
Conceição FreitasColunas

A causa secreta: como Machado de Assis descreve a crueldade humana
Bruxo carioca não tinha filtro no olhar e transformava tudo em ficção de altíssima qualidade; conto foi publicado no final do século XIX
atualizado
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Aviso: esta crônica contém muito spoiler.
“A causa secreta” é um conto sombrio de Machado de Assis. Nele, o mais consagrado dos escritores brasileiros revela, sem dó nem piedade, um traço perverso da alma humana, o prazer de torturar e matar. O bruxo carioca não tinha filtro no olhar: conseguia ver o pior do sapiens e transformava tudo em ficção de altíssima qualidade, cânone do cânone.
Publicado no finzinho do século XIX, “A causa secreta” já começa tenso, prenunciando vagarosamente o horror que virá. E nisso Machado revela a sua maestria: vai descrevendo de modo quase sorrateiro, porém implacável, o caráter tenebroso do personagem perverso. Fortunato é o nome dele.
No começo da trama, Fortunato aparece socorrendo um homem que tinha sido espancado por uma turba num beco do Rio de Janeiro. Era de se esperar que uma pessoa que socorre alguém ferido tenha algum tipo de sentimento compassivo. Mas o personagem aparentemente solidário escondia trevas. Machado começa a descrevê-lo: “Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria”.
Depois de socorrer o homem ferido e levá-lo até sua casa, Fortunato vai embora sem esperar por nenhum tipo de agradecimento. Mas como um policial apareceu para averiguar o caso, ele deu o nome e o endereço.
Vizinho da vítima, Garcia fica intrigado com aquele homem que socorre um desconhecido e desaparece assim que pode. Pensa em procurar essa pessoa esquisita, mas por falta de pretexto razoável, logo desiste.
Garcia “possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo”. Ao descrever Garcia, Machado descreve a si mesmo.
Passado algum tempo, os dois personagens masculinos do conto – Fortunato e Garcia – passam a se cruzar com frequência na ainda pequena cidade do Rio de Janeiro. Conversam banalidades até que um dia Fortunato conta que se casou e convida Garcia para ir à sua casa, ali perto, em Catumbi, bairro popular no centro da cidade.
“Garcia foi lá no domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara: os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias…”.
O visitante se encantou pela mulher do novo amigo, Maria Luísa: “Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos: tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove”. Garcia não demorou a perceber que entre o casal “havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor”.
Surge uma amizade a três, cenário muito propício para o que virá acontecer. Um dia, vendo que Maria Luísa parecia desconfortável diante do marido, Garcia contou a ela a boa ação que ele tinha feito lá atrás, quando socorreu o desconhecido. Fortunato ouviu tudo com um ar zombeteiro – zombou até do homem que, depois de curado, o procurou para agradecer pelo socorro prestado.
Passado pouco tempo, Fortunato começou, por conta própria, a estudar anatomia e fisiologia “e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães”. A mulher dele, Maria Luísa, atordoada diante daquelas cenas de crueldade, pediu ajuda a Garcia para tentar fazer o marido parar com aquilo.
Um dia, Garcia chega para jantar na casa do casal amigo e encontra Maria Luísa desesperada: “O rato! O rato!”. O visitante entra no cômodo onde Fortunato fazia as experiências que ele dizia serem de anatomia e fisiologia e vê o homem torturando um rato, uma cena fortíssima que aqui não reproduzo.
Fortunato não viu que Garcia o observava. O homem esquisito estava “com um sorriso único, reflexo da alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas”. Ao ver o visitante, se sobressalta e diz que o rato havia comido um papel importante, daí ter sido torturado até a morte.
Garcia segue observando o perverso amigo e conclui que Fortunato fazia tudo aquilo sem raiva, “pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem”.
O conto não termina aqui, terá ainda uma cena de secreto, solitário e sofrido amor romântico, sempre à sombra daquele homem que tinha prazer em torturar e matar.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
