Claudia Meireles

Codependência no set de filmagem: o caso Margot Robbie e Jacob Elordi

Relato de Margot Robbie sobre vínculo intenso com Jacob Elordi no set desperta debate psicológico sobre dependência emocional no trabalho

atualizado

metropoles.com

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Warner Bros. Pictures/Reprodução
foto com cor. o morro dos ventos uivantes - metrópoles
1 de 1 foto com cor. o morro dos ventos uivantes - metrópoles - Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução

Quando Margot Robbie descreveu ter se sentido “perdida, como uma criança sem cobertor” ao se afastar do colega de cena Jacob Elordi durante as filmagens de O Morro dos Ventos Uivantes, o comentário ultrapassou a curiosidade de bastidores. A fala da atriz jogou luz sobre um fenômeno comum, e pouco discutido, em ambientes profissionais de alta intensidade emocional: a codependência. O que começa como parceria criativa pode, sem limites claros, se transformar em dependência afetiva.

Um vínculo que chamou atenção

Durante entrevistas de divulgação do novo filme dirigido por Emerald Fennell, Margot Robbie afirmou que costuma criar vínculos muito fortes com colegas de trabalho e que, desta vez, isso aconteceu de forma especialmente rápida com Jacob Elordi. Segundo a atriz, nos primeiros dias de filmagem, o colega passou a permanecer constantemente por perto, mesmo quando não estava diretamente envolvido nas cenas.

Na imagem com cor, Margot Robbie usa vestido verde da Bottega Veneta - Metrópoles
Margot Robbie
“Ele estava sempre na minha vizinhança, em algum canto, observando”, relatou Margot Robbie, em tom bem-humorado.

A situação chamou a atenção até da diretora Emerald Fennell, que afirmou não ter orientado esse comportamento e revelou que, em determinado momento, precisou pedir que Elordi se afastasse.

Com o passar dos dias, a dinâmica se inverteu. Robbie contou que passou a procurar o colega automaticamente no set e que se sentiu emocionalmente desorganizada ao perceber que ele não estava mais por perto.

“Fiquei debilitada, meio sem chão, como uma criança sem seu cobertor”, disse a atriz.

O depoimento viralizou não por sugerir um romance fora das telas, mas por expor com franqueza uma sensação de desorientação emocional — algo que muitas pessoas reconhecem em seus próprios ambientes de trabalho, ainda que em contextos bem menos glamourosos que Hollywood.

O que a Psicologia chama de codependência

Segundo a psicóloga clínica Candice Galvão, codependência é um padrão relacional em que o bem-estar emocional, a identidade e até as decisões de uma pessoa passam a depender excessivamente da outra.

Candice Galvão é psicóloga clínica, com especialização em Psicologia Clínica, Neuropsicologia e Psico-oncologia, com atuação em Natal (RN).

“Ela tende a se formar com mais facilidade em contextos de insegurança emocional, baixa autoestima, necessidade intensa de validação ou em relações assimétricas de poder”, explica a especialista.

Embora o termo seja frequentemente associado a relações amorosas ou familiares, a especialista destaca que ele também se manifesta com força em ambientes profissionais, especialmente os mais intensos.

Por que ambientes intensos aceleram vínculos

Produções cinematográficas reúnem fatores clássicos para a formação de vínculos rápidos: pressão constante, longas jornadas, entrega emocional e convivência quase ininterrupta.

“Ambientes de alta pressão favorecem conexões aceleradas porque as pessoas compartilham estresse, desafios e vulnerabilidades”, afirma Candice. “Isso cria uma sensação de intimidade que pode ser confundida com conexão profunda.”

No caso de O Morro dos Ventos Uivantes, a carga emocional da história, marcada por paixão, obsessão e perda, intensifica ainda mais esse processo.

Foto colorida de Jacob Elordi usando roupa formal - Metrópoles
Jacob Elordi

Quando o outro vira regulador emocional

Um dos pontos mais sensíveis do relato de Margot Robbie foi a sensação de se sentir “perdida” na ausência do colega. Para a psicóloga, esse é um sinal clássico de alerta.

“Isso acontece quando a pessoa passa a usar o outro como organizador emocional. Sem essa referência externa, surgem insegurança, desorientação e sensação de vazio”, explica.

A presença constante do outro reduz ansiedade, oferece validação e previsibilidade. O problema surge quando não existem recursos internos suficientes para sustentar o equilíbrio emocional sozinho.

Parceria criativa ou dependência afetiva?

A linha entre uma parceria intensa e uma dependência emocional pode ser tênue. Segundo Candice, a diferença está no impacto subjetivo do vínculo.

