
Claudia MeirelesColunas

Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer
Quadrinho engavetado por 32 anos renasce pelas mãos do trio Candango HQ, revelando um universo experimental e movido por obsessão criativa
atualizado
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Era o fim dos anos 1980 quando dois amigos de Brasília — Francisco Alves, artista plástico e funcionário dos Correios, e Delmo Arguelhes, então estudante de História — descobriram que tinham mais do que afinidades pessoais. Dividiam uma devoção absoluta pelas histórias em quadrinhos. Consumiam tudo: produção brasileira, estadunidense, europeia. E, como todo leitor apaixonado, começaram a se perguntar quando chegaria a hora de criar suas próprias HQs.
As ideias surgiam mais rápido do que as mãos conseguiam desenhar. Foi quando Delmo lembrou de uma amiga de infância, Leila, que já demonstrava talento incomum desde os sete anos. Ele a chamou; ela topou. A primeira formação da Candango HQ estava completa.
“Outro dia eu estava pensando. Delmo é o cérebro. Ele pensa. Outro dia eu falei que ele tem 397 milhões de ideias. Aqui é a cabeça. É o cérebro. Francisco é o pulmão. Porque respira. Ele respira para dar vida às nossas obras”, declarou Leila, descrevendo seus companheiros. “Arte é a vida. E eu sou a mão. Eles dizem que eu consigo captar o que eles têm em mente. Agora, é um desafio. Porque são essas mentes, e eu do outro lado.” Completou entre risadas.

Candango HQ
O trio por trás do universo de Texas Ranger e Lincoln Jr. funciona como uma engrenagem criativa perfeitamente desajustada, e é justamente isso que faz tudo dar certo. Leila, a ailustradora, se descreve como a artista que transforma ideias em imagem, enquanto o roteirista Delmo assume ser “o cérebro”, a mente que cria personagens, piadas e dilemas narrativos a todo momento.
Francisco, por sua vez, é visto como aquele que “respira arte” e dá ritmo ao trabalho coletivo. Eles brincam com essa dinâmica: “Olha só o que a mão faz… ela consegue captar o que a gente tem em mente”, diz Delmo sobre Leila; “A cabeça dele é borbulhante”, ela responde sobre ele.
Francisco, o arte finalista do grupo, com a calma de quem já transitou pela pintura e pelos quadrinhos, admite que busca uma perfeição impossível — “A gente rasga, joga fora e continua” — e os colegas reconhecem nele o equilíbrio entre técnica e sensibilidade.
Juntos, formam um time em que cada um completa o outro, misturando rigor, humor e obsessão criativa para dar vida ao universo crescente de suas obras.
Conheça as mentes criativas por trás de Gloom:
A gênese de Gloom: uma narrativa sobre a desintegração da mente
Delmo imaginava uma HQ que acompanhasse a queda de um homem comum rumo à loucura. Uma trajetória linear, simples, do ponto A ao ponto B. Mas nada no trio era simples.
Ao ouvir o conceito, Leila perguntou: “Mas por que contar essa história de modo linear? E se a gente quebrar a linha temporal?”.
O comentário mudou tudo. Nascia ali o DNA de Gloom: uma narrativa fragmentada, inquieta, que mistura passado, presente, delírios e memórias. O próprio título, cunhado por Francisco, sintetizava a atmosfera pesada, nebulosa e perturbadora da obra.
O personagem principal não tem nome, uma escolha proposital, segundo os autores, para que sua identidade dissolvida se tornasse parte da experiência de leitura.
Um processo artesanal — e interrompido
Entre 1991 e 1992, o trio criou storyboards completos, discutiu página a página, escreveu diálogos a várias mãos. Mas o mercado editorial brasileiro da época era hostil a experimentações. Na Bienal de Quadrinhos do Rio, editoras foram francas: quadrinhos autorais, adultos e experimentais não tinham espaço.
Para pagar o aluguel do estúdio, os três migraram para a serigrafia. Aos poucos, a rotina apertou, cada um seguiu a própria vida profissional, e Gloom acabou engavetada. Por 32 anos.
O retorno inesperado
Em 2013, no lançamento do livro de Delmo — já doutor em História — Francisco fez a pergunta que reacendeu tudo: “E se a gente voltasse com aquela revista em quadrinhos?”. A resposta foi imediata: sim.
Leila também aceitou sem hesitar. Francisco refez a arte-final inteira e o trio retomou o projeto, agora com maturidade técnica e emocional muito maior. Francisco aproveitou para relembrar:
“Quando a Leila chegou, ela se tornou uma parceira. E eu vi que nossa qualidade de desenho já era profissional. Então veio para somar na amizade, no companheirismo e tudo.
E, assim, não foi só o Gloom que nasceu, nasceram outras revistas que estão guardadas ainda.”
A HQ enfim foi publicada em 2023, utilizando ainda os rascunhos iniciais, que Francisco guardou com carinho por mais de 30 anos.
O resultado? Um quadrinho único no cenário nacional: denso, experimental, psicologicamente extenuante e visualmente preciso.

A crítica
O roteirista Jailson Soares, autor de Campo de Vagalumes, sintetizou a experiência assim:
Gloom não é uma leitura passiva; é uma experiência sensorial que exige entrega à desorientação. Como o algoritmo de Dahmer, que ‘espalha caos’ ao manipular percepções, a HQ desconstrói certezas, deixando o leitor tão perdido quanto seu protagonista anônimo. Recomendado para quem busca quadrinhos que desafiem não só a forma, mas a própria noção de sanidade. Uma alegoria perturbadora sobre como a loucura pode ser, afinal, um reflexo distorcido do mundo em que habitamos.
Jailson Soares
Um futuro aberto
Hoje, Gloom atrai novos leitores. Há conversas sobre adaptações e o trio Candango HQ segue reunido, criando, aperfeiçoando e explorando novas possibilidades narrativas. A história que quase nunca existiu ganhou vida e tornou-se um dos projetos independentes mais singulares da cena brasileira.
“A gente tem que estar dentro dos melhores. É para ficar entre os melhores do mundo.” Disse Leila, rindo. “E assim, é uma piada. Mas tem um fundo de verdade.”
O trio vai lançar, em 15 de dezembro, no Beirute da Asa Sul, a mais nova produção da Candango HQ: Texas Ranger e Lincoln Júnior, A balada de Minouette. A obre se trata de uma série satírica em um universo paralelo, misturando faroeste, humor absurdo, crítica social e cultura pop, com dezenas de personagens exagerados e um herói que defende excluídos.
Essa primeira edição, especificamente, tem a trama iniciada em uma reunião criminosa que dá errado, com falsa identidade de uma assassina lendária e intervenção do Texas Ranger. É uma paródia de noir, crime e mito heroico.

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