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Se não tenho uma galeria de arte convencional, por que trabalhar como se tivesse? A lógica da curadora Ana Avelar, deitada assim por escrito, parece ser das mais elementares. Passar da intenção para o gesto, no entanto, demanda pequenos ajustes de ideias e de olhares — de todas as partes envolvidas. Um pacto com os senhores artistas, e também com os senhores visitantes.

Afinal, por anos e anos, os artistas e os curadores que se interessavam em ocupar a Casa da Cultura da América Latina (CAL) submetiam seus projetos a editais convocatórios que delimitavam suas ações aos espaços previamente agendados: uma galeria no subsolo, uma no térreo, outra no segundo andar do Edifício Anápolis — e pronto.

Conforme vimos no episódio da semana passada na coluna Plástica, a professora Ana Avelar assume a curadoria da mostra “Quando as Formas se Tornam Relatos” justamente para anunciar esse novo pensamento à frente da instituição cultural ligada à Universidade de Brasília.

Emprestando vigor poético e relevo nacional para a mostra, Ana Avelar abriu seu caderninho de telefones e trouxe nomes quentes da arte contemporânea brasileira, como a mineira Laís Myhrra (que participou com destaque da última Bienal de São Paulo) e o paulista Jaime Lauriano (um dos vencedores do Prêmio Marcantônio Vilaça deste ano).

Já na abertura da exposição, na noite da última quarta-feira, o público se viu convidado a tomar o elevador, subir e descer as escadas, entrar nos banheiros, não deixar de espiar até os fundos dos corredores, para não deixar nada passar despercebido.

Bem em frente ao Edifício Anápolis, à quadra 4 do Setor Comercial Sul, uma luz estrobo ofuscava os incautos passantes naquele início de noite e anunciava as mais visíveis modificações na CAL.

A fachada do prédio, revestida ao longo da semana com papel espelhado por Renato Pera, refletia verdes e amarelos, azuis e rosas. E uma montoeira de brita dourada, descarregada no meio da calçada, valia como marco inaugural da CAL-2007. Cortesia da artista Laura Andreato. As pedrinhas vão ficar ali enquanto durar a exposição, ou seja, até 9 de outubro.

(Ou até as autoridades competentes se encresparem, vá saber.)

Outra linguagem também apropriada para marcar espaço, ocupar ambientes e inverter sentidos, o vídeo se revela um dos protagonistas desta empreitada. Renato Pera projetou seu registro em vídeo de fachadas e janelas no teto do térreo, abrindo um recorte de arquitetura dentro da arquitetura do prédio.

“Me Desculpa”, vídeo-instalação de Clarisse Tarran, traz a artista pelada e vendada, tateando as paredes nuas de um cômodo indefinido. Ana Avelar, aumentando um bocadinho a claustrofobia, encaixou esse vídeo no fundo de um corredor estreito. Só entra uma pessoa por vez.

De toda forma, reserve alguns minutos para as salas escuras do terceiro andar. Numa delas, está sendo exibido o vídeo “Barca Aberta”, de João Castilho. Na outra, “Delírio”, de Laís Myrrha. Castilho segue morosa e silenciosamente o trajeto de um caminhãozinho caindo aos pedaços que sobe e desce por sinuosa rodovia, parando de quando em quando para que trabalhadores e famílias inteiras subam com seus pertences e sigam adiante todos juntos. Um pouco mais pesada, um pouco mais lenta fica a viagem a cada parada. Um pouco mais baixos ficam os pneus.

A câmera de Castilho segue a topografia de uma região incerta. A câmera de Laís segue a arquitetura de uma incerta construção (ruína? ruína de construção?). A artista mineira trabalha usualmente com material pesado — cimento, madeira, terra batida — e neste vídeo elabora um tecido visual e verbal em que tenta devolver visibilidade às multidões de vencidos de nossa história: na Guerra do Paraguai, no Arraial de Canudos, na abertura da Transamazônica, na construção de Brasília…

A esta altura da visita, o recorte curatorial fica mais evidente. Trata-se de buscar narrativas em obras que oferecem diferentes vozes. Um processo que leva em conta, claro, a polifonia, por vezes algaravia, da produção contemporânea.

