Andreza Matais

Monark diz que acordo sobre sua saída do Flow virou “bagunça”. Vídeo

Em entrevista ao Metrópoles, podcaster Bruno Ayub, o Monark, falou sobre censura, economia da Internet, vida nos EUA e relação com o Flow

atualizado

metropoles.com

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Em entrevista ao Metrópoles nesta segunda-feira (18), o podcaster Bruno Ayub, de 35 anos, mais conhecido como Monark, disse que a relação com os antigos sócios do Flow Podcast está “bem esquisita”.

Em 2022, o comunicador foi duramente criticado nas redes sociais após defender que a lei brasileira deveria permitir a organização de um partido nazista no país. Desde então, ele reiterou diversas vezes que não é apoiador nem simpatizante do nazismo, mas que defende a liberdade de expressão irrestrita.

A crise levou à saída de patrocinadores do Flow Podcast, um dos maiores programas do gênero no país, do qual Ayub foi criador e apresentador ao lado do ex-sócio Igor Coelho, o Igor 3K.

Ayub afirma que decidiu deixar o programa para permitir que a empresa seguisse em frente, mas diz que, até hoje, não recebeu integralmente o valor devido pela venda de sua participação na empresa — e afirma que os pagamentos estão “uma bagunça”.

“Eles não estão cumprindo o contrato direito, mas estão me pagando uma grana todo mês… está bem esquisita a relação, para ser bem sincero”, afirmou.

“(O podcast) era 50% meu e 50% do Igor (3K, que segue apresentando o podcast). Eu vendi, em teoria, a minha parte para o Igor, só que eles tinham que me pagar a parte. Não pagaram; agora estão pagando em pequenas parcelas. Estão pagando, mas fora do contrato. Está uma bagunça”, disse.

Na conversa com o Metrópoles, Ayub falou sobre seu novo projeto, o Bruno Ayub Show; sobre a derrubada de seu novo canal do YouTube; e sobre o que chama de perseguição judicial — referência ao processo movido pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), no qual o órgão pede multa de R$ 4 milhões.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Metrópoles — Bruno, você está sendo processado pelo Ministério Público de São Paulo por conta daquela sua fala polêmica sobre o partido nazista no Brasil. Houve uma série de reviravoltas nesse caso: saiu promotor, entrou promotor. Queria saber como está esse processo no momento, se você tem acompanhado.

Bruno Ayub — Tenho acompanhado. Como você mesmo disse, houve um promotor que primeiramente reconheceu que eu não cometi nenhum crime, porque eu não defendi o partido nazista em si, mas a liberdade de expressão no país, ao ponto de até mesmo os nazistas poderem expressar suas opiniões — por mais que eu não concorde com elas. Isso não é apologia; é uma defesa da liberdade de expressão, numa visão parecida com a que acontece nos Estados Unidos, na Primeira Emenda americana, algo com que eu concordo. Esse promotor reconheceu essa obviedade e sugeriu ao juiz que me inocentasse, porque não viu crime algum.

Só que, aí, houve uma manobra política para retirar esse promotor e colocar outro, que voltou atrás no recurso e disse ao juiz que eu era culpado e deveria ser condenado. Então há uma perseguição política contra mim e um desejo muito grande de manter meu nome difamado.

Agora parece que estão processando o promotor. Não sei por que tiraram ele do caso, o que considero absurdo, como se ele não tivesse direito à opinião dele enquanto promotor — uma opinião que, na minha visão, está correta, porque eu realmente não fiz apologia ao nazismo de nenhuma forma. Então é nisso que estamos.


Metrópoles — De 2022 para cá, desde aquele episódio, como você avalia a situação da liberdade de expressão no Brasil? Piorou? A gente regrediu?

Bruno Ayub — Regrediu cada vez mais. Acho que a maioria das pessoas hoje sente medo de falar certas coisas em todas as esferas públicas, não só na internet, mas também nas instituições. Tem comediante sendo ameaçado de prisão por piada. Graças a Deus, o Lins não foi preso, mas teve de lutar na Justiça por causa de piadas que fez.

Infelizmente, sinto que há um desejo de criar, por meio do Estado, um mecanismo de controle da narrativa pública e do discurso público, ao ponto de a população só poder falar o que eles querem, para que seja mais fácil manter o poder e nos controlar.

Metrópoles — Você sente que isso é uma coisa da internet? Toda vez que surge um meio novo de comunicação há também uma mudança de poder. Será que essa investida contra a liberdade não decorre da gestão desse novo meio de expressão?

Bruno Ayub — Pode ser. A internet mudou a dinâmica da comunicação pública e pode ter assustado bastante os agentes políticos, ao ponto de eles quererem retomar um controle que perderam. Só que querem retomar esse controle garantindo que a gente só fale o que eles quiserem; senão, seremos punidos.

