
Claudia MeirelesColunas

Golden Globes 2026 reflete um entretenimento em crise e transformação
Com vitórias marcantes, discursos emocionantes e tentativa de transformação, o Globo de Ouro equilibra prestígio artístico e críticas justas
atualizado
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Com vitórias expressivas, discursos politizados e um esforço visível de reafirmação artística, e transformação, o Golden Globes 2026 apostou em escolhas mais sólidas para reposicionar seu prestígio. A cerimônia, realizada no Beverly Hilton, consagrou vitórias emocionantes, fez história com o prêmio de Wagner Moura e levou ao centro do palco debates sobre representatividade, memória, identidade e o papel cultural do entretenimento em um momento de fortes tensões sociais.
Criado em 1944, o Globo de Ouro atravessou décadas como um dos eventos mais influentes, e também mais controversos, do calendário audiovisual. Em sua 83ª edição, realizada neste domingo (11/1), a premiação refletiu justamente esse paradoxo: enquanto buscou reafirmar seu valor artístico e simbólico, ainda conviveu com decisões conservadoras e formatos que seguem despertando questionamentos.

Uma Batalha Após a Outra domina a noite
O grande destaque da cerimônia foi Uma Batalha Após a Outra, que liderou a noite em número de vitórias e confirmou seu favoritismo após chegar ao evento com nove indicações.
A atriz Teyana Taylor abriu a premiação com uma vitória emocionante e simbólica como melhor atriz coadjuvante em cinema, em um discurso que estabeleceu o tom da noite. Visivelmente emocionada, ela afirmou que nada daquilo era tomado como garantido e se dirigiu diretamente a mulheres negras que assistiam à cerimônia, defendendo que suavidade não é fraqueza, que suas vozes importam e seus sonhos merecem espaço.

Mais tarde, Paul Thomas Anderson, comovido, consolidou o domínio do longa ao vencer melhor roteiro, melhor direção e, ao final da noite, melhor filme – musical ou comédia, superando produções como Marty Supreme, Blue Moon, Bugonia, No Other Choice e Nouvelle Vague.
Wagner Moura faz história e reforça o alcance internacional
Outro dos momentos mais marcantes da noite veio com Wagner Moura, que venceu o Globo de Ouro de melhor ator em filme dramático por O Agente Secreto. O ator se tornou o primeiro brasileiro a vencer nessa categoria, além de já ter sido o primeiro indicado anteriormente. Esse marco mostra a importante transformação que a indústria tem tido, abrindo espaço para artistas fora da bolha Hollywoodiana.
Em seu discurso, Moura destacou que o filme aborda memória, trauma geracional e valores transmitidos ao longo do tempo, dedicando o prêmio àqueles que mantêm seus princípios em momentos difíceis.
“E para todo mundo no Brasil que está assistindo isso agora, viva o Brasil e a cultura brasileira”, completou em português.

Além do prêmio de Moura, O Agente Secreto venceu melhor filme internacional, tornando-se também o primeiro longa brasileiro reconhecido na categoria de melhor filme dramático. Ambientado no Brasil de 1977, sob a ditadura militar, o thriller político dirigido por Kleber Mendonça Filho acompanha um dissidente perseguido por um regime autoritário. O filme já havia acumulado reconhecimento no Festival de Cannes, incluindo prêmios de atuação, direção e crítica internacional.
Britânicos dominam as categorias de TV
As produções britânicas tiveram uma presença dominante nas categorias televisivas. Adolescente varreu os prêmios aos quais foi indicada, com Owen Cooper, Stephen Graham e Erin Doherty vencendo como atores coadjuvantes e protagonista, além do prêmio de melhor minissérie.
O ator mirim Owen Cooper chamou atenção ao encerrar o discurso com “you’ll never walk alone” (você nunca caminhará sozinho, em tradução literal). A frase, que arrancou reações entusiasmadas fez referência direta ao hino do time de futebol inglês. O ator cresceu em Warrington, cidade próxima a Liverpool, e é um torcedor declarado do clube — detalhe que ajudou a tornar o momento ainda mais simbólico para o pequeno ator e o fez ser celebrado pelos torcedores fanáticos do LFC.

