
Andreza MataisColunas

“Crachá de corrupto”: a fala do chefe do Sindilegis que revoltou o TCU
Para o presidente do Sindilegis, a remuneração de auditores do TCU tem de ser alta para evitar corrupção. Entidade publicou nota de repúdio
atualizado
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Uma declaração do presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo (Sindilegis), Alison Souza, causou mal-estar e perplexidade entre os auditores do Tribunal de Contas da União (TCU). Em entrevista à coluna na última sexta-feira (27/3), Alison Souza disse que auditores do TCU precisavam ganhar bem, caso contrário fariam “acordos por fora para poder ganhar dinheiro”.
“Eu desejo que um auditor (do TCU) que vai fazer uma auditoria na Petrobras seja um profissional com um salário que o torne independente, menos corruptível, menos capturado. Porque, senão, isso é o quê para o país? Um atraso de vida. Esse cara vai, na verdade, começar a fazer o quê? Acordos por fora para poder ganhar dinheiro”, disse o presidente do Sindilegis na ocasião.
A fala repercutiu em grupos de auditores do TCU no WhatsApp. “Já pegou seu crachá de corrupto?”, pergunta uma servidora, acompanhando o link da reportagem e um print do trecho.
“Nada do que ele falou ajuda. Ao contrário, só ofende o cidadão comum, os demais servidores públicos e nós do Tribunal”, diz um interlocutor.
Na ocasião, a coluna procurou o presidente do Sindilegis — que é servidor concursado do TCU — para perguntar sobre uma fala dele em uma assembleia de servidores. Aos colegas, Alison Souza disse que o teto constitucional, hoje de R$ 46,3 mil, “não pode mais ser suportado pelas carreiras” e precisa ser reajustado.
“Eu disse que a complexidade do trabalho realizado por essas pessoas exige remuneração adequada. Entendeu? Exige remuneração adequada. Um advogado na iniciativa privada, por exemplo, se for mediano, ganha muito mais de R$ 40 mil por mês. Mediano. Se ele pegar uma causa complexa, ganha milhões”, disse ele, em entrevista à coluna.
Segundo Alison, é natural que os servidores do Legislativo federal ganhem mais do que os servidores que atendem ao público.
“Nós estamos falando de servidores que trabalham com leis complexas para o nosso país, para o setor produtivo, para a indústria, para a área de serviços, para o agro. Estamos falando de servidores desse nível, meu caro. Você não está falando de um servidor que está sentado atrás de um balcão fazendo atendimento”, disse ele.
“De 2016 a 2025, a inflação foi de cerca de 64% no acumulado (IPCA). O aumento dos servidores do Legislativo federal foi de 44%. Ou seja, em 10 anos, tivemos reajuste salarial 20% abaixo da inflação. Nós não estamos tendo, portanto, nenhum aumento extraordinário”, justificou Alison Souza ao defender o reajuste do teto constitucional.
Entidade repudia “declarações ofensivas” a auditores do TCU
O incômodo com as declarações de Alison Souza levou a Confederação Nacional dos Servidores Públicos (CNSP) a publicar uma nota de desagravo, repudiando as “declarações ofensivas e profundamente equivocadas” do presidente do Sindilegis.
“Na referida entrevista (…) o dirigente sindical extrapolou completamente os limites do debate institucional e da crítica legítima, ao sugerir que a integridade dos auditores de controle externo dependeria do patamar de sua remuneração, associando, de modo generalizante e desrespeitoso, eventuais reduções salariais a maior risco de corrupção”, diz a nota.
“Tal declaração não é apenas infeliz; ela é profundamente injusta, corrosiva para a imagem da classe mencionada (…). Ao insinuar que auditores de controle externo do TCU poderiam ser levados a ‘acordos por fora’ se não recebessem determinado nível remuneratório, o entrevistado atinge, sem qualquer lastro fático, a honra funcional de servidores”, diz o texto.
“Cumpre ainda registrar que a própria tentativa de hierarquizar servidores pela ‘dignidade’ de suas atribuições, como se atividades administrativas fossem de menor relevância, também merece repúdio. Há, em todas as carreiras do serviço público, inúmeros exemplos de compromisso ético, coragem cívica e defesa intransigente do interesse público”, diz outro trecho.
