Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

Paciente Brasil e a vergonha de se olhar no espelho

Acabaram-se as eleições e esse será todo carnaval possível. O de fevereiro tá cancelado

atualizado 01/12/2020 8:37

Ilustração para coluna Anderson FrançaMóises Amaral/Metrópoles

E quem diria que a gente viveria o suficiente para sentir vergonha de se olhar no espelho. Eu vivi pra achar o ex-ministro Mandetta um lúcido, depois de Teich e Pazuello. Mandetta foi o último técnico na pasta. Teich, nem conta. Não quis manchar o LinkedIn.

Lançado pela Objetiva, “Um paciente chamado Brasil” é o livro do ex-ministro que saiu escorraçado do governo. Nem sei se antes ou depois, mas sei que em 2020, Moro também saiu pra me deixar confuso. Embora concorde com ele que Bolsonaro seja maluco, eu não concordo é com ELE. Ele, com aquela cabeça quadrada, com aquele ÚNICO PALETÓ que tem.

Moro tinha que lançar um livro. “Como acabar com sua carreira de magistrado em um ano”. Capítulo 1, fazendo vestibular. Estuda, forma, faz concurso, passa, vira juiz, troca tudo por um pacote de mariola e vive todas essas aventuras como a cara de que está tudo bem.

Meu pai do céu amado, o Moro parece que não tem sistema nervoso central. Se o Moro parasse um dia e dissesse: a Pomba Gira me obrigou a ser ministro, ou, dei tudo que tinha e não me nomearam pastor, no melhor estilo Andressa Urach, eu pelo menos simpatizava. O cara teria caído em si.

Mas não.
Moro segue com a mesma cara de sopa de batata, agora trabalhando pra Alvarez & Marsal, que cuida dos pedaços que caíram da Odebrecht no processo em que foi condenada pelo

Moro.

Mas Eduardo Paes voltou.
Como se isso já não fosse desesperador, eu vivi pra ouvir o povo dizer que antes ele que o Crivella. E olha…errado não tá. Paes ficou até mais sexy na frente do pastor que tomou uma surra de Zé Pilantra.

Mas isso deixa a gente com vergonha de se olhar no espelho.

Dizer que Boulos e Manuela perderam, é dizer pela metade. Boulos e Manu se firmaram no cenário político nacional.
São a transição da esquerda para uma futura frente ampla contra Bolsonaro e Doria em 2022. Ocorre que Covas ganhou num reduto de direita em São Paulo, de gente de classe média e média alta, mas o Brasil não é retratado ali. Cumpre a esquerda reconquistar o povo. E sem ódio. Porque tem isso: o discurso de ódio da direita não vingou. Se vingasse, Joice tinha sido eleita.

Acabaram-se as eleições e esse será todo carnaval possível.
O de fevereiro tá cancelado.

A praia tá cheia, e vocês praianos estão brincando com fogo.
Um corpo de um homem morto ficou exposto numa padaria em Ipanema, esperando a defesa civil por horas, e os clientes seguiram, tomando café ao lado do cadáver. A Gama Filho, que foi a maior universidade privada do Rio, está em chamas, e como disse uma amiga, Piedade está toda enfumaçada. Voltamos pra rotina, um pouco aliviados em saber que Crivellas morrem. Tudo indica que Bolsonaros também.

Mas nesse hospital abandonado, seguimos, como disse Mandetta, o paciente Brasil.
Acredito que, pelo diagnóstico, já entubado na UTI.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

Últimas notícias