
Claudia MeirelesColunas

Psicóloga avalia fala de Michael B. Jordan sobre masculinidade e saúde mental
Psicóloga analisa fala de ator e explica como a pressão e a masculinidade tradicional afastam homens do cuidado com a saúde mental
atualizado
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O sucesso profissional nem sempre caminha ao lado do equilíbrio emocional — e essa contradição voltou ao centro do debate após Michael B. Jordan, indicado a Melhor Ator no Oscar 2026, falar abertamente sobre terapia, amadurecimento emocional e pressão psicológica em entrevista recente.
Segundo a psicóloga Candice Galvão, o relato do ator ilustra um fenômeno psicológico amplo: a dificuldade histórica masculina em reconhecer sofrimento emocional.
O ator, protagonista de Pecadores, dirigido por Ryan Coogler, descreveu como o autoconhecimento passou a ocupar papel central em sua vida justamente no auge da carreira — momento que especialistas apontam como comum entre homens submetidos a altos níveis de performance e expectativa social.

Durante a entrevista, Jordan reconheceu que precisou aprender a lidar com emoções que, por muito tempo, foram deixadas em segundo plano, diante das exigências profissionais.
“Passei muito tempo focado no trabalho e na carreira. Em algum momento, percebi que precisava investir em mim mesmo também”, afirmou o ator.
A masculinidade construída pela invulnerabilidade
Durante décadas, a masculinidade foi associada a controle, produtividade e resistência emocional. Demonstrar fragilidade ou pedir ajuda psicológica era frequentemente interpretado como perda de autoridade — especialmente entre homens bem-sucedidos.
“Muitos homens foram ensinados que vulnerabilidade ameaça autoridade. Quando um homem admite sofrimento, ele sente que está arriscando não apenas a imagem, mas a própria identidade”, explica a especialista.
De acordo com ela, isso revela uma estrutura psíquica profundamente vinculada ao desempenho. “Se o valor pessoal está baseado no que se produz, qualquer fragilidade parece um desmoronamento. A terapia confronta exatamente essa lógica.”

A identidade baseada na performance
Desde cedo, muitos homens aprendem que reconhecimento profissional, estabilidade financeira e autocontrole definem seu valor social. O problema surge quando emoções inevitáveis — ansiedade, exaustão ou insegurança — passam a ser percebidas como fracasso pessoal.
A psicóloga explica que homens bem-sucedidos muitas vezes adiam a busca por ajuda, justamente porque construíram identidade sobre resultados.
“Quando toda a identidade depende da performance, o indivíduo se torna refém dela. O sucesso deixa de ser realização e passa a funcionar como mecanismo de sobrevivência emocional.”
Jordan também comentou que o autoconhecimento exigiu confrontar expectativas antigas sobre força e controle emocional.
“Você aprende a ser forte o tempo todo. Mas chega um momento em que entende que ignorar sentimentos não resolve nada”, disse o ator.
O custo psicológico da pressão constante
A exigência permanente por produtividade mantém o organismo em estado contínuo de alerta.
“A pressão prolongada aumenta o cortisol e reduz a capacidade de autorregulação emocional”, afirma.
Na prática, isso pode se manifestar como:
- irritabilidade frequente;
- dificuldade de descanso mental;
- impulsividade;
- sensação constante de cobrança; e
- vazio emocional mesmo após conquistas.
Segundo a especialista, performance isolada não sustenta identidade a longo prazo.

Emoções reprimidas mudam de forma
O sofrimento emocional masculino raramente aparece como pedido direto de ajuda. Em vez disso, costuma surgir de maneira indireta:
- excesso de trabalho;
- isolamento emocional;
- dificuldade em relações afetivas;
- hiperprodutividade; e
- incapacidade de relaxar.
“Homens que não elaboram sofrimento tendem a expressá-lo como irritação ou afastamento emocional.”
Muitos só procuram apoio após episódios de esgotamento, crises pessoais ou perda de sentido profissional.
O impacto emocional de papéis intensos
No caso de Michael B. Jordan, interpretar dois personagens emocionalmente complexos em Pecadores também evidencia outro aspecto pouco discutido: o desgaste psíquico associado a profissões que exigem acesso frequente a emoções extremas.
“O cérebro ativa redes neurais ligadas às emoções vivenciadas, mesmo em contexto ficcional. Sem diferenciação emocional adequada, pode ocorrer exaustão.”
O próprio ator reconheceu que o ritmo intenso de trabalho o levou a repensar prioridades pessoais.
“Eu precisava desacelerar e entender quem eu era fora dos personagens e dos projetos.”

Em Pecadores, Jordan interpreta dois irmãos emocionalmente opostos, experiência que exigiu forte imersão psicológica. O ator contou que precisou desenvolver métodos específicos para diferenciar os personagens e preservar equilíbrio emocional durante as filmagens.
“Eu precisava saber exatamente quem era cada um deles antes de entrar em cena.”
Terapia e o novo modelo de masculinidade
Apesar da resistência histórica, especialistas observam uma mudança geracional em curso.
“Estamos vivendo o choque entre dois modelos: o homem invulnerável e o homem emocionalmente consciente.”
Falar sobre terapia deixa de representar fragilidade e passa a sinalizar responsabilidade emocional — especialmente quando figuras públicas abordam o tema. “Celebridades funcionam como espelhos culturais. Quando homens admirados normalizam o cuidado emocional, ampliam o significado social de força.”
Jordan afirmou que o processo terapêutico mudou sua forma de lidar com pressão e expectativas. “Aprendi que cuidar da minha saúde mental é parte do meu trabalho — não algo separado dele.”
Autoconhecimento como ferramenta de alta performance
Ao contrário do senso comum, maturidade emocional não reduz desempenho profissional.
Profissionais emocionalmente conscientes tendem a:
- reagir menos por impulso;
- tomar decisões mais estratégicas;
- lidar melhor com pressão;
- construir relações mais estáveis; e
- manter consistência ao longo do tempo.
“Maturidade emocional não é ausência de emoção. É integração.”
A especialista diferencia:
Controle emocional: supressão do que se sente. e
Maturidade emocional: compreensão e escolha consciente da ação.
A virada emocional dos 40 anos
Aos 39 anos, vivendo reconhecimento internacional e novos projetos como diretor, Jordan atravessa uma fase comum de reorganização identitária.
“Por volta dos 40, muitos homens deixam de perguntar: ‘O que conquistei?’, e passam a questionar: ‘Isso me representa?’.” Segundo a psicóloga, não se trata de crise, mas de busca por autenticidade e propósito.

Quando procurar ajuda psicológica?
Alguns sinais frequentes incluem: irritabilidade recorrente, sensação de vazio mesmo após conquistas, instabilidade nos relacionamentos, uso do trabalho como fuga emocional e dificuldade de desacelerar.
“O sofrimento masculino raramente aparece como pedido explícito de ajuda. Ele costuma se disfarçar de produtividade excessiva.”
Um novo significado de força
Para a especialista, o debate levantado por Michael B. Jordan simboliza uma transformação cultural mais ampla.
“O maior risco para a saúde mental masculina não é a vulnerabilidade — é a obrigação constante de parecer invulnerável.”
Ao falar sobre terapia em meio ao auge profissional, o ator ajuda a redefinir um modelo de masculinidade em que sucesso e consciência emocional deixam de ser opostos — e passam a caminhar juntos.

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