
Andreza MataisColunas

Não é prudente minimizar carta em que Alcolumbre diz não estar à venda
Aliado de primeira hora do presidente Lula, Alcolumbre entendeu o jogo para reduzir seu poder e reagiu com carta cheia de recados; entenda
atualizado
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É duríssima a carta aberta do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), em resposta às insinuações de auxiliares direitos de Lula de que ele teria um preço para aprovar Jorge Messias no Senado.
Num texto divulgado em suas redes sociais, para bom entendedor, Alcolumbre deixou claro que não está à venda.
“É nítida a tentativa de setores do Executivo de criar a falsa impressão, perante a sociedade, de que divergências entre os Poderes são resolvidas por ajuste de interesse fisiológico, com cargos e emendas. Isso é ofensivo não apenas ao presidente do Congresso, mas a todo o Poder Legislativo”, escreveu.
“Trata-se de um método antigo de desqualificar quem diverge de uma ideia ou de um interesse de ocasião”, continuou — um ataque direto a Lula pela escolha de seu faz-tudo para o Supremo.
Se havia uma mínima chance de Messias ser aprovado, agora elas estão abaixo de zero.
A desconfiança de Alcolumbre é que o governo age milimetricamente para reduzir seu poder. E vai esperar ele esvaziar para enviar a indicação de Messias.
Do inexpressivo estado do Amapá, Alcolumbre tornou-se rara unanimidade no Senado.
Em 2023, foi eleito com impressionantes 73 votos (de 81) para voltar ao comando da Casa por mais dois anos. “Foi a terceira maior votação para uma eleição para presidente do Senado, atrás apenas de Mauro Benevides, em 1991, e José Sarney, em 2003, ambos com 76 votos”, registrou o Congresso em Foco na ocasião.
O poder de Alcolumbre foi construído na base do “se eu ganho, todo mundo ganha”. Aprendeu que presidente de Casa Legislativa que não cumpre acordos com seus pares está fadado ao fracasso.
Cresceu atendendo todos os senadores com cargos, emendas, diretorias de agências reguladoras e verbas próprias de ministérios. O governo não pode agora posar de santo, uma vez que foi Lula quem entregou ao senador a chave do cofre.
A ministra militante Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) costuma telefonar para pedir o consentimento de Alcolumbre em nomeações. Num governo de coalizão, está no contrato dividir com a base aliada os cargos públicos, o problema é o que os políticos fazem com eles.
O que , contudo, mudou no governo?
O partido de Alcolumbre, o União Brasil, rompeu com o governo;
Lula colocou no Supremo um ministro que persegue as emendas parlamentares;
A Polícia Federal mirou o entorno do Centrão;
A militância seguiu o “apito de cachorro” para destruir a reputação da Alcolumbre — e também a do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) – os associando a chantagens;
O jogo é arriscado. Nessa queda de braço entre Executivo e Legislativo, dois presidentes já perderam seus mandatos. E ainda resta um ano inteiro de governo para Lula escapar de ser mais um.
Bom lembrar que a indicação de Messias também desagradou parte do Supremo. Poderosos ministros fecharam com Alcolumbre contra o nome por entenderem que Lula também tenta minar o poder do grupo majoritário na Corte.








