Rota mata motorista em SP e vídeo contradiz relato de troca de tiros.
Testemunha registrou com celular momento em que PM atira contra homem; versão oficial relata suposto tiroteio entre vítima e policiais

Policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), da Tropa de Choque da Polícia Militar paulista, mataram Ewerton Mariano Vicente, de 41 anos, durante uma abordagem na Estrada de Itapecerica, na zona sul paulistana, por volta das 15h40 dessa terça-feira (23/9). A vítima estava em regime aberto desde julho de 2018.
A versão oficial dos militares — declarada à Polícia Civil — é a de que Ewerton teria atirado primeiro e, por isso, revidaram. O relato deles, porém, difere do registro feito por uma testemunha e obtido pela coluna (assista abaixo).
A pessoa que gravou os PMs fica atrás de um carro, para se proteger, enquanto militares da Rota, desembarcados, estão posicionados atrás da viatura, emparelhada com o carro da vítima.
Após meio minuto de silêncio, um tiro é dado. “Mataram o cara dentro do carro”, se espanta a testemunha que, após ser percebida, é interpelada verbalmente por um PM para que saia dali.
O registro obtido pela coluna não contempla toda a ocorrência e, de forma isolada, impede de se saber o que ocorreu antes dele.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesVersão diferente do vídeo
Em depoimento à Polícia Civil, o sargento Vitor Nigro afirmou que recebeu uma denúncia a qual indicava que um suposto traficante, armado e com drogas, estaria circulando com um Peugeot prata pela zona sul, na mesma região onde o PM da Rota realizava patrulhamento.
Na mesma denúncia, segue o relato do PM, uma casa, na Estrada de Itapecerica, foi indicada como provável deposito de drogas. A informação teria chegado a outras equipes da Rota, que circulavam pela região, mobilizando-as, acrescentou o sargento.
Como consta em relatório policial, decorrente do depoimento de Vitor Nigro, ele soube que Ewerton guiava um Peugeot na Estrada do Campo Limpo, mesmo local onde estava uma equipe liderada pelo sargento J. Silva.
“Na tentativa de abordagem foram [os PMs] recebidos a tiros e revidaram, sendo que o motorista do Peugeot veio a óbito”, diz trecho do registro.
Dentro do carro, os PMs afirmam terem encontrado drogas e uma pistola calibre 380.
Dinheiro e drogas em apartamento
No apartamento, indicado na mesma denúncia, os policiais também dizem terem encontrado drogas e um “bolo” de dinheiro, composto por R$ 2.097, dólares, euros e notas de Singapura e dos Emirados Árabes Unidos.
Um segundo suspeito, apontado como responsável pelos itens apresentados na delegacia, não foi localizado pelos militares.
O caso foi registrado, com base no relato do PMs, como morte decorrente de oposição à intervenção policial, tráfico de drogas e apreensão de veículo.
Passagem pela prisão
Ewerton Mariano Vicente tinha antecedentes por roubo e passou anos no sistema prisional antes de ser morto pela Rota.
Em um dos processos, referente a um crime de 2006, ele recebeu pena de 13 anos e quatro meses de prisão, inicialmente em regime fechado. Os registros judiciais indicam que o cumprimento dessa pena começou em julho daquele ano.
Anos depois, Ewerton voltou a ser condenado por roubo, desta vez por um caso ocorrido em janeiro de 2014. A pena dessa segunda condenação foi calculada em quatro anos, um mês e 16 dias.
Ele chegou a cumprir pena em regime aberto, mas voltou a ser preso em junho de 2014 após o novo episódio. A Justiça determinou posteriormente a regressão de regime. Em julho de 2017, passou ao semiaberto e, em 26 de julho de 2018, teve novamente concedido o regime aberto.
Já fora das grades, Ewerton continuou submetido às regras da execução penal e compareceu periodicamente à Justiça para fiscalização, com registros que se estendem até maio de 2023, segundo documentos judiciais obtidos pela coluna.




