
Claudia MeirelesColunas

Endocrinologista explica aumento de câncer de tireoide entre jovens
A endocrinologista Érika Fernanda de Faria explicou o principal motivo do aumento “notável” dos casos de câncer de tireoide entre jovens
atualizado
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Uma avaliação global publicada em novembro de 2025 pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), constatou que o câncer de tireoide tornou-se um dos tipos mais diagnosticados entre jovens, especialmente entre mulheres.
Entenda
- O estudo foi liderado por cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), em colaboração com pesquisadores da Itália e da China. Publicado no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, o trabalho analisou dados de 185 países.
- Com base nas informações do banco de dados Cancer Incidence in Five Continents Plus e do Banco de Dados de Mortalidade da Organização Mundial da Saúde (OMS), os pesquisadores observaram que as taxas de incidência de câncer de tireoide entre adolescentes e jovens adultos aumentaram rapidamente desde os anos 2000 na maioria dos países, enquanto as taxas de mortalidade permaneceram muito baixas e estáveis.
- Em 2022, o câncer de tireoide foi responsável por mais de 237 mil novos casos e cerca de 2.100 mortes em todo o mundo.
- O estudo também revelou uma forte correlação positiva entre as taxas de incidência da doença entre adolescentes e jovens adultos e o nível do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
- O dado sugere que o maior acesso a exames de imagem e procedimentos diagnósticos em países mais desenvolvidos pode ter contribuído para o aumento das notificações.
Endocrinologista explica o aumento da incidência de casos de câncer de tireoide em jovens adultos
Embora os dados de maior incidência da doença entre jovens possam causar preocupação, a endocrinologista Érika Fernanda de Faria, do Hospital Santa Lúcia Gama, reforça que não há motivo para alarde. Segundo ela, o aumento “notável” dos diagnósticos pode estar relacionado principalmente ao maior acesso a exames de imagem e a métodos diagnósticos mais sensíveis.
“Não é que a tireoide das pessoas jovens tenha passado a ‘virar câncer’ de repente, e sim que passamos a detectar muito mais tumores pequenos que antes ficavam invisíveis e nunca causariam problemas. Isso é chamado de sobrediagnóstico”, esclarece a especialista.

Nas últimas décadas, segundo a médica, houve um crescimento expressivo no uso de ultrassom de pescoço e tireoide. “Em muitos casos, esses pedidos foram feitos por acaso, em check-ups, avaliação de carótidas, dor cervical ou refluxo. Ao encontrar nódulos muito pequenos, aumentou também a realização de punções e, com isso, o diagnóstico de carcinomas papilíferos muito pequenos”, explica Érika de Faria.
Em concordância com o estudo publicado no The Lancet Diabetes & Endocrinology, a endocrinologista reforça que “a mortalidade permaneceu baixa e estável, o que combina com detecção de tumores indolentes mais do que com uma epidemia de tumores agressivos”.
Fatores de exposição da doença
Apesar de os avanços tecnológicos terem ampliado a capacidade de detecção da doença, ainda é importante compreender os fatores de risco associados ao câncer de tireoide em jovens. Segundo Érika de Faria, existem pelo menos quatro fatores mais bem estabelecidos e respaldados por evidências científicas.
Entre eles está a exposição à radiação ionizante, especialmente em idade jovem, durante a infância e adolescência, e na região do pescoço. “A radioterapia prévia e, em menor grau, a exposição ocupacional ou ambiental são um dos fatores de risco mais consistentes para câncer de tireoide”, alerta a endocrinologista.
A história familiar e algumas síndromes genéticas também exigem atenção. “Ter familiares de primeiro grau com câncer de tireoide aumenta o risco. Algumas síndromes, como MEN2 para carcinoma medular e FAP ou Cowden para outros subtipos, elevam bastante a probabilidade. Em jovens, quando há câncer de tireoide, essa parte genética merece atenção”, salienta Érika de Faria.
O excesso de peso e a obesidade também aparecem como fatores de risco. “Essas condições surgem repetidamente associadas ao câncer de tireoide em estudos populacionais. Não é o fator mais forte, como a radiação, mas é relevante por ser frequente na população”, aponta.
Como evitar?
Quando questionada sobre medidas para evitar o diagnóstico da doença, Érika foi direta ao afirmar que não existe uma prevenção completamente eficaz. “Parte do risco é genética ou biológica. Mas dá para reduzir o risco e, principalmente, evitar sobrediagnóstico e procedimentos desnecessários”, explica.
Segundo ela, a recomendação com melhor evidência científica é evitar exposição desnecessária à radiação ionizante, sobretudo em crianças e jovens. “Exames como tomografia devem ser solicitados quando realmente mudam a conduta clínica, e com protocolos de menor dose quando possível”, alerta a médica.

Outra frente importante envolve hábitos de vida. Segundo ela, manter um peso saudável, investir em uma alimentação equilibrada e praticar atividades físicas regularmente ajudam a reduzir fatores de risco associados à doença.
“Um destaque muito atual é não rastrear tireoide indiscriminadamente em pessoas sem sintomas e sem alto risco. Em muitos cenários, encontrar nódulos pequenos leva a cascatas de exames e cirurgias sem benefício proporcional. A tendência moderna em endocrinologia é ser mais criterioso com ultrassom e biópsias, e em alguns casos até acompanhar ativamente microcarcinomas selecionados. Isso reduz danos do sobrediagnóstico”, acrescenta.
Bom prognóstico
Quando se trata das chances de cura, Érika explica que, na grande maioria dos casos — especialmente no tipo mais comum, o carcinoma papilífero — o prognóstico costuma ser bastante favorável.
“Vemos altíssimas taxas de controle e sobrevida, principalmente quando o tumor está localizado”, afirma a endocrinologista.
A médica destaca que esse cenário positivo dialoga com os dados populacionais. “Apesar do aumento grande de casos, a mortalidade permanece muito baixa e estável em muitos países, o que sugere que muitos tumores detectados são de baixo risco”, comenta.
Ainda assim, ela ressalta que cada caso deve ser analisado individualmente. “O prognóstico depende do tipo histológico, estágio da doença, presença de metástases, idade do paciente e resposta ao tratamento. Ou seja: a cura é muito provável na maioria dos casos, mas não dá para prometer sem avaliar o quadro completo”, conclui.

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