar investigar a expressão do rosto, dos olhos, da boca.
Não havia raiva nem descrença nem provocação nem ironia nem ódio. Havia no fundo da retina um muito cansado e descrente pedido de compaixão.
Ao voltar para o trabalho, fui ao banheiro e quando me vi no espelho entendi, num susto, o que aquele homem estava me dizendo.
Ele estava reconhecendo em mim uma pessoa humana. Alguém dirigindo um carro certamente tinha onde morar, onde dormir e o que comer, sem necessidade de se arrastar, com uma muleta estropiada, de carro em carro pedindo dez centavos aos seres humanos forçosamente parados no semáforo.
Aquele homem não mais se reconhecia como ser humano. E via nos olhos dos humanos dentro dos carros que eles também não viam nele um outro da mesma espécie. O homem de muleta era tão incômodo quanto o sinal vermelho do semáforo. E a espera do sinal verde ficava mais aflitiva, e o homem sem perna percebia que ele não passava de um sinal vermelho deambulante atrapalhando a rotina dos seres humanos.
O vazio do olhar que saía de dentro dos carros tirou do homem de muleta a noção da própria humanidade. Ser humano era aquela senhora a quem ele pediu dez centavos e os tantos outros no mais importante semáforo de Brasília, o do cruzamento dos eixos. Não me lembro se dei algum dinheiro a ele, porque pra mim não era tão importante quanto era pra ele.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
