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Os traços de um predador: psicóloga avalia o que o caso Epstein revela
A psicóloga Cibele Santos avaliou os comportamentos e condutas documentados sobre Jeffrey Epstein; saiba como identificar
atualizado
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A personalidade de Jeffrey Epstein foi determinante para que ele alcançasse poder e prestígio. O financista, acusado de liderar um esquema internacional de exploração sexual de menores, é descrito por pessoas que conviveram próximas a ele como um “colecionador de pessoas” e sociopata.
Segundo relatos, Epstein mantinha a fachada de “homem misterioso” para se infiltrar nos círculos mais altos da política, das finanças e da academia, utilizando uma combinação de carisma, charme, persuasão e manipulação psicológica para construir e sustentar uma rede de contatos poderosa.

Em 2020, o advogado Bradley J. Edwards — que representou 20 vítimas do esquema de Epstein em 2008 — detalhou como foi enfrentar por uma década a face de um predador sexual. Em entrevista à Rolling Stone, ele descreveu como enxergava a personalidade do bilionário.
“Epstein sempre tentava tirar vantagem de todos e estava disposto a usar qualquer tática que pudesse lhe trazer benefícios para manipular as pessoas ao seu redor e manter o poder”, apontou.
“Bem, eu não sou psicólogo, mas este, eu acho, é o sociopata mais fácil de identificar. Ninguém que o conhecia acredita que ele agia com consciência. Ele claramente só se importava consigo mesmo. Estava constantemente tentando fazer com que todos acreditassem que ele se importava apenas com os outros. Ele é a definição de um sociopata”, completou.
A personalidade predatória de Jeffrey Epstein
Baseando-se em comportamentos documentados e referenciais psicológicos já estabelecidos sobre a conduta de Epstein, a coluna Claudia Meireles ouviu a psicóloga Cibele Santos para avaliar o perfil do bilionário e ajudar a entender quais traços podem estar associados a perfis semelhantes — e como reconhecê-los.
De acordo com a especialista, Epstein se enquadraria no que se chama de “predador de colarinho branco”. “Psicopatas de alto funcionamento, como Jeffrey Epstein, possuem uma inteligência acima da média e um excelente controle de impulsos. Diferente do psicopata marginalizado, eles usam as regras do sistema a seu favor“, analisa Cibele Santos.

Nesse tipo de perfil, o poder não é apenas consequência. A riqueza e as conexões funcionam como instrumentos de influência e, muitas vezes, como mecanismo de blindagem social. O advogado Bradley J. Edwards sabia muito bem disso e relatou que Epstein frequentemente intimidava suas vítimas ao reforçar o alcance de seus contatos influentes.
“[Ele] mencionava como ele podia fazer com que as pessoas perdessem seus empregos, suas carreiras e causar consequências a qualquer um que o contrariasse. Não houve uma única pessoa que tenha convivido com ele que não tenha saído daquela interação com um medo extraordinário, pensando: ‘Essa é a última pessoa no universo com quem eu quero me meter'”, descreveu Bradley J. Edwards à época.
Para Cibele Santos, esse comportamento revela um traço recorrente: grandiosidade associada à sensação de invulnerabilidade. “Um senso inflado de importância e direito, onde acham que as leis não se aplicam a eles”, explica.
Segundo ela, o dinheiro e o status podem funcionar como uma armadura social. “A sociedade tende a confundir sucesso financeiro com integridade moral. Grandes redes de influência criam um sistema de proteção mútua. Amigos poderosos podem não ser abusadores, mas tornam-se ‘facilitadores’ ao validar a presença do predador em ambientes seletos. Isso gera na vítima a sensação de que denunciar é inútil, pois o agressor controla o sistema”, alerta Cibele Santos.
Charme superficial e generosidade
O advogado que representou as vítimas de Epstein no tribunal também detalhou o perfil das mulheres que eram atraídas para a teia de exploração e abuso. Segundo ele, Epstein só se envolvia em atos sexuais com pessoas vulneráveis e que ele podia controlar.
“O controle e o poder eram muito mais importantes para ele do que o sexo. As vulnerabilidades que ele explorava eram a pouca idade da vítima, a situação financeira, ou até mesmo as dançarinas e modelos de Nova York que tinham um sonho, e ele podia fazer promessas a elas e depois manipular a situação”, exemplificou Edwards.

A aparente generosidade, porém, tinha um preço alto. “O importante era poder controlar todas essas pessoas e usar o sexo para humilhá-las, degradá-las e controlá-las ainda mais”, salientou o advogado.
Para a psicóloga Cibele Santos, esse padrão é compatível com estratégias conhecidas como love bombing — o bombardeio inicial de atenção, promessas e validação.“Se alguém parece ‘perfeito demais’ ou oferece soluções rápidas para todos os seus problemas em troca de lealdade irrestrita, desconfie. O charme é uma ferramenta de desarmamento”, pontua.
Chantagem
De acordo com a psicóloga, o uso de manipulação e ameaça está entre as estratégias mais sofisticadas atribuídas a perfis predatórios de alto funcionamento — inclusive por meio da sugestão de informações comprometedoras.
Mesmo sem uma ameaça explícita, a insinuação era suficiente para estabelecer intimidação. Segundo Cibele Santos, esse tipo de comportamento se encaixa na chamada estratégia de “blindagem”.
“A psicologia explica o acúmulo de informações comprometedoras como uma forma de controle coercitivo. Ao comprometer outros, o psicopata garante que, se ele cair, todos caem. É uma extensão da falta de empatia: as pessoas são apenas peças de xadrez para garantir sua sobrevivência”, explica.
Edwards afirmou que nunca encontrou provas concretas da existência de gravações comprometedoras envolvendo terceiros, mas ressaltou que Epstein frequentemente insinuava ter informações sensíveis — o que, por si só, já produzia efeito psicológico.

Esse mecanismo se conecta a outro fator relevante: o medo reputacional. Em casos envolvendo figuras de alto poder econômico e social, o silenciamento nem sempre ocorre por violência física, mas pelo temor de destruição de reputações, carreiras e redes sociais.
“O predador convence a vítima de que ninguém acreditará nela. O trauma gera uma paralisia psicológica, como se o alcance do agressor fosse infinito”, alerta Cibele.
Perfis como o de Epstein evidenciam que nem sempre um predador corresponde ao estereótipo óbvio. Muitas vezes, ele veste prestígio, influência e respeitabilidade social. Para Cibele Santos, a principal lição está na capacidade de reconhecer padrões — e não apenas indivíduos.
“O déficit afetivo é um pilar central. Enquanto uma pessoa comum sente um “aperto no peito” ao ferir alguém, o psicopata é emocionalmente daltônico. Observe a reação deles diante do erro. Eles não pedem desculpas genuínas; em vez disso, racionalizam o comportamento ou invertem a culpa, fazendo a vítima se sentir culpada pela reação ao abuso”, alerta Cibele Santos.
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