Vida de imigrante: ser brasileiro ou ser português? Eis a questão

Três histórias sobre sentimento meio luso, meio brasileiro que me invade, desse conflito entre pertencer e não pertencer a um lugar

BravissimoS/IStockBravissimoS/IStock

atualizado 04/04/2019 7:35

Chega um momento na vida de um imigrante em que ele se sente meio local, meio estrangeiro. Não estou falando aqui das pessoas que saem do seu país e não fazem o menor esforço para se integrarem à nova cultura, à nova terra. Aquelas que não veem a hora de voltar para casa e acham tudo ruim: do clima ao tempero da comida. Parecem sentir falta até das coisas que os próprios compatriotas gostariam que não existissem. Não quero falar dessas pessoas.

Gostaria de falar desse sentimento meio luso, meio brasileiro, que me invade, desse conflito entre pertencer e não pertencer, e por isso conto três historinhas.

Portugal X Ucrânia
Semana passada, foi dia de jogo da Seleção Portuguesa de Futebol. Em campo, o eterno astro Cristiano Ronaldo. Comprei com antecedência os bilhetes da categoria “Pack Família”: quatro tíquetes por um preço único de 30 euros, bem barato, comparando com os nossos jogos no Brasil.

As entradas só poderiam ser retiradas nos dias anteriores à partida e eu não fazia ideia de que lugar no estádio me caberia. Pelo preço, imaginei: deve ser lá na última fileira das arquibancadas. Para minha surpresa, nossos lugares eram na primeira fila, ao lado do gramado, de onde é possível ver os jogadores a poucos metros.

Melhor para os meus filhos impossível. Eles gritavam a cada vez que o CR7 passava bem à nossa frente. Bom, é claro que eu iria torcer por Portugal. Assim como em qualquer jogo, sempre escolho um lado para torcer. Mas nunca imaginei que me emocionaria ao ouvir o hino de um país cuja letra praticamente desconheço.

Nunca sonhei que eu xingaria e empurraria o time mais que os próprios torcedores lusos. Que gritaria, batendo palmas “Purtugal” com o L bem pronunciado. No dia seguinte, a Seleção Brasileira jogou aqui, no Porto, contra o Panamá. Sinceramente, nem liguei a TV para assistir…

Educação
Chega a ser clichê dizer que os brasileiros invadiram Portugal nos últimos anos. Resultado da violência e da crise econômica, política e ética, além de outros motivos que você, leitor, já deve estar cansado de ouvir. Todo mundo tem um amigo que, pelo menos, já cogitou se mandar para cá.

Essa invasão incomoda com certeza uma fatia da população portuguesa, que não se acostuma com o nosso jeito de ser, e não cabe aqui nenhum julgamento. Presenciei uma cena que retrata bem esse conflito em um restaurante à beira da praia, no fim de semana passado.

Sentaram-se à única mesa vazia uma brasileira e sua filha. Quase ao mesmo tempo, uma senhora portuguesa colocou a bolsa em cima da mesa e disse que o lugar era dela. Quando a senhora percebeu que a brasileira não sairia, soltou: “Esses brasileiros mal-educados”. Ao que a brasileira, bem “mal-educada”, mas com toda a razão, respondeu: “Sua portuga aristocrática, a senhora deveria dar graças a Deus por esses brasileiros mal-educados estarem aqui ajudando a recuperar a economia do seu país!”

A “portuga” bem-educada não respondeu e saiu de cena. Até o garçom, português, concordou com a brasileira. Nessas horas, de fato, não há como não se indignar. Afinal, são brasileiros (e cabo-verdianos, angolanos, romenos, ucranianos, entre outras nacionalidades) que constroem os prédios, servem nos restaurantes, fazem a faxina, entregam comida a domicílio, fazendo os serviços que muitas vezes os portugueses não querem fazer.

Recebendo menos, tudo para ter um contrato de trabalho e iniciar o processo de legalização no país. Portugal, cuja população com mais de 65 anos é maior que a população até 20 anos, precisa sim dos imigrantes, queiram ou não, gostem ou não. Um retrato que certamente se repete em outros países da Europa.

Notícia boa
Oficialmente, somos 85 mil. Na prática, somos pelo menos o triplo, brasileiros que vivem em Portugal. Agora imagine que todos esses brasileiros precisam em algum momento de suas vidas ir ao Consulado Brasileiro. Acrescente a essa receita o fato de que o número de funcionários para atender à demanda é, na melhor das hipóteses, o mesmo.

O bolo só poderia desandar. Foi isso que aconteceu no Consulado Brasileiro em Lisboa, disparado o consulado do Brasil com o maior movimento do planeta. A solução encontrada foi implantar uma plataforma on-line na qual os brasileiros podem agendar dia e hora para o atendimento. De acordo com o serviço a ser solicitado, o usuário já faz o upload de alguns documentos necessários, o que agiliza o processo.

Uma coisa puxa a outra. Funcionários com melhores condições de trabalho acabam atendendo com mais cordialidade e atenção. E usuários bem atendidos contribuem para aquele clima leve e bem-humorado, que, cá para nós, só os brasileiros conseguem criar. E transformam o Consulado não numa repartição pública, mas numa casa brasileira de verdade.

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