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Nelson Maravalhas abre neste sábado (3/2) na Alfinete Galeria, às 18h, sua primeira mostra dedicada a desenhos. Oportunidade para conhecermos uma breve, caudalosa e subterrânea vertente de um personagem mui respeitado na cena brasiliense por sua carreira na pintura.

O próprio Maravalhas se surpreende com seus desenhos. Percorrendo as paredes da Alfinete, na última quarta-feira, ele demora o olhar num ou noutro trabalho. Como se não reconhecesse ali a própria autoria. E sorri satisfeito. “Mas fica bem mais bonito agora que está emoldurado, hein?”, brinca.

Dalton Camargos, proprietário da Alfinete, vem se aproximando de Maravalhas há um par de anos. Ele já acompanhava sua carreira, visitando exposições em lugares como a 508 Sul, desde a década de 1980. Mas apenas recentemente, por conta da galeria, passou a trabalhar diretamente com artistas que conviveram e aprenderam um bocado com o (hoje aposentado) professor Maravalhas no Instituto de Artes da Universidade de Brasília, como Eduardo Belga e Raquel Nava.

Andréa Campos de Sá, a Capi, outra amiga em comum, foi quem deu o toque para Dalton Camargos de que Nelson Maravalhas tem guardados milhares de desenhos em seu ateliê no Córrego do Urubu. Milhares. Mantidos há anos e anos em caixinhas de papelão paraná revestidas de pano, armazenadas dentro de fototecas de metal para tentar ao máximo proteger os papéis da poeira, da umidade, das traças.

 

Após uma exposição de pinturas e objetos de Nelson Maravalhas, realizada na Alfinete Galeria em julho de 2016, Dalton Camargos acha natural apresentar os desenhos desta vez. Ele gostou do formato das obras, dos tamanhos, e sabe que são mais acessíveis a um público que não necessariamente pode adquirir uma pintura em óleo sobre tela.

Na primeira vez que expôs trabalhos dessa lavra, o galerista vendeu todas as seis peças apresentadas numa coletiva no fim do ano passado. Serviu como modesta avant-première para a mostra que abre hoje e recebe apenas o auto-explicativo título de “Desenhos”.

Maravalhas não se envolveu nesta exposição. Delegou a Dalton tanto a seleção dos desenhos quanto a montagem da mostra. Por isso, as pequenas surpresas do artista ao se reencontrar com alguns de seus desenhos, após muito tempo guardados, agora emoldurados e pendurados nas paredes da Alfinete.

 

Todos esses desenhos foram feitos entre 1988 e 1996. Na época, Nelson Maravalhas morava na 710 Sul e desenhava apenas à noite, num ateliê montando no piso superior da casa, após passar o dia inteiro dando aulas na UnB.

Maravalhas parou de desenhar desde então. Uma decisão consciente e um tanto pragmática, pelo que ele conta. Uma escolha que teve a ver com a técnica e com a materialidade das obras, sua durabilidade, sua viabilidade.

“O papel é um meio muito frágil”, lamenta. “Alguns dos desenhos que fiz nessa mesma época se perderam porque não estavam guardados nas caixinhas de papelão, estavam em pastas. Quando Dalton foi olhar, tinham pontos amarelados e bichinhos. Mas mesmo uma caixa bem feita não vai segurar qualquer condição. Se a umidade for demais, estraga o papel. Um cupim come até cimento.”

 

Maravalhas optou por trabalhar com tinta óleo, tela e madeira. Materiais de maior durabilidade. E que são materiais de pintura – e não de desenho. Ao se voltar para a pintura e deixar o desenho para trás, ele hoje faz as contas daquilo que deixou para trás.

“Ao abrir mão de desenhar, abri mão dessa maneira mais rápida de se expressar. Uma maneira mais improvisada. O desenho é como se fosse uma tábula rasa para você usar um carimbo emocional. Seu sentimento passa diretamente, sem escalas. Enquanto num trabalho de óleo, você pensa, você faz várias camadas. A pintura é um trabalho que fica mais tempo no ateliê, você volta a ela várias vezes e refaz o que fez antes. A própria relação entre o seu corpo e o desenho funciona numa escala de intimidade bem diferente do que aquela entre você e uma tela. Você se debruça sobre o papel de desenho, sua cabeça fica em cima da prancheta. Você dá conta daquele mundo inteiro. É algo que está muito próximo. Enquanto a tela, você precisa andar em torno dela, precisa dar passos para trás e se aproximar dela novamente.”

