Gordofobia não é piada: “Se ofende, como pode ser legal?”

Após a repercussão da piada gordofóbica feita pelo humorista Léo Lins, a discussão voltou a ganhar força

atualizado 02/08/2020 10:27

Reprodução/ Instagram

Semana passada, a sequência de postagens gordofóbicas do humorista Léo Lins, do programa The Noite, do SBT, no Instagram provocou repercussão. Enquanto muitos seguidores repudiaram o comentário preconceituoso e o compartilhamento indevido da foto da modelo Bia Gremion, outros tantos acharam graça. Mas o que os ativistas pelo Movimento Corpo Livre querem que você saiba é: gordofobia não é piada. “Eu fiquei triste em ver que as pessoas continuam achando o corpo gordo motivo de chacota. O corpo gordo não é público”, comenta Bia.

“Gordofobia é falta de acesso, falta do direito básico de ir e vir, falta da estrutura da sociedade funcionando e falando que o seu corpo cabe nela. Gordofobia é você desumanizar, marginalizar, estereotipar, tratar aquele corpo como doente, patologizar”, comenta a influenciadora digital Alexandra Gurgel, que passou por um longo processo de aceitação do seu corpo, todo registrado em seu canal do YouTube.

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“Eu descobri com 9 anos que era gorda e que isso era feio, e aí passei a minha vida inteira fazendo dieta. Com 13 anos, comecei a flertar com a bulimia, com a anorexia, e comecei a ter tendências suicidas justamente porque não tinha o corpo que queria. Hoje vejo que fui bulímica e anoréxica, mas, por não apresentar a imagem que queria ter, achava que não tinha conseguido. Eu fiz uma lipoescultura e, três meses depois, já estava sofrendo várias sequelas, que tenho até hoje. Não estava bem e tentei me matar. Cheguei a esse ponto por causa da minha imagem”, conta Alexandra.

Assim como Bia e Alexandra, o jornalista Lucas Pasin também usa suas redes sociais para mostrar representatividade a pessoas gordas. “Quando comecei a postar e percebi que outras pessoas – que também fugiam do ‘padrão’ – começaram a se identificar, encontrei aí uma oportunidade de inspirar e de aprender com outras pessoas. Hoje em dia, se você olhar meu Instagram, parece que não tenho camisa em casa”, brinca ele. “Quem participa desse tipo de movimento mostra que você pode ser feliz em um corpo gordo, que você pode ter êxito na sua vida, que você pode ter um relacionamento feliz, que você pode estar bem com o seu corpo, que você pode ser uma pessoa realizada em um corpo gordo”, afirma Bia.

Lucas respondeu ao cantor Ferrugem, que apoiou o humorista Léo Lins em um comentário no Instagram deste colunista que vos escreve. “Esse cara é bom demais, o gordo aqui aprova”, escreveu o pagodeiro, ao que o jornalista replicou pedindo para que ele buscasse se informar sobre gordofobia. Em seguida, Lucas viu sua página ser inundada por comentários de ódio. “Eu recebi mais de 1000 mensagens me xingando depois que comentei a postagem”.

E é por isso que a representatividade importa. “Nós somos educados em uma sociedade que enaltece um tipo de corpo que é um padrão inalcançável, inatingível, e marginaliza todo mundo. O Movimento Corpo Livre é um movimento para aceitação de todos os corpos porque todos os corpos sofrem com pressão para serem perfeitos, independentes de serem gordos ou magros, altos ou baixos. Independentemente da cor, independentemente da pessoa que seja, todo mundo tem problema com corpo. A gente está lutando contra um preconceito, uma opressão estrutural”, diz Alexandra.

“Entendi que o problema não estava em mim, não estava no meu corpo, estava no que as pessoas queriam para mim. Entendi que o problema não era o meu corpo e que, independente do corpo que eu tivesse, seria atacada. A mulher passa por essa misoginia de muitas formas e o corpo da mulher é sempre julgado. Ela nunca vai ser suficiente: ou ela está magra demais ou ela está gorda demais. Eu notei que o meu corpo não me impedia de nada. O que me impedia era a gordofobia das pessoas comigo”, afirma Bia, ao que Lucas comenta: “A maior influência que um ativista pode ter nas pessoas é a inspiração. Representatividade é importante. Antes de mais nada, o que peço nas redes sociais é apenas: respeitem o outro e sejam felizes. Seria tão lindo se todos pudessem se respeitar e não achar que podem diminuir o outro pelo formato do corpo”.

Criminalização 

Para diminuir os casos de preconceito contra pessoas gordas, os ativistas acreditam que a gordofobia deveria ser criminalizada. “Gordofobia não é piada e, se queremos continuar caminhando para mudanças importantes, ela precisa sim ser criminalizada. É importante conscientizar sobre o estrago que a gordofobia faz na vida de uma pessoa. Mas, infelizmente, nem todos querem ter essa consciência, por isso acredito que seja sim importante criar leis que punam pessoas que não respeitam o corpo do outro. É uma violência”, afirma Lucas. “Inclusive, já estamos mobilizando pessoas para se unirem sobre essa temática, para que a gente consiga criar projetos de lei. É muito importante sempre pensar sobre a causa. A gente não quer mais ser visto e ridicularizado só por sermos gordos”, completa Alexandra.

E para quem achou graça no comentário de Léo Lins, Alexandra questiona: “Se ofende alguém, como pode ser legal? Se discrimina, como pode fazer graça?”. “Busquem se informar sobre gordofobia. Converse com pessoas que você gosta e que são ‘fora do padrão’. Converse com pessoas que são contra piadas sobre gordos e tentem entender as justificativas delas. Não precisa ser gordo para lutar contra a gordofobia. Preconceito machuca”, Lucas complementa. “Isso pode afetar a vida de uma pessoa de uma forma muito drástica e muito cruel. Eu espero que as pessoas vejam a repercussão desse caso e reflitam se elas querem estar do lado de pessoas que são cruéis e estão impactando a vida de alguém de forma negativa”, diz Bia.

Alexandra, que foi uma das primeiras pessoas a falar sobre gordofobia na internet, afirma que o ativismo está ajudando a mudar as coisas. “No início, eu parecia uma maluca, as pessoas falavam que eu era muito polêmica, que falava de coisas absurdas, que romantizava a obesidade. Estou falando sobre liberdade, sobre ter saúde, sobre você se sentir bem. Infelizmente, o movimento não viraliza como o ódio, mas ele consegue ir longe e fazer as pessoas se sentirem pertencentes. Temos que focar na nossa auto-estima, na nossa saúde mental, e não na parte estética”, finaliza.

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