É um movimento que está acontecendo no mundo inteiro. Até na Inglaterra isso acontece. Tem gente presa por meme na internet, gente retirada de casa por policiais porque postou algo de que não gostaram. Então vejo uma tentativa das instituições políticas de coordenar a sociedade e controlar o discurso.

Metrópoles — Por que você decidiu largar o apelido Monark e sair com o Bruno agora?

Bruno Ayub — Porque Bruno é meu nome. Monark é um apelido que criei em jogo. Acho que criou uma conotação de personagem; as pessoas meio que desumanizaram esse nome. Acho que “Bruno Ayub” é um pouco mais humano e talvez ajude as pessoas a não me perseguirem tanto. Não sei.

Metrópoles — Houve todo o episódio com seu canal no YouTube. Esse fundo é seu estúdio novo? Como está esse podcast?

Bruno Ayub — Isso. Vou lançar novamente. O podcast é esse. Criei o canal no YouTube, mas, em algumas semanas, eles derrubaram o canal sem motivo. Sou perseguido em várias frentes: na política, estão me processando; fui condenado em primeira instância a um ano e dois meses de prisão porque chamei o Flávio Dino de gordo. Na internet, derrubam meus canais. É uma ação coordenada entre o público e o privado.

Essa agenda de censura, para mim, é uma agenda público-privada, global. Todo lugar aonde vou estou sendo perseguido. O Instagram e o X consegui recuperar, mas o YouTube derrubou.

Metrópoles — O YouTube deu alguma explicação para derrubar o canal?

Bruno Ayub — Disseram que eu desrespeitei as diretrizes da comunidade, mas, sinceramente, fiz um vídeo mostrando o estúdio. Não houve nenhuma regra que eu tenha desrespeitado. Vejo isso como perseguição política, porque não gostam de mim nem do que eu falo. Passei a ser alguém a ser eliminado da internet.

Metrópoles — E o que você pretende fazer? Tem algum plano em relação a isso?

Bruno Ayub — Criei meu site, o Bruno Ayub Show, onde as pessoas podem assinar, me apoiar financeiramente e assistir ao podcast ao vivo. Vou divulgar os cortes no X e no Instagram, que ainda tenho.

Metrópoles — É curioso porque, no começo da internet, você não dependia necessariamente de uma rede social. Dava para montar um blog próprio, hospedar conteúdo. Hoje parece que estamos na mão de três ou quatro grandes plataformas, e o hábito do consumidor está focado nelas: YouTube, Instagram, X e outras.

Bruno Ayub — Ainda é possível criar um site próprio, mas as pessoas não têm esse costume. Espero que dê certo e que acompanhem meu trabalho por lá. Já houve algumas assinaturas, então acredito que possa ser uma solução.

Metrópoles — E quanto ao YouTube? Há alguma tentativa jurídica?

Bruno Ayub — Sim. Estou com advogados, com o pessoal da FSU (Freedom of Speech Union Brasil) me ajudando. Temos uma estratégia jurídica para tentar reaver o canal, mas não dá para depender do YouTube. O negócio é construir algo na própria plataforma. Se eventualmente o YouTube voltar, ótimo, porque existe audiência lá; se não voltar, faz parte.

Metrópoles — Desde que você foi cancelado — ou, como você prefere, desde aquele período — você passou um tempo fora da internet e morou nos Estados Unidos. Conta para a gente como foi esse momento, se você quiser.

Bruno Ayub — Fiquei dois anos nos Estados Unidos. Saí daqui porque bloquearam R$ 300 mil da minha conta. O Alexandre de Moraes me colocou no inquérito das fake news e no inquérito do 8 de janeiro, como se eu tivesse tentado dar um golpe de Estado por causa do meu podcast, conversando com pessoas. Bloquearam meu dinheiro, disseram que eu não podia falar na internet e tudo mais.

Com esse cerco se fechando, resolvi ir para os Estados Unidos, porque lá eu poderia criar uma conta bancária e ficaria mais difícil retirarem meu dinheiro. Também poderia usar as redes sociais de lá. Mas, sinceramente, não gostei muito. Prefiro o Brasil.

Passei um tempo na Flórida e também no Texas. Morei em Austin, no Texas, e em Palm Bay, na Flórida, perto de Orlando. Até criei um podcast lá, montei um estúdio, mas ficava difícil gravar com pessoas. O Alexandre de Moraes acabou derrubando meu canal e, dos Estados Unidos, eu não conseguia me comunicar tão bem com o público brasileiro. Acabei ficando um tempo parado.

Voltei ao Brasil também por isso: aqui consigo chamar pessoas para conversar presencialmente. Facilita minha vida. Lá foi um período meio solitário.

Também aconteceram coisas estranhas. Não sei se você acredita em espiritualidade, mas parecia que havia algo tornando minha vida mais difícil.

Metrópoles — Como assim? Tem alguma situação que você pode contar?

