Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

Você tem a impressão que viu o Brasil americanizar?

Essa semana a gente até esqueceu que tem Covid-19, e ficou entre Biden e Trump

atualizado 07/11/2020 17:04

Protesto nos EUA durante eleicoes 2020Yegor AleyevTASS via Getty Images

Sempre que eu ia pra Campo Grande, pegava o trem em Bangu, e ia olhando pela janela do trem, os muros, os trilhos, as casas da Zona Oeste Pobre.

De primeiro, a Zona Oeste toda era meio caída, aí inventaram a Barra. A Barra foi criada na década de 1970. Oscar Niemeyer passou de carro uma vez em frente ao New York City Center, recém-inaugurado, na década de 1990, e disse, triste:

“O imperialismo venceu.
Isso aqui é uma coisa horrorosa.”

Ao ver uma réplica desproporcional e mal ajambrada da Estátua da Liberdade em frente ao NYC Center, o homem que idealizou Brasília e foi colega de Le Corbusier e Lúcio Costa, um brasileiro que impressionou o mundo numa área técnica, dificílima, dominada pelos coloniais alemães e franceses, esse homem, inclusive comunista, disse que o imperialismo venceu.

A Barra nasceu querendo ser Miami. E com sua existência, passamos a ter duas Zonas Oeste. Uma rica, horrorosa, outra pobre. Onde se situa a favela de Vila Aliança, onde morei.

Essa semana a gente até esqueceu que tem Covid, e ficou entre Biden e Trump. Eu, se me candidatasse a vereador, ia pegar a onda e me denominar Joe Biden de Magé do Gás, pra vocês saberem que eu não estou pra brincadeira. Aqui é pesquisa de tendências.

Você tem a impressão que viu o Brasil americanizar? Pela janela do teu trem, do teu tempo, da tua vida? Tua TV, teu celular, teu carro, ônibus, Uber?

Raul Seixas disse: “Quando eu cheguei por aqui, a minha luta era exibir uma vontade féla da puta de ser americano, e hoje olha os mano.”

As eleições americanas são sim pauta no mundo inteiro.
Mas eu estou em outro país, e aqui as pautas locais continuam em primeiro lugar. Os portugueses não tem esse interesse subserviente nos americanos. Respeitam, claro, há o glamour, um país continental, rico. Mas depois do fim da ditadura aqui, em 1974, a sociedade portuguesa é politicamente crítica, com exceção dos habituais bolsominions, que sim, já os temos em versão lusa.

Mas o Amapá está sem luz. A Covid continua matando centenas de vidas por dia, um avião por dia; a governadora em exercício em Santa Catarina decretou a volta das aulas presenciais; Flávio Bolsonaro está por fim mais próximo da cadeia; uma mulher foi estuprada e humilhada num tribunal de justiça por homens sádicos, sexistas, sujos e misóginos, um espetáculo demoníaco de violência; um jornalista reforçou as violências e chora nas redes sociais se dizendo vítima de linchamento; uma jornalista branca tem zero empatia com a mulher e perde tempo debatendo tecnicidade ao invés de estender sua mão e oferecer sua voz para que a justiça seja feita. Tudo isso acontece, enquanto estamos dentro do trem, olhando pela janela.

E o que vemos lá fora?
Pessoas que se recusam a usar máscaras. Pessoas que desafiam os Direitos Humanos. Pessoas segurando uma bandeira, mas não é vermelha, tampouco verde-amarela. É azul, branca e vermelha.

O Brasil, tanto fez, tanto fez, que vai ser tornar o 51º estado americano. Nossas dores e nossas reações estão cada vez mais idênticas. Imagina agora, arma na mão desse povo.

Em breve, seremos isolados por Washignton. Uma Cuba às avessas. Órfãos de Trump, o neo-Stalin.

Niemeyer, se visse hoje que há estátuas por centenas de lojas da Havan, e um país mergulhado na loucura bolsonarista-religiosa, acharia horrível, e talvez mesmo se arrependesse de ter criado Brasília.

O horror.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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