
Lobista Roberta Luchsinger criticou lobby de filho de Lira em 2023
Amiga de filho de Lula disse que lobby seria “proibido” e reprovou ação de filhos de ex-presidente da Câmara

SÃO PAULO e BRASÍLIA – A empresária e lobista que atuou para o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Ministério da Saúde já criticou a atuação de filho do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) como lobista. Os comentários foram feitos por ela em entrevista ao canal de youtube “Diário do Centro do Mundo” (DCM TV) em 17 de junho de 2023. Naquele dia, o Metrópoles publicou reportagem mostrando que empresas representadas por um filho do deputado tinham recebido R$ 34 milhões do governo em dois anos.
“E a olho nu isso mais parece até lobby, né – que é proibido no Brasil”, afirmou Roberta, em entrevista ao historiador Adriano Viaro e ao jornalista Pedro Zambarda. Eles a apresentaram como ex-candidata nas últimas eleições.
“A polícia vai investigar a fundo como eram feitos esses contratos, as legalidades, pra saber se não houve aí, né, toda… esse tráfico de influência. E a olho nu isso mais parece até lobby, né, que é proibido no Brasil” – Roberta Luchsinger, em 2023
Adriano Viaro disse que a atuação do filho de Lira estaria relacionada ao “mercado da saúde”. Segundo a Polícia Federal, Roberta Luchsinger atuaria como lobista no Ministério da Saúde em favor do filho mais velho de Lula, Fábio Lula da Silva, o “Lulinha”. Os projetos estariam relacionados a medicamentos à base de canabidiol.
Dois meses antes da entrevista, Roberta Luchsinger esteve no Ministério da Saúde. Registros de portaria da pasta obtidos pelo Metrópoles mostram que, em 5 de abril de 2023, às 11h43, ela entrou em um dos prédios do órgão. O destino não foi informado na planilha obtida por meio da Lei de Acesso à Informação.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO advogado de Roberta Luchsinger, Roberto Podval, disse ao Metrópoles na quinta-feira (20/8) que, por orientação dele, a empresária não comentará as declarações feitas há três anos.
“Onde tem Lira tem criatividade”, disse Roberta
Na entrevista de 2023, Roberta Luchsinger avaliou que havia “alta penetração no governo” de uma corretora de publicidade que pertencia a Arthur Lira Filho. O filho do então presidente da Câmara tinha 23 anos à época. “Ou seja, você abre uma corretora de publicidade, e aí você tem alta penetração dentro de um governo e aí faz o ‘bem bolado’ ali e ganha com isso”, comentou Roberta.
“É muito estranho, onde tem Lira, onde tem bolsonarismo, onde tem toda essa gente, a gente sempre fica assustado com a criatividade, né, que eles têm em gerar negócios bilionários e milionários a curto prazo. Então é espantoso ver” – Roberta Luchsinger, em 2023
Roberta fazia consultoria naquele ano
Em 2023, quando concedeu a entrevista, Roberta já era diretora da RL Consultoria, empresa que atendia clientes com contratos com o governo Lula. A PF identificou que ela chegou a receber R$ 150 mil de uma empresa de Cléber Ribas, a 3 Structure IT Ltda. A 3 Structure tinha contratos com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).
Apesar de Roberta ter afirmado que o lobby seria “proibido” no Brasil, a atividade é considerada legítima por instituições do setor, como a Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig).
Segundo o curso de MBA em “Relações Institucionais e Governamentais” do Instituto Brasileiro de Direito Público (IDP), o lobby é o “exercício organizado da representação de interesses legítimos perante tomadores de decisão”, atividade permitida a empresas, consultorias, associações de classe, movimentos sociais, ONGs ou sindicatos.
Um advogado que atua no setor disse à reportagem que a atividade de lobby é “licita” pelo menos desde 1988. A legalidade estaria no direito constitucional segundo o qual todos podem fazer pedidos às autoridades. Regras como os credenciamentos no Congresso e a Lei de Acesso à Informação são exemplos de como a atividade deve ser exercida sem prática de crimes como tráfico de influência ou corrupção.
No Congresso, um projeto do deputado Carlos Zarattini (PT-SP) quer criar uma lei geral, com direitos e deveres dos lobistas. A proposta está em debate desde 2007. Em 2021, o governo de Jair Bolsonaro (PL) enviou um nov projeto, apensado à proposição original.



