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Obesidade segue em crescimento mesmo na era das canetas emagrecedoras
Estudo mostra alta nos diagnósticos de obesidade; especialistas afirmam que o uso de remédios não resolve sozinho a epidemia de doença
atualizado
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As chamadas “canetas emagrecedoras” entraram de vez no vocabulário popular. Viraram assunto em consultórios, grupos de amigos, redes sociais e mesas de bar. Mas, no meio da febre por medicamentos como semaglutida e tirzepatida, uma pergunta continua no ar: se o tratamento para obesidade nunca esteve tão em evidência, por que a doença continua crescendo?
Um levantamento da Omint Saúde, obtido pela coluna Claudia Meireles, demonstra que a prevalência de obesidade entre adultos cresceu 9% nos últimos cinco anos, com um salto de 5% entre 2023 e 2024 — justamente em um período marcado pela popularização desses remédios.
À primeira vista, o dado parece contraditório. Mas, segundo especialistas, ele ajuda a ilustrar um cenário mais complexo do que a ideia de que uma medicação, sozinha, resolveria uma epidemia de saúde pública.

Mais remédio, mais diagnóstico
Parte da explicação pode estar no próprio aumento da procura por tratamento. Com a visibilidade que os novos medicamentos ganharam, mais pessoas passaram a buscar endocrinologistas, clínicos e equipes especializadas.
Para o médico e cirurgião Marcos Loreto, isso também ampliou o número de casos formalmente identificados.
“Em muitos casos, trata-se de pacientes que já conviviam com obesidade, mas que passaram a buscar acompanhamento especializado diante das novas possibilidades terapêuticas”, explica.
Ou seja: nem todo aumento significa necessariamente que a doença “surgiu” agora. Em muitos casos, ela já estava presente, mas sem diagnóstico, acompanhamento ou registro clínico.
Ainda assim, especialistas são unânimes em dizer que isso não explica tudo.

O ambiente influencia o corpo para o ganho de peso
A obesidade não cresce apenas porque faltam remédios. Ela cresce porque o ambiente moderno continua funcionando quase como uma máquina de favorecer o ganho de peso.
Segundo o endocrinologista Renato Zilli, a doença está profundamente ligada ao estilo de vida contemporâneo.
“A obesidade é resultado de um ambiente que a favorece. Hoje, temos mais acesso a comida ultraprocessada, barata e hiperpalatável, menos sono, mais estresse, mais sedentarismo e mais telas. Tudo isso desregula fome, saciedade e recompensa cerebral”, afirma.
Em outras palavras, o problema não está apenas no prato, mas também na rotina. Dormir pouco, viver cansado, passar horas sentado, comer com pressa, viver sob estresse constante e usar a comida como válvula de escape formam uma combinação poderosa.
E aí está um ponto importante: a caneta pode ajudar, porém, ela não “desliga” o contexto em que a pessoa vive.
Obesidade não é falta de força de vontade
Uma das maiores distorções no debate público é tratar obesidade como sinônimo de descuido, preguiça ou falta de disciplina. A medicina já não enxerga a doença dessa forma há muito tempo.
Segundo Zilli, a obesidade é um processo biológico e crônico, que envolve alterações hormonais, neurológicas e metabólicas.
“Quando o tecido adiposo aumenta, há mudanças hormonais e neurológicas que alteram a fome, a saciedade e o gasto energético. O cérebro passa a defender um ‘novo ponto’ de peso, e o corpo se adapta para recuperá-lo caso haja perda de peso”, diz.
É justamente por isso que tanta gente emagrece e volta a ganhar peso. Não se trata apenas de “escorregar na dieta”, mas de um corpo que reage para tentar retornar ao peso anterior.


A caneta ajuda, mas não faz milagre
Os análogos de GLP-1 e outros medicamentos mais recentes mudaram, sim, o jogo do tratamento da obesidade. Eles podem reduzir fome, melhorar saciedade e trazer resultados clínicos relevantes, especialmente quando há comorbidades associadas.
Só que existe um detalhe: eles não funcionam como solução mágica.
O melhor resultado ainda vem da combinação entre:
- Acompanhamento médico;
- Alimentação ajustada;
- Atividade física;
- Melhora do sono;
- Manejo do estresse;
- Suporte comportamental.
O tratamento existe, mas não é acessível
Mesmo com o aumento da popularidade dessas medicações, o tratamento da obesidade ainda esbarra em uma barreira central: nem todo mundo consegue manter cuidado estruturado, contínuo e acessível.
A doença exige seguimento, reavaliação, constância e, muitas vezes, abordagem multidisciplinar. E isso está longe da realidade de boa parte da população.
Enquanto isso, os números seguem subindo. Dados do Ministério da Saúde mostram que a prevalência de obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, chegando a 25,7% da população adulta. Quando se considera o sobrepeso, o percentual alcança 62,6% dos brasileiros adultos.
No fim, a explosão das “canetas emagrecedoras” colocou a obesidade no centro da conversa, mas a resposta para frear essa curva continua sendo menos simples do que um vídeo viral antes e depois.
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