
Conceição FreitasColunas

A cidade que Mário de Andrade desejou “como se deseja sexualmente”
Há um mistério estonteante na antiga Feliz Lusitânia, a cidade que os portugueses criaram em 1616 em território que pertenceu aos tupinambás
atualizado
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Amor arrebatador como esse de Mário de Andrade chega a ser indecente, no bom sentido da palavra. É amor corpóreo, sexual, como ele mesmo descreveu em carta ao amigo de grandes confidências, o poeta Manuel Bandeira, o Manu.
(Mantive a grafia do texto original).
“Manu,
Estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois de nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por esse mundo de águas. Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrasse em frente das mangueiras chupitando um sorvete de cupuassú, de assaí, você conhece mundo, conhece coisa melhor que isso, Manu? Me parece impossível. Olha que tenho visto coisas estupendas. Vi o Rio em todas as horas e lugares, vi a Tijuca, e a Sta. Teresa de você, vi a queda da Serra para Santos, vi a tarde de sinos em Ouro Preto e vejo agorinha mesmo a manhã mais linda do Amazonas. Nada disso que lembro com saudades e que me extasia sempre ver, nada desejo rever com uma precisão absoluta fatalizada do meu organismo inteirinho. Porém Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal para você, por isso que conto esta confissão esquisita, mas verdadeira que faço de vida sexual e de vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim…”
Não se sabe se esse amor físico por uma cidade era a metonímia de um amor por uma pessoa, mas não é nada improvável que
Mário tenha se apaixonado desarvoradamente por Belém do Pará. Há um mistério estonteante na antiga Feliz Lusitânia, a cidade que os portugueses criaram em 1616 em território que antes pertencia aos tupinambás e aos pacajás.
Será o calor? A umidade? A floresta, a baía, o rio, os igarapés, as frutas, as comidas, as mangueiras, os caboclos que até hoje mantêm uma alegria ao mesmo tempo ingênua e maliciosa? Por certo terá sido também a cidade em si mesma, a mancha urbana que naquele meado dos anos 1920 ainda conservava a atmosfera do ciclo da borracha.
Mário de Andrade nem estava muito animado a aceitar o convite de sua amiga Olívia Guedes Penteado para percorrer o Norte do país, subindo o Rio Amazonas de Belém até Iquitos, no Peru.
Mecenas do movimento moderno brasileiro, paulista filha de um barão do café, Olívia já havia patrocinado e participado da visita dos modernos às cidades históricas de Minas Gerais, em 1924.
Em outra carta a Manu, Mário já havia demonstrado desejo de sair do rame-rame: “Creio que vou embora pro norte mês que vem, numa boníssima duma viagem. Dona Olívia faz tempo que tinha planejado uma viagem pelo Amazonas adentro. E insistia sempre comigo para que fosse no grupo. Eu ia resistindo, resistindo, resistindo e amolecendo também. Afinal, quando tudo quase pronto, resolvi ceder mandando à merda esta vida de merda. Vou também”.
No começo, Mário se decepcionou. Acreditava que ia em grupo de artistas, como da viagem a Minas, mas não foi bem assim. Faziam parte da comitiva, além de dona Olívia, àquela altura com 55 anos, duas moças, sua sobrinha Margarida Guedes Nogueira, 19 anos à época, e Dulce do Amaral Pinto, filha da modernista Tarsila do Amaral, 21 anos. Mário estava com 33.
Em 15 de maio de 1927, os quatro viajantes embarcaram em navio do Lloyd Brasileiro rumo ao norte. Dois dias depois, aportaram em Salvador, e Mário já ficou abobalhado: “Centenas, centenas e centenas de baitas sobradões de 04 andares e sotéia. Se eu pudesse levava um pra mim outro pra você”.
Diante do hoje ponto turístico mais importante de Salvador, ele diz: “O Largo do Pelourinho é a vista urbana que um brasileiro pode mostrar a um francês sem ter nenhuma dor de corno pelas perspectivas dos Campos Elísios ou da Avenida da Ópera”.
Mário, brasileiro marrento, se recusa a chamar uma das avenidas mais célebres do mundo de Champs-Élysées.
Porém, o encanto diante da arquitetura colonial da primeira capital do Brasil seria quase nada diante do que sentiria dias depois ao chegar a Belém do Pará. A cidade à beira da Baía do Guajará parece ter rompido todos os diques internos do muito
discreto Mário de Andrade.
De Belém, a comitiva subiu o Rio Amazonas, chegou a Manaus e seguiu até Iquitos. De volta a São Paulo, Mário foi ao Nordeste em 1928 e depois escreveu O Turista Aprendiz, um inigualável clássico que desvela um Brasil norte-nordestino para o Brasil.
Porém nenhuma outra cidade fez Mário sentir a dor do desejo como Belém do Pará.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
