
Claudia MeirelesColunas

Desânimo pós-Carnaval: o que acontece com o cérebro na volta à rotina
Especialista explica como excesso de estímulos, álcool e privação de sono alteram neurotransmissores e dificultam foco e produtividade
atualizado
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Irritação, cansaço extremo, desânimo e dificuldade de concentração após dias de festa, como o Carnaval, não são preguiça. Segundo a psicóloga Candice Galvão, o excesso de estímulos altera a química cerebral e dificulta a retomada do ritmo normal.
Depois de dias intensos de festa, pouco sono, consumo de álcool, excesso de estímulos e quebra total da rotina, muita gente volta ao trabalho com a sensação de mente lenta, corpo pesado e irritação constante. O que costuma ser chamado de moleza pode, na verdade, ser um quadro de esgotamento emocional pós-festa do Rei Momo.

Ressaca emocional e queda neuroquímica
Do ponto de vista psicológico e neurobiológico, o cérebro passa por uma espécie de “ressaca” após períodos de alta excitação. Durante a folia, há aumento de dopamina e adrenalina, os neurotransmissores ligados ao prazer, energia e euforia. Ao mesmo tempo, o descanso diminui, os horários se desregulam e a previsibilidade desaparece.
Quando esse ritmo termina de forma abrupta, ocorre uma queda desses neurotransmissores, o que pode gerar desânimo, dificuldade de concentração, oscilação de humor e até sensação de vazio.
Estudos sobre privação de sono indicam que poucas noites mal dormidas já são suficientes para reduzir significativamente atenção, memória e desempenho cognitivo. A soma entre cansaço físico, sobrecarga social e alterações no padrão alimentar ajuda a explicar a dificuldade de retomar a produtividade na semana seguinte.
Não é preguiça, é resposta do sistema nervoso
Para a psicóloga Candice Galvão, especialista em saúde mental, neuropsicologia e regulação emocional, essa resposta é esperada e não deve ser interpretada como falha de caráter.
“O sistema nervoso entra em modo de excitação constante durante a folia. São muitos estímulos ao mesmo tempo: música, interação social intensa, menos horas de sono e, muitas vezes, maior consumo de álcool. Quando a rotina volta de repente, o cérebro sente essa queda de estímulo. Essa transição pode provocar irritabilidade, cansaço extremo e falta de foco. Não é preguiça, é uma resposta emocional do organismo”, explica a psicóloga.
Segundo Candice, o corpo e a mente precisam de tempo para reorganizar seus ritmos internos.
“O cérebro gosta de previsibilidade. Quando passamos vários dias fora do nosso padrão habitual, ele precisa de um período de readaptação. Forçar produtividade máxima imediatamente após o feriado pode aumentar ainda mais a sensação de frustração e esgotamento”, afirma.

A culpa pode agravar o quadro
Além da exaustão física e mental, a autocrítica intensa costuma piorar o cenário.
“Muitas pessoas voltam se cobrando desempenho alto já na primeira manhã. Quando percebem que estão mais lentas ou dispersas, interpretam isso como incompetência. Essa autocrítica excessiva aumenta a ansiedade e piora a dificuldade de concentração”, pontua a especialista.
Ela ressalta que acolher o próprio ritmo é parte do processo de regulação emocional: “Quando entendemos que essa lentidão é temporária e faz parte de uma reorganização do sistema nervoso, conseguimos atravessar esse período com menos culpa e mais autocuidado.”
Psicoterapia como cuidado preventivo
Candice destaca que a psicoterapia não deve ser buscada apenas em momentos de crise.
“A psicoterapia ajuda antes, durante e depois. Antes, fortalecendo autoconhecimento e limites. Durante, promovendo consciência das escolhas e do próprio ritmo. E depois, auxiliando o cérebro a reorganizar emoções e rotina sem sobrecarga. Saúde mental não é algo emergencial, é construção contínua”, afirma.
Ela reforça que o acompanhamento psicológico funciona como ferramenta de sustentação ao longo do ano.
“Psicoterapia é cuidado preventivo. É o que sustenta o equilíbrio ao longo do ano. Quando a pessoa aprende a reconhecer seus limites e sinais de esgotamento, ela consegue atravessar períodos intensos com mais consciência e menos culpa.”
A profissional afirma que observa aumento na procura por apoio psicológico após feriados prolongados e datas de grande intensidade social, como o Carnaval, festas de fim de ano e grandes eventos.
“Não é preguiça. É um sistema emocional pedindo regulação. Quando entendemos isso, paramos de nos culpar e começamos a nos cuidar”, conclui.

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