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Antes de começar a escrever este texto, eu criei coragem e acessei uma fotografia vazada dos corpos chacinados na madrugada do dia 10/11, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Visualizei o que esperava: todas as vidas perdidas eram negras.

Victor Hugo Castro Carvalho, de 28 anos; Marcelo da Silva Vaz, 31; Márcio Melanes Sabino, 21; Lorran de Oliveira Gomes, 18; Luiz Américo da Silva, 46; e Bruno Coelho, 26. Há um corpo não identificado. Até o momento, a linha de investigação aponta os militares como prováveis autores dessa barbárie.

Esses jovens homens negros foram mortos quase que simultaneamente ao vazamento do vídeo que revelou comentários racistas de um dos mais importantes jornalistas da tevê brasileira: o homem branco William Waack, que qualificou o buzinaço de um motorista como “coisa de preto”.

As redes sociais se convulsionaram com os comentários do então apresentador do “Jornal da Globo”. Importantes formadores de opinião saíram em sua defesa, enquanto artistas e articuladores dos direitos humanos o condenaram pela frase racista. Entre uma e outra postagem, rara foi a indignação sobre a morte dos sete rapazes. Alguns, como já apurado até o momento, sem qualquer ligação com o tráfico de drogas ou outra marginalidade.

A cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil."

Quem alerta é a Organização das Nações Unidas (ONU), que acaba de lançar a campanha #VidasNegras. Está comprovado e denunciado pelo organismo internacional que a juventude negra brasileira é tratada de forma abusiva e desumana por agentes de segurança do Estado.

O que isso tem a ver com o comentário racista de William Waack?"

Absolutamente, tudo. Precisamos aprofundar o debate e encarar a farsa de que o Brasil é uma democracia racial. Convivemos com um racismo estrutural que envolve profundas camadas da sociedade brasileira, como aspectos culturais, sociais e econômicos. Tudo está tão arraigado que se naturaliza de tal forma a ponto de uma chacina de jovens homens negros na periferia tornar-se extremamente banal para parte da população.

Negros ganham menos, alcançam menor status social na sociedade e ocupam papéis subalternos em telenovelas. Tudo parece natural. O Brasil é educado para não se chocar com crianças negras largadas nas ruas, com mulheres negras violentadas nas esquinas. Estranha-se quando negros entram em lojas chiques ou acessam o elevador social de um prédio dos chamados “bacanas”.

O racismo estrutural faz o cidadão comum ficar comovido quando encontra um homem loiro e de olhos verdes vagando nas cracolândias. Querem selfie com ele e, em segundos, a mídia o transforma no “mendigo gato”. Esse mesmo “cidadão do bem” afasta-se quando um homem negro o aborda pedindo uma moedinha.

“Coisa de preto” é um reflexo perverso do racismo estrutural que humilha, condena à miséria, mata, tira as oportunidades. Por que muita gente branca diplomada, o preto fala alto, come de boca aberta, samba em qualquer lugar e cultua demônios africanos? São tiranias enraizadas de uma nação que se debate para sair dessa linha medieval.

Precisamos de ações afirmativas para combater o racismo estrutural. As cotas nas universidades foram uma delas e promoveu uma pequena revolução. Precisamos de uma política governamental de mais e mais cotas, inclusive nos concursos públicos. Porque um jovem negro dificilmente teve a mesma oportunidade educacional do que um branco.

Mais juízes negros com consciência de ser negro, que entendam o seu papel estratégico no cargo que ocupa. É urgente e necessário levarmos para as escolas o ensino sobre a cultura negra, a escravidão que massacrou e condenou uma população às favelas.

O racismo estrutural não vai se resolver com a provável perda de emprego de William Waack. Enquanto ele esvaziava as gavetas, sete jovens eram executados

Nota do autor:
Não sou negro e nem sei falar sobre a dor do racismo. Quem escreve essa coluna, no entanto, não é um homem branco. Na minha certidão de nascimento, está escrito: cor da pele: x.x.x.x. Levei um tempo para entender esses 4 “x”. A falta de definição da minha cor de pele. Provavelmente, porque meu pai, de família negra, ao me levar para o cartório deu um nó na cabeça do escrivão. Será que racismo estrutural transformou a minha cor de pele numa incógnita? Ao longo do tempo, entendi que era melhor me identificar politicamente e afetivamente como pardo, essa coisa tão incômoda para os negros e que, para mim, tornou-se minha redenção.

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