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Trimestre zero: médico alerta sobre “trend” para aumentar fertilidade
Nas redes sociais, o trimestre zero é tratado como uma promessa para aumentar a qualidade dos óvulos
atualizado
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Embora não seja um conceito médico formal, o termo “trimestre zero” tem ganhado força nas redes sociais — especialmente entre tentantes acima dos 30 anos. A expressão se refere aos três meses que antecedem a gestação, período em que muitas compartilham estratégias para fortalecer o corpo e a mente e, assim, conseguir “óvulos mais saudáveis”.
Em conversa com a coluna Claudia Meireles, o ginecologista Daniel Godoy, do Hospital Santa, explica que, na prática clínica, essa fase é chamada de período pré-concepcional. “Nos meses que antecedem a ovulação, o óvulo passa por um processo final de amadurecimento e fatores como tabagismo, consumo de álcool, doenças mal controladas, obesidade e deficiências nutricionais podem interferir nesse ambiente”, afirma.
Entretanto, apesar de hábitos como alimentação equilibrada, prática de exercícios e abandono de vícios serem benéficos para a saúde da mulher, o especialista pondera que não existe um intervalo específico de três meses capaz de “garantir” melhora da fertilidade. Tampouco é possível controlar todos os aspectos relacionados à qualidade dos óvulos nesse período. “A fertilidade é influenciada por múltiplos fatores, sendo a idade um dos mais importantes”, destaca.

Trimestre zero deve ser visto com cautela
O tema é especialmente sensível para mulheres acima dos 35 anos. Segundo o médico, associar diretamente a qualidade dos óvulos a hábitos adotados no chamado trimestre zero pode gerar um efeito emocional negativo, sobretudo quando a responsabilidade pela gestação recai de forma excessiva sobre a mulher.
“A qualidade dos óvulos é determinada principalmente pela idade e por fatores biológicos que não estão sob controle direto. Embora hábitos saudáveis contribuam para a saúde geral, eles não conseguem reverter completamente os efeitos naturais do envelhecimento ovariano”, explica.
Daniel Godoy destaca que quando a ideia de que a fertilidade depende exclusivamente da alimentação, de suplementos ou do estilo de vida, podem surgir sentimentos de culpa, frustração e inadequação — especialmente entre aquelas que enfrentam dificuldades para engravidar. “É fundamental deixar claro que a fertilidade não depende apenas do esforço individual e que dificuldade para engravidar não significa falha pessoal”, alerta.
O médico acrescenta que o estresse também pode interferir no funcionamento hormonal e, em alguns casos, afetar a regularidade da ovulação. A pressão por atingir um padrão ideal de saúde pode gerar ansiedade e sofrimento emocional, tornando a tentativa de engravidar mais angustiante. “Cuidar da saúde é positivo e desejável, mas não deve se transformar em fonte de cobrança extrema”, ressalta.

Como fortalecer a saúde antes da gestação
Feita a ressalva, Daniel Godoy reforça que o período pré-concepcional é, sim, uma oportunidade valiosa para organizar a saúde e preparar o organismo para uma gestação mais segura. Entre as medidas recomendadas estão manter alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, evitar cigarro e álcool, dormir bem e controlar doenças pré-existentes, como diabetes, hipertensão e distúrbios da tireoide.
“O uso de ácido fólico antes da gravidez é fortemente recomendado, pois reduz o risco de malformações no bebê, principalmente alterações da coluna vertebral e da medula espinhal. Além disso, uma avaliação médica antes de engravidar pode identificar e corrigir possíveis fatores de risco”, orienta.
Mais do que buscar o óvulo ideal, o chamado trimestre zero deve ser entendido como um período para fortalecer a saúde e criar um ambiente mais favorável à gestação, porém, sem a falsa promessa de controlar aquilo que, biologicamente, não está ao alcance.
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