Talvez por sentir uma certa falta daquilo que deixou para trás, Maravalhas admite que ultimamente tem tentado voltar a desenhar. Mas ainda não está acontecendo. Ainda não está satisfeito com os resultados. A mão ainda está muito dura, ele se queixa. E, de certa forma, não há muito mais a ser feito para soltá-la. A não ser continuar trabalhando, claro.

 

Afinal, o desenho para Maravalhas é uma atividade puramente intuitiva. Em alguns dos trabalhos desta exibição, pode-se entrever uma narrativa, pode-se descolar um personagem e associá-lo a outras cenas, pode-se tentar estabelecer ligações formais ou temáticas com aspectos mais conhecidos de sua atividade como pintor.

O prezado visitante que fique à vontade para fazer tudo isso. Que Nelson Maravalhas, ele não faz nada disso. Ele diz que não consegue enxergar nestes trabalhos unidade alguma. Não enxerga um sentido único, uma identidade definidora de estilo. Enxerga apenas um emaranhado de ações.

Eventualmente, convivem numa mesma composição guache, pastel, grafite e carvão. Num dos desenhos, o artista assumiu as texturas originais do papel. Noutro, riscou por cima de uma folha pautada, ainda dando para ler uma ou outra palavra de um texto que ali estava escrito. Maravalhas conta que certa vez começou um desenho descendo o martelo num pedaço de carvão. E aqui na Alfinete temos um cadáver fossilizado de mosca como parte de uma obra.

“São funcionamentos de minha cabeça. É como se uma entidade tivesse baixado naquela hora e eu tivesse sido guiado para fazer aquele determinado desenho. E isso nunca se repete em outro desenho.”

 

Em alguns de seus desenhos, ele corteja o abstracionismo, algo que jamais faria numa pintura. Notando esses sacolejos abstracionistas, enquanto conversa nas portas da Alfinete, Nelson Maravalhas conta sobre uma visita do professor e historiador da arte Olívio Tavares de Araújo ao seu antigo ateliê da 710 Sul.

Já naquela época, Olívio observara que Maravalhas pinta como um desenhista e desenha como um pintor. No sentido de que suas pinturas são lineares, dominadas por linhas, enquanto seus desenhos são pictóricos, definidos por manchas de cor. Maravalhas, mesmo tantos anos mais tarde, ainda concorda com essa avaliação e percebe nitidamente o porquê dessa diferença.

O filão principal de sua obra, a pintura em óleo sobre tela, está baseado fortemente sobre imagens mentais, as chamadas imagens hipnagógicas, um campo fértil para as artes desde, pelo menos, Salvador Dalí e o surrealismo.

Essas cenas, tão fantásticas quanto fugazes, surgem para Maravalhas desde a infância, no limiar entre a vigília e o sono. E ele trata de reproduzi-las em pinturas. Como está a palmilhar aqui o terreno da fantasia e do impossível, Maravalhas intelectualiza seu processo o máximo possível, e isso passa por limpar a composição, fechar as linhas e assumir os aspectos de cor, de formas e de perspectiva mais clássicos possíveis. Uma sensibilidade e uma perícia que ele desenvolveu estudando mestres do Renascimento, como Giotto, Piero della Francesca e Rafael.

Por oposição a esse exercício de pintura, que exige máximo empenho formal para registrar de maneira naturalista uma temática fantástica, o desenho então teria se aberto para Nelson Maravalhas como um campo de experimentações, um território livre, sem regras de composição, sem apego ao clássico.

“O meu desenho é mais barroco, individual e noturno. Enquanto a pintura é mais clássica, universal e solar.”

 Dalton Camargos/Divulgação

Nelson Maravalhas na Alfinete Galeria



 


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