Ativista social, roteirista e escritor, indicado ao Jabuti pelo livro Rio em Shamas

Feliz 2000 e vish um

Juntar macarrão e maionese, mais o pack do cachorro quente, isso não acontece em Trancoso. Lá, rola outro tipo de pack: o Covid

atualizado 02/01/2021 11:54

2021Gui Prímola / Metrópoles

Sobrou macarronese.
Silvinha fez macarrão parafuso, maionese, cenoura em fios, milhervilha, que é a junção do milho e da ervilha, uma vez que são quase uma dupla sertaneja, onde um vai o outro também, procure saber dos cachorro quente do subúrbio do Rio.

É um pack: maionese, maionese de salsa, maionese de sheder (cheddar, relaxa, não corrige, deixa fluir que o carioca está passando a ficha técnica), molho bilijék (Billy & Jack, segue o baile), catchup, mostarda, queijo ralado, passas, salame, ovo de codorna, MILHERVILHA, batata palha, e mais maionese. E azeitona. E esqueci o molho. Tira tudo, volta.

Se pedir só o milho, não a ervilha, o cara não vai botar. Ele vai olhar pra tua cara, capaz de ligar pro dono do morro e mandar te expulsar. Tem que ser milhervilha. É o blend.

Mas se parar pra pensar, a macarronese, prato que já traz um deboche de tia evangélica. A macarronese foi, com certeza, criada por uma suburbana. Juntar macarrão e maionese, mais o pack do cachorro quente, isso não acontece na Gávea. Não acontece em Trancoso. Em Trancoso rola outro tipo de pack. Pack Covid.

Por que, veja: é criatividade e inovação tecnológica e gastronômica. A pessoa olhou pro cachorro quente, tirou o pão e a salsicha, botou o macarrão. Macarronese é um hot dog versão Spoleto. É um hot dog de prato. Acho até que rola a salsicha também. Sei lá, vai. Depois de meia noite, rola até o pão. Pega o cachorro quente inteiro, cheião, joga no panelão, joga o macarrão parafuso escorrido, mistura, seja feliz.

A macarronese nasceu numa tarde de terça feira. TV ligada, rolando Um Príncipe em Nova York, que agora vai ter parte 2, com todos os atores IDÊNTICOS, Tony Tornado tem 870 anos, procure saber. Silvinha queria um snack pra ver o filme. Casa cheia de criança. Os filhos de Silvinha e os das vizinhas. Contexto subúrbio aqui, se esforce. Tinha tudo, menos pão e salsicha. Silvinha pensa no que servir pras crionça. As onça da rua. Daí pensou, sem pão e salsicha, não tem cachorro quente. Mas posso fazer um molhão sem reputação e passar no creme crack (você entendeu, vai. Você SABE de qual biscoito eu tô falando, não me gaste), mas ela abriu o armário e não tinha creme crack. Tinha só um sacão de macarrão parafuso.

O macarrão parafuso, no Reino Animal dos Macarrões, é considerado a base da cadeia. Ele não foi criado na Itália, você não vê ele em grandes restaurantes italianos, ele tem aquele formato debochoso, erótico e pouco consistente. Mas Silvinha estava prestes a dar ao macarrão parafuso sua parte na História. A criação da macarronese, para o macarrão parafuso, foi como a Semana de 1922 para a língua portuguesa. E Silvinha, o Mario de Andrade dos snack que engorda.

Juntou tudo. As criança tacando fogo na casa. Mandou Juliana fazer o suco. Ju pegou 4 pacote de pó de suco e jogou num BALDE de água, mal sabe ela que o refluxo gástrico que ela terá aos 45, começou nesse dia.

Cozinhou o macarrão, escorreu, misturou com milhervilha, batata palha, todas as maionese da casa, cenoura, maionese, passas, Salmo 66, e pronto: Soca no prato das crionça.

Precisava de um nome. Claro que as crianças viram aquilo que parecia mais uma reposta de redação do Enem com giz de cera colorido, feita por um CACHORRO, e perguntaram pra Silvinha o que era aquilo.

Silvinha olhou pra dentro de si. Quem olha pra dentro, acorda, já diz SenseMarcia. Macarrão, maionese. Maionese de Macarrão. Macarrão ao molho de maionese. Hotdog à moda italiana. Estrogonoff vegano.

Macarronese.

Saiu da boca de Silvinha. Assim, movida pelo Espírito. Uma luz iluminou a sala, era a Anja Cínica descendo dos céus com um recadinho no ouvido de Silvinha:

– Agora segura a marimba, Silvia. O mundo vai conhecer a macarronese.

E foi assim. Hoje, há quem se alimente só de macarronese no Rio. Virou uma cena gourmet e ao mesmo tempo, operária. Macarronese é vital. Macarronese é um projeto de Deus na tua vida.

Qualquer hora dessas o ALEX ATALA vai criar um PROJETO dentro de Madureira, ele vai alugar um apartamento em frente ao Tem Tudo, e vai morar lá um ano, pra RESGATAR A ESSÊNCIA E A ALMA DA MACARRONESE. Vai compor a Macarronese da Lua Sagrada, com maionese vegana de raspa de jequitibá e gotas de suco de babaquice.

Vai servir no programa da Bela Gil, que vai encontrar ainda outras versões da macarronese, mais raiz, mais CÚRCUMA.

Só que esse ano, Silvinha comeu sozinha.
As criança dormiram cedo. Os vizinho fizeram churrascada, mas ela é diabética, ficou em casa, trancada, vendo Anitta no Times Square. Acho até que Silvinha foi a única que viu. Triste. Comendo macarronese com colher.

E assim foi o fim de 2020 pra Silvinha.
Acho que foi meio assim pra todo mundo.
Tomara, em dezembro de 2021, falte macarronese pra Silvinha. A casa esteja cheia, acabe a macarronese, e eles peçam umas pizza na Solange, que trabalha inclusive no Natal e Thanksgiving.

Feliz 2000 e vish um.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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