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Nunca tinha ouvido falar em Júlio Cocielo. Não faço parte de sua milionária audiência, predominantemente formada por crianças e adolescentes. No entanto, as declarações racistas do youtuber me fizeram chegar à sua companhia.

Sinceramente, jamais conseguiria suportar um minuto de tanta besteira. Esse detalhe, porém, pouco importa. O que interessa é o olhar de espanto ao qual nos endereçamos, a partir de agora, para as produções de conteúdo do YouTube destinadas a crianças e adolescentes.
Você parou para pensar o que seu filho ou sua filha estão assistindo nas palmas das mãos?"

 

Júlio Cocielo é apenas uma pedrinha nessa montanha de asneiras direcionadas para a juventude brasileira. Racismo, machismo, sexismo, misoginia, gordofobia, homofobia, escatologia e desprezo ao humano preenchem canais de humoristas que se acham engraçados. Para eles, zoar é sinônimo de humilhar o outro. É chocante assistir ao festival de indelicadezas reinarem sem nenhum filtro, mirando em uma audiência cujos princípios estão em formação.

Essas produções não passam por nenhuma regulação ética. Júlio Cocielo é racista desde 2011 e suas postagens ofensivas trafegam sem nenhum questionamento desde então. Se fosse um programa de televisão, estaria impedido de ir ao ar pelo Ministério Público. Se fosse uma propaganda, teria sido retirada pelas entidades reguladoras de publicidade. Mas, no YouTube, é como se o youtuber criasse as próprias regras e se cobrisse de um manto de impunidade.

Por acaso, encontrei o canal de Cauezão, outro youtuber de audiência gigantesca para crianças e adolescentes. Tentei assistir ao vídeo sobre bulying a partir do suicídio de uma menina de 15 anos, que teve fotos íntimas vazadas na rede. Esse “influenciador digital” ri, zoa e estimula o crime cometido contra a garota. Não há o menor sinal de dignidade humana. Um vale-tudo em busca de audiência.

É como se tudo que conquistamos como espectadores diante da tevê aberta fosse colocado no vaso sanitário. Sem critérios, a produção de conteúdo livre no YouTube põe a sociedade brasileira descarga abaixo. O mais grave. Esses jovens estão ganhando dinheiro em cima da barbárie. Não podemos acreditar na ingenuidade de grandes marcas em se associarem aos discursos ofensivos de Júlio Cocielo.

Mais interessados em vender produtos, essas multinacionais riem juntos das minorias quando faturam em cima de piadas infames dos tais “influenciadores digitais”

Aliás, esse termo “influenciador digital” é espelho dessa pobreza intelectual que tomou conta das redes sociais. Estão mais no papel de “deformadores digitais”. Boa parte não tem formação intelectual para discernir entre fato e boato. Eles acreditam que, em nome de uma piada, pode-se ferir, matar e morrer. Não sabem diferir ética de moral e usam como escudo “a chatice do politicamente correto”.

Há tempos no Brasil que não se trata mais de politicamente correto. Passamos dessa fase. Estamos numa sociedade em transição de direitos e reposicionamento de poderes. Já foi o tempo das esquetes que transformavam os negros em sonoras gargalhadas. As piadas de bichinhas, da loira burra, da mulher golpista, do preto indolente esbarram-se hoje em uma nova ordem para um país mais justo.

É preciso levantar um debate urgente e honesto sobre os limites do conteúdo nos canais do Youtube. São esses programas que estão formando uma nova geração de brasileiros e, por nada, ela pode ser pautada pelo pensamento torto desses verdadeiros “deformadores digitais”.

Se pensamos bem, temos até que agradecer ao Júlio Cocielo. Ele abriu a tampa do esgoto que escorre livremente no YouTube"


 


racismoyoutuberJulio Cocielo