Encaixa: tudo o que você queria saber sobre colar velcro

Existe proteção para quem faz a famosa "tesourinha"? O assunto, pouco discutido, foi abordado na cartilha especial Velcro Seguro

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atualizado 24/01/2020 12:01

A cena é clássica nos filmes pornôs: duas mulheres juntas, se beijando, olhando pra câmera e não uma para outra, até que um homem decide participar do sexo e elas passam a satisfazê-lo. 

Assim, geração após geração, é vendida a ideia do sexo entre mulheres em que acontece uma preliminar, “diversão entre amiguinhas”, um sexo “incompleto” e que deixa qualquer homem hétero enlouquecido com a ideia de ficar com duas mulheres.

Ideias como essas vêm sendo cada vez mais combatidas pelos profissionais que trabalham com sexualidade e pelas mulheres lésbicas e bissexuais no intuito de legitimar as relações sexuais entre mulheres como elas realmente são: um ato de cumplicidade, amor e/ou apenas tesão entre duas mulheres, em que um pênis e um homem são dispensáveis visando o prazer dessas pessoas e não de terceiros.

Dessa forma, é muito importante dar visibilidade ao tema e tentar ressignificar alguns pensamentos sobre a sexualidade dessas mulheres.

“O primeiro conceito a ser entendido é: não falta um pênis! Mulheres que se relacionam com mulheres querem exatamente isso: uma mulher. O prazer vem da exploração do corpo feminino, e o pênis (e até um objeto fálico) é totalmente dispensável”, explica a sexóloga e ginecologista Erlanda Maia. 

Conhecimento de caso

Segundo ela, poucos estudos científicos avaliam exatamente o prazer sexual das lésbicas, mas os poucos existentes demonstraram uma taxa de satisfação sexual três vezes maior que na população heterossexual em vários parâmetros analisados. Mas por que isso acontece? 

“Todas as mulheres, desde a primeira infância, são pouco ensinadas sobre sexo e sua genitália, local que não deve ser tocado, exposto, nomeado e deve-se ter vergonha. Associado a isso, a falta de educação sexual masculina é ainda maior. Há mais incentivo ao sexo e supervalorização da genitália, porém, nenhuma orientação sobre o corpo feminino e sobre a resposta sexual da mulher”, afirma. 

A profissional aponta que mulheres heterossexuais entrevistadas em inventários de pesquisa relatam falta de orgasmo nas relações em até 40% dos casos e quando se fala em falta de desejo sexual essa taxa pode ser ainda maior.

“Queixas sexuais são muito frequentes no dia a dia de um consultório ginecológico ou de um sexólogo entre as mulheres heterossexuais, sendo a falta de conhecimento do parceiro sobre o seu corpo uma reclamação constante”. 

Entre as lésbicas, as queixas sexuais são menos frequentes. “Se há dor na penetração, ela é evitada sem grandes prejuízos. É raro ter falta de orgasmo devido ao bom conhecimento das parceiras sobre seus corpos e principalmente pelo sexo não tão ‘genitalizado’. Há maior liberdade de diálogo sobre o relacionamento e sobre as práticas sexuais na maioria dos casos”, complementa. 

E a proteção?

Como se proteger de DSTs num mundo em que o pênis é o personagem central? Essa questão é muito recorrente entre mulheres que mantêm relações sexuais com outras mulheres, e foi pensando nisso que a publicitária Nicolle Sartor criou o Velcro Seguro, guia de saúde sexual para minas lésbicas e bissexuais com vulva. O trabalho foi todo feito com acompanhamento da médica Thais Machado Dias. 

O primeiro passo de Nicolle foi mapear pesquisas por todo o Brasil que tratassem do tema. “Cheguei a uma conclusão bem insatisfatória: não tem mesmo materiais didáticos com acesso facilitado”, conta ela, que, dentre as pesquisas, achou dois materiais produzidos pelo Ministério da Saúde para se basear – “Política nacional de saúde integral de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais”, publicado em 2013, e “Chegou a hora de cuidar da Saúde”, de 2007. 

Embora o primeiro trate de grupos minorizados, todas as letras da sigla LGBT eram colocadas dentro do mesmo contexto, dificultando que cada uma delas pudesse ser contemplada de maneira apropriada. Já a segunda cartilha, que aborda especificamente mulheres lésbicas e bissexuais, só foi encontrada com muito esforço na biblioteca virtual do Ministério da Saúde. “Apesar de existir esse material, é quase como se ele não existisse, porque não atinge essas mulheres”, declara a publicitária. 

A resposta que Nicolle encontrou para solucionar o problema foi disponibilizar sua cartilha para livre acesso e impressão. “Quando você coloca um grupo para protagonizar um material, não tira a necessidade de diferentes produtos para outras comunidades”, explica, justificando a opção de abordar apenas o sexo entre mulheres com vulva. 

Não é de hoje

Na década de 1980, a prevenção de ISTs entre a população LGBT+ começou a ganhar bastante espaço com a epidemia de HIV no Brasil. A partir de 1990, políticas de saúde sobre o tema foram incorporadas na agenda do governo. Mas e as mulheres lésbicas e bissexuais com vulva? Quase 40 anos depois, ainda é raro encontrar materiais e políticas públicas que contemplem de fato essa minoria. Afinal, sequer existem dados sobre saúde sexual deste grupo. 

O boletim epidemiológico de HIV/AIDS do Ministério da Saúde, por exemplo, é separado nas categorias de homens héteros, bissexuais e homossexuais, enquanto os dados de ocorrência entre mulheres são resumidos apenas em mulheres heterossexuais. Já o boletim epidemiológico de sífilis não traz nenhuma distinção sobre orientação sexual, somente de gênero. 

“As mulheres lésbicas e bissexuais têm um uso muito precário de preservativos por um motivo muito simples: não foram feitos para vaginas, nem para o sexo”, explica a ilustradora responsável pela cartilha. 

O uso de camisinhas cortadas, dental dam (um quadradinho de látex que pode ser usado na hora do sexo oral para prevenir ISTs) e dedeiras, por exemplo, foram criados para usos totalmente diferentes dos que Nicolle sugere na cartilha. “Isso é sintomático de como as práticas sexuais das mulheres que transam com mulheres com vulva não são levadas em conta”, explica a publicitária.

“Como um bom movimento feminista, a cartilha Velcro Seguro é uma forma de democratizar o acesso à informação”, explica. Afinal, como ela frisa, “o ganho de conhecimento sobre nosso corpo e nossa identidade só fortalece a luta por direito de mulheres que amam outras mulheres”.

Após a publicação, ela está otimista quanto ao guia. “Eu espero que esse livro sirva de inspiração para que sejam criados outros materiais para comunidade LGBT+”, relata, com esperança, Nicolle.

SOBRE O AUTOR
Giulia Roriz

Formada pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), passou pela redação do Correio Braziliense, onde produziu conteúdos sobre política, economia, cidades e turismo. No GPS|Lifetime, atuou como repórter no site e na revista impressa na área de gastronomia, entretenimento, lifestyle, décor, moda e cotidiano. Passou pela assessoria Naiobe Quelem Comunicação, atendendo a clientes de gastronomia e decoração.

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