Casal que aplicou golpe da pirâmide se automutilou e forjou sequestro

Justiça investiga dupla acusada de aplicar golpes em Brasília e Aracaju e que coleciona processos e queixas por estelionato

atualizado 22/07/2020 10:43

Um grupo acusado de estelionato e crime contra a ordem financeira virou réu no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) após ser denunciado por pelo menos 14 investidores de Brasília. O casal Alexsandro Rodrigues Alves e Geslanne Nunes de Souza Azevedo, além de outras seis partes, passaram a responder juridicamente pela acusação de golpes que podem totalizar a soma de R$ 30 milhões.

O que seria apenas uma indicação de conhecidos para um suposta oferta lucrativa acabou em dor de cabeça, adiamento de sonhos e até o comprometimento de tratamentos de saúde, todos os casos relatados em inúmeras ações judiciais que tramitam em tribunais do país.

O caso da pirâmide financeira estourou depois que a Polícia Civil do Estado de Sergipe revelar que Alexsandro, apontado como o cabeça do suposto esquema, forjar o próprio sequestro e pedido de si próprio a quantia milionária.

Ele foi encontrado com escoriações pelo corpo e no rosto e teria sido libertado após repassar o valor aos criminosos. O rapaz de 44 anos acabou preso no decorrer das investigações após cair em contradições durante os depoimentos às autoridades. De acordo com os investigadores, durante o referido cárcere, a suposta vítima insistia em ligações telefônicas para familiares cobrando a robusta quantia. Alexsandro está solto após um habeas corpus expedido pela 9ª Vara Criminal de Aracaju.

Pastor cai no golpe

A trama que mais parece um roteiro de filme policial e, que ocorreu em Sergipe, respingou diretamente no Distrito Federal. No caso de Brasília, uma das vítimas é o pastor evangélico Robinson Valadares de Vasconcelos. Ele descobriu que os ganhos financeiros dos investimentos estancaram após a prisão desse que era um dos gestores do grupo empresarial que recebia suas aplicações.

Morador da capital, o religioso conheceu a modalidade financeira por meio de um amigo da igreja, que sugeriu a aplicação de dinheiro na empresa, com lucros prometidos de até 12% ao mês. Para se ter ideia,  a média da caderneta de poupança é de 1,52% ao ano.

O religioso saboreou por pouco tempo da parte do retorno financeiro, mas associou a prisão de Alexsandro à suspensão dos pagamentos, incluindo os valores já investidos. Com isso, viu as economias acumuladas por sua família escoarem pelo ralo.

Elas foram direcionadas a grupos empresariais os quais estão sendo acusados pela suposta prática do crime, conforme os processos que correm no Judiciário. Em agosto de 2019, Robinson decidiu firmar contratos com a empresa Gsaf Investimentos, totalizando 54 títulos e um valor de R$ 118.755,46.

De acordo com a ação, alguns desses documentos foram firmados com a garantia de carta-fiança emitida por uma outra empresa, a seguradora Federal Fiança, mediante pagamento de 10% do valor integralizado.

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Convite familiar

O pastor convenceu a esposa Rosimary Nascimento de Souza Valadares a assinar outros 47 contratos, o que direcionou ao grupo suspeito outros R$ 225.049,13.  No caso dela, uma carta-fiança chegou a ser solicitada para a referida empresa no valor de R$ 30 mil, mas a titular teria recebido apenas R$ 3 mil, justificados pela empresa como um “equívoco”.

No Distrito Federal, além do pastor e da esposa, pelo menos outras 12 pessoas caíram no apelidado “canto da sereia”, mas o número pode ser ainda maior, já que a maioria dos investidores que amargou prejuízos ainda espera a boa vontade dos credores para que as dívidas sejam quitadas. Os repasses foram realizados por intermediários da empresa ligadas à GSaf Corporate, que tem como administradora a Gesllane Nunes, parceira de Alexsandro.

“Era um negócio inacreditável e quando a gente cai na arapuca deles, percebe que realmente vivem desses golpes. Imagine você: R$ 120 mil apenas na minha conta, mas tinha a da minha esposa, que é quase o dobro disso. Além de alguns amigos que fui indicando somam mais R$ 1 milhão”, disse o pastor.

O religioso lembra que conheceu David Moreira Santos, que se apresentava como um dos intermediários da Gsaf, por meio dos comerciais e propagandas atraentes realizados pelo representante comercial. “Conheci o David, que fazia muito bem a apresentação da empresa. Entrei na história e começou me pagando cerca de 12% do investimento, depois baixou para 10%, depois 8% e, recentemente, 4%, até que soubemos que o Alexsandro havia sido preso e pararam de nos passar até mesmo o que investimos”, completou.

Ele conta que ninguém teve notícia sobre a falência das empresas, apenas perceberam que a plataforma de movimentação financeira havia saído do ar. “A empresa Federal não paga as fianças, não temos notícias do David e dos outros dois intermediários, ninguém fala nada. Tudo está se configurando como um grande golpe. Isso é uma ação milionária”.

Para a advogada do caso, Rosalynn Farias de Oliveira Apolônio, a atuação do grupo já foi registrada em vários locais do Brasil, tendo como epicentro a capital sergipana. “Aqui, são mais de 13 pessoas e um total de R$ 1,6 milhão. Muitas pessoas de outras cidades do Brasil talvez nem saibam que caíram nesse possível golpe. No DF, existe um grupo que se organizou contra os autores e muita gente não entrou na Justiça por não nutrir esperança de reaver o dinheiro. Outros estão com esperança de que os envolvidos ainda devolvam o dinheiro após negociação”, explicou.

Ela defende os brasilienses ao lado da colega Carolina de Araújo Ribeiro, que já assina outros processos contra o mesmo grupo empresarial. A segunda advogada argumenta que nenhum dos intermediários para a aquisição desses títulos tinha investimentos na empresa tida como promissora. “As pessoas que captavam os investidores faziam a propaganda de que o negócio era muito bom, mas eles mesmos não investiam. Por isso, há a possibilidade de que eles também estejam envolvidos”, disse à reportagem.

Os funcionários foram incluídos e respondem como réus na ação.  Até agora, não foram descartados pela Justiça como possíveis cúmplices do suposto golpe. “Primeiro, diziam que tudo iria se resolver, depois sumiram, não tivemos mais notícias também”, lamenta o pastor.

Bloqueio de bens

De acordo com a advogada Rosalynn Apolônio, a ação inicial era coletiva e envolvia os 14 autores, mas o juiz preferiu individualizar as causas. “Muitos dos que integram a ação são familiares e afins e acabaram envolvidos nesse enredo. Estamos esperando um agravo a ser julgado para saber se o processo será coletivo ou se andará de forma individualizada”, explica.

A defensora diz ter entrado com pedidos de bloqueios, juntamente com inúmeras outras ações, mas não foi encontrado bem nenhum em nome do acusado ou das empresas. “Todas as propriedades estavam no nome da companheira dele, mas está sendo muito difícil de encontrar. Estamos com a esperança de que o juiz que está com nossa causa se sensibilize e atenda nossos apelos”.

O outro lado

Durante toda a terça-feira (21/7), a reportagem procurou, sem sucesso, todos os envolvidos na ação que corre dentro do TJDFT por meio de telefones registrados em operadoras telefônicas, e-mails e até mesmo pelos de canais de comunicação oferecidos pelas páginas virtuais das empresas na internet. O espaço segue aberto para o contraditório e garantido para posicionamentos futuros.

 

 

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