Laís Myhrra, lá pelas tantas em seu vídeo, registra a cruel ironia dos candangos submetidos ao concreto armado de Brasília — armado — ar/ma/do — ela soletra. Paul Setúbal, um dos dois artistas brasilienses nesta mostra, trabalha justamente com enxada, terra e cimento. Sacos e sacos de cimento. Suas instalações no segundo andar da CAL soam harmonicamente, sinfonicamente nesta polifonia.

Num relato em looping, que serve de trilha sonora para o ambiente, Setúbal dá conta de sua busca por um santuário indígena no Planalto Central do Brasil. Não muito distante do coração do Plano Piloto. Um lugar em que os índios jogam futebol num campinho de terra enquanto tratores e escavadeiras manobram para dar continuidade à saga de cimento & especulação imobiliária do Distrito Federal.

Adereços indígenas, ali mais adiante na mesma sala, aparecem em outro contexto dentro dos objetos de Raquel Nava, a outra artista brasiliense desta exibição. Para quem a acompanha nos últimos anos, Raquel dá novos indícios de sua obsessão por taxidermia e por esqueletos de animais. Ela segue revelando a natureza selvagem de objetos prosaicos de nosso cotidiano industrializado. Um reles espanador de pó, assim, pode ser entendido como a sombra da avestruz que um dia teve suas penas arrancadas.

Pois não apenas as avestruzes se calam. Escapando para os corredores da CAL, podemos encontrar no terceiro andar uma intervenção de Fábio Tremonte dentro de sua série “Espaço Público”. Os cartazes em que o artista usualmente estampa dizeres desconcertantes, desta vez estão em branco. Ou melhor, em preto. Silenciados em absoluto. (Só não estão silenciados da constatação de estarem silenciados.)

Curioso traçar este paralelo: dois patamares abaixo de Tremonte, no primeiro piso, um televisor deixa em permanente rotação o vídeo “O Brasil” (2014), de Jaime Lauriano. Seus quase vinte minutos se sucedem numa colagem algo paranóica de matérias de jornais e informes televisivos do tempo do regime militar brasileiro (1964-1985). Aqui há de tudo, tudo, menos silêncio.

Desde longe, desde as escadas, se fazem ouvir as marchinhas ufanistas que formam a trilha do vídeo de Lauriano, que formaram a trilha da ditadura militar. Musiquinhas altaneiras a acelerarem na tela um desfile tipográfico de censura, autocensura e aquilo que hoje se conhece como “pós-verdade”.

Que todo relato é um discurso, é uma construção. E talvez se revele assim a maior virtude de uma proposta de exposição que escape do ambiente domesticado de uma galeria arte. A virtude de tornar evidente as mil maneiras de se construir e reconstruir narrativas através da escolha de cada uma das peças, através da forma como elas interagem entre si, através do ambiente que elas modificam ao seu redor.

Claro: um mapinha, logo na entrada da casa, apresenta a cartografia da mostra e indica os lugares de visitação. Mas, às vezes, também vale se deixar perder, sair do elevador no andar errado.

Bernardo Scartezini/Metrópoles

Não vá se perder por aí: detalhe do mapa da exposição “Quando as Formas se Tornam Relatos”

(Em tempo… Como parte da mostra “Quando as Formas se Tornam Relatos”, a CAL exibe sessões do filme “Dreamwaves”, de Gustavo Von Ha. Segundas, quartas e sextas, às 12h e às 19h, sábado, às 20h. E até terça-feira, 29/8, Fernando Piola segue fazendo performances diárias das 14h às 16h.)



 


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