Outras séries já consolidadas também repetiram vitórias importantes, como The Pitt e The Studio, reforçando uma tendência da premiação de optar por escolhas mais seguras e menos ousadas — um contraste com anos anteriores, quando indicações consideradas “questionáveis” alimentavam críticas à curadoria do evento.
Rose Byrne entra com força na corrida do Oscar
Entre os momentos mais comentados da noite esteve a vitória de Rose Byrne como melhor atriz em filme – musical ou comédia por If I Had Legs I’d Kick You. Em um discurso rouco e emocionado, ela agradeceu ao marido, Bobby Cannavale, que não compareceu por estar em uma feira de répteis em Nova Jersey para comprar um dragão-barbudo para o casal.
A vitória colocou Byrne no radar imediato da corrida ao Oscar, após superar concorrentes como Cynthia Erivo, Amanda Seyfried e Emma Stone.

Nikki Glaser consolida acerto como anfitriã
Após um desempenho amplamente criticado de Jo Koy em 2024, os organizadores acertaram ao trazer Nikki Glaser de volta ao posto de apresentadora. Em seu segundo ano consecutivo, a comediante demonstrou domínio do palco ao equilibrar sarcasmo, autodepreciação e provocações diretas a celebridades.
Entre os destaques do monólogo estiveram piadas sobre Leonardo DiCaprio, George Clooney, Dwayne Johnson e até a própria emissora CBS News, além de referências musicais e callbacks bem-sucedidos de números apresentados no ano anterior. No encerramento da noite, Glaser ainda prestou uma homenagem discreta ao cineasta Rob Reiner, usando um boné do filme mockumentary de 1984, This Is Spinal Tap e encerrando a cerimônia com a frase “this one went to 11”.
A fala é uma referência icônica a cena em que um guitarrista mostra um amplificador com volume “indo até onze” em vez de 10, simbolizando levar algo além do máximo, ao seu limite absoluto, com grande energia ou volume. A expressão, que se utiliza de um humor exagerado, foi tão popularizada que entrou no Oxford English Dictionary.
Esnobados, escolhas conservadoras e críticas à produção
Apesar dos acertos, a cerimônia não escapou de críticas. Prêmios técnicos como melhor trilha sonora original foram anunciados durante os intervalos comerciais, enquanto categorias recém-criadas — como melhor podcast — ganharam tempo excessivo e exibição de clipes completos.
A inclusão da categoria de box office achievement, referente aos números de bilheteria, causou estranhamento, vista por muitos como contraditória ao esforço do evento de se afastar da imagem de “primo menos sério” do Oscar.
A trilha sonora aleatória, a ausência de clipes de filmes em momentos-chave e o excesso de ações promocionais reforçaram a sensação de que a premiação ainda tenta conciliar crescimento comercial com maturidade artística.
Nem todos os indicados e vencedores estiveram presentes no Globo de Ouro 2026. Michelle Williams não compareceu por estar em cartaz com a peça Anna Christie, e teve o prêmio recebido por Melissa McCarthy e Kathryn Hahn. A ausência de Ricky Gervais foi ironizada por Wanda Sykes, que fez referência às críticas ao humor do comediante.
Cynthia Erivo, apesar de indicada, também não pôde ir à cerimônia por conflito de agenda com a preparação do espetáculo de Dracula no West End.
Já Fernanda Torres, vencedora da categoria de Melhor Atriz em Filme de Drama do ano passado, foi convidada para apresentar uma categoria, mas declinou por conflito de datas de compromissos familiares, o que impediu um possível encontro no palco com Wagner Moura, vencedor da categoria da mesma categoria, mas masculina.
Entre amadurecimento e contradições
A 83ª edição do Globo de Ouro deixou claro que o evento vive um momento de transição. As vitórias respeitáveis, o reconhecimento internacional e os discursos potentes apontam para um esforço real de reposicionamento. Ao mesmo tempo, decisões comerciais confusas e tentativas de agradar múltiplos públicos ameaçam diluir esse avanço.
Ao tentar crescer e amadurecer simultaneamente, o Globo de Ouro segue caminhando sobre uma linha delicada. Mas, em 2026, ao menos conseguiu entregar uma noite em que o cinema, a televisão e seus protagonistas voltaram a ocupar o centro do palco.
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