Bruno Ayub — Aconteciam coisas estranhas. Vizinho começando a me xingar do nada, cenas bizarras, gente se comportando de maneira muito esquisita. Foi uma experiência estranha para mim.

Metrópoles — Qual foi a justificativa dada na época para as medidas contra você? Porque, a princípio, você não tinha condenação, só estava no centro de uma controvérsia. Houve alguma explicação formal?

Bruno Ayub — A justificativa era que, por eu dizer que não confiava necessariamente nas urnas eletrônicas, eu estaria espalhando fake news, tentando influenciar eleições ou algo parecido. Acho que essa foi a justificativa.

Metrópoles — Você acha que virou meio que um bode expiatório nessa época? Porque muita gente falou sobre urna, gostando ou não do tema.

Bruno Ayub — Acho que me pegaram como exemplo para mostrar que certas coisas seriam proibidas. Uma mensagem de: “fiquem dentro da narrativa permitida; se saírem dela, serão perseguidos”. Tirar dinheiro, impedir que a pessoa trabalhe, dificultar a vida dela. Vejo isso como uma ameaça para comunicadores em geral. Nesse sentido, sim, acho que fui usado como bode expiatório.

Metrópoles — E como tem sido essa retomada do podcast?

Bruno Ayub — Por enquanto, está tranquilo, tirando os bloqueios nas redes sociais e os processos. Também há ações pedindo indenizações milionárias relacionadas ao episódio do nazismo, o que, para mim, não faz sentido.

Sinto que continuam tentando destruir minha imagem e me silenciar de todos os lados possíveis. Mas agora parece estar diminuindo. Tenho recebido ajuda, sido convidado para entrevistas e participado de podcasts, então sinto que as coisas estão voltando a andar.

Metrópoles — Você sente que esse bloqueio diminuiu? O cerco está menor do que há três anos?

Bruno Ayub — Sim. Ainda existe, mas está menor. A censura e o cerco continuam, só não na intensidade de antes.

Metrópoles — Queria te perguntar também sobre o Flow. Naquela época você acabou saindo, houve toda uma repercussão. Como foi esse processo e como está sua relação com eles hoje?

Bruno Ayub — Foi muito traumático. Basicamente, patrocinadores e veículos de mídia começaram a pressionar a empresa para que eu fosse retirado. O pessoal de lá não comprou muito minha briga e acabou pedindo para eu sair. Também senti que não havia muito como ficar e manter a empresa funcionando.

Até para proteger a continuidade do projeto e dar uma chance de eles continuarem existindo, resolvi sair.

Hoje não temos muito contato. Faz anos que não falo com o Igor nem com o pessoal de lá. A relação ficou estranha.

Metrópoles — E como ficou a questão societária? Você era um dos donos.

Bruno Ayub — Era 50% meu e 50% do Igor. Em teoria, vendi minha parte para ele, mas eles tinham que me pagar, e isso acabou acontecendo de maneira muito irregular. Estão pagando parcelado, fora do contrato original. Está uma bagunça, para ser sincero.

Metrópoles — Queria saber se você tem alguma reflexão final sobre liberdade de expressão no Brasil.

Bruno Ayub — Acho que é um fenômeno mundial, não apenas do Brasil. Vejo uma tentativa crescente de limitar a liberdade de expressão, de criar mecanismos institucionais para coordenar o que pode ou não ser dito.

É uma preocupação que me lembra discussões como as de “1984”, de George Orwell. Acho que cabe às pessoas resistirem a isso e tentarem garantir o direito de se expressar. E a única forma de fazer isso é justamente se expressando.

É por isso que venho insistindo em continuar falando, mesmo enfrentando processos e dificuldades. Quanto mais difícil for calar alguém, mais difícil será restringir completamente esse espaço de fala. Espero que exista um ambiente em que as pessoas possam expressar opiniões sem medo.

Metrópoles — Nessa discussão sobre liberdade de expressão, muita gente admite que ela tem limites — por exemplo, você não pode entrar num cinema lotado e gritar “fogo”. Sua visão sobre isso mudou ao longo do tempo?

Bruno Ayub — Acredito que existe um grupo político muito forte querendo limitar a liberdade de expressão, e estou do lado oposto dessa disputa. Quero ampliar os limites ou até eliminá-los.

Numa disputa ideológica, você pede o máximo. E o máximo, para mim, é liberdade irrestrita de expressão. Isso não significa que a sociedade necessariamente chegará a esse ponto, mas é o ideal que defendo: que as pessoas possam expressar opiniões sem serem presas pelo que acreditam.

Metrópoles — Mas você reconhece que estamos longe desse cenário, inclusive porque opiniões antes consideradas aceitáveis passaram a ser puníveis em alguns contextos?

Bruno Ayub — Sim. Na minha visão, existe um processo gradual de limitação da liberdade de expressão conduzido por instituições públicas, Judiciário, Justiça Eleitoral, grandes empresas e atores políticos que buscam mais poder e mecanismos de controle.

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