“Parcerias saudáveis ampliam o sujeito. A dependência restringe”, resume. “Quando a relação gera medo excessivo de afastamento, ansiedade constante ou dificuldade de funcionar sozinho, o limite foi ultrapassado.”

Mesmo sem envolvimento romântico, relações muito fusionais no trabalho podem gerar conflitos, perda de autonomia, queda de produtividade e sofrimento psíquico.

O luto invisível quando o projeto acaba

Outro efeito pouco discutido é o impacto emocional do fim abrupto de projetos intensos. Segundo a especialista, é comum surgir um luto simbólico.

“Tristeza, sensação de vazio, irritabilidade, desmotivação e sintomas ansiosos podem aparecer. Trata-se da perda da rotina, do vínculo e do sentido compartilhado”, diz.

Esse vazio costuma ser confundido com exaustão ou tédio, quando na verdade reflete uma ruptura emocional mal elaborada.

Imagem colorida de Margot Robbie e Tom Ackerley em evento. Ambos usam óculos escuros e sorriem para a câmera - Metrópoles
Margot Robbie com o marido Tom Ackerley

O papel da liderança em relações intensas

Para Candice Galvão, líderes, diretores e gestores têm papel central na prevenção de vínculos adoecidos.

“Cabe observar dinâmicas excessivamente dependentes, estimular autonomia, promover limites claros e distribuir responsabilidades de forma equilibrada”, afirma.

No caso do filme, a própria diretora relatou ter precisado intervir em determinados momentos — uma atitude que, segundo a psicóloga, protege não apenas o projeto, mas a saúde emocional da equipe.

A diretora Emerald Fennell fez questão de esclarecer que a dependência entre os protagonistas não partiu de uma orientação criativa. Ao ouvir o relato de Margot sobre Jacob, ela interveio com humor, mas de forma direta:

“Eu não disse para ele fazer isso. Na verdade, eu tive que pedir para ele sair”, contou, arrancando risos dos atores durante a entrevista.

A fala da diretora ajuda a dimensionar o nível de intensidade da dinâmica no set e mostra que, mesmo em produções de grande porte, vínculos emocionais podem extrapolar o que estava inicialmente previsto no processo criativo, exigindo mediação externa e limites claros.

O papel do outro na dinâmica de dependência

Embora Margot Robbie tenha sido a voz mais direta ao nomear a experiência como “codependência”, Jacob Elordi também reconheceu a intensidade do vínculo construído no set. Em entrevista, o ator descreveu a relação como uma “obsessão mútua” e afirmou que, ao dividir cenas com Robbie, fazia questão de permanecer sempre por perto.

“Se você tem a oportunidade de compartilhar um set com a Margot Robbie, vai garantir estar a cinco ou dez metros dela o tempo todo”, disse.

Para ele, observar a colega — seus gestos, sua concentração e até ações cotidianas — fazia parte do processo criativo e de admiração profissional.

Do ponto de vista psicológico, esse tipo de presença constante pode reforçar dinâmicas de dependência emocional, ainda que de forma inconsciente. Quando um dos envolvidos assume o papel de observador contínuo, fonte de validação ou referência emocional, o vínculo tende a se intensificar e a ganhar um caráter regulador, especialmente em ambientes de alta carga afetiva.

Segundo especialistas, a dependência não se constrói sozinha: ela é sempre relacional. Não se trata de intenção ou controle, mas de uma dinâmica que se retroalimenta quando ambos os lados encontram segurança emocional na proximidade constante. Nesse contexto, admiração, entrega artística e validação mútua podem rapidamente ultrapassar o campo profissional e tocar zonas emocionais mais sensíveis.

Como preservar autonomia emocional no trabalho

Entre as estratégias fundamentais para evitar a codependência em ambientes profissionais, a psicóloga destaca:

  • Manter uma vida emocional fora do trabalho
  • Desenvolver autorregulação emocional
  • Estabelecer limites claros
  • Evitar centralizar vínculos em uma única pessoa
  • Buscar apoio psicológico quando necessário
“Autonomia emocional não afasta pessoas”, reforça. “Ela impede que o trabalho se transforme em uma prisão afetiva.”

Um debate que vai além de Hollywood

O caso de Margot Robbie e Jacob Elordi funciona como espelho de uma realidade comum a muitos profissionais. Conexões intensas podem ser férteis, criativas e transformadoras — mas, sem limites, também podem adoecer.

“Quando um vínculo deixa de ampliar o sujeito e passa a organizá-lo emocionalmente, já não estamos falando de parceria, mas de dependência.”

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