UnB: arquitetos contestam monumentos ligados à violência. Lista tem até JK

Pelo Facebook, docente anunciou projeto de mapeamento dos "sítios de memória da violência colonial" que atravessam a arquitetura de Brasília

atualizado 10/06/2020 11:27

Memorial JK - amanhecer nublado Rafaela Felicciano/Metrópoles

Na esteira dos movimentos mundiais contra o racismo e da recente derrubada da estátua de um traficante de escravos, em Londres, um professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília (UnB) propôs, em grupo de Facebook, a reflexão sobre um outro lado da história que os cartões-postais, incluindo os brasilienses, não mostram: os marcos históricos que representam violências da colonização.

No debate virtual, o arquiteto e urbanista Paulo Tavares, professor com pós-doutorado na área, indica o Memorial JK como um exemplo. Endereço do mausoléu do ex-presidente, o local celebra a memória do fundador da cidade como um bandeirante “desbravando-colonizando” os sertões.

Contudo, o mestre pondera que, embora a imagem seja símbolo da construção da cidade, carrega também o lado do sofrimento e incertezas para quem vivia no Planalto Central à época.

“Que cidade-sociedade este monumento representa? Deve ser ele celebrado como um marco ‘fundador’ da civilidade no sertão ou testemunha da barbárie colonial? Tento em vistas as populações ameríndias e quilombolas que habitam esta região desde tempos ‘imemoriais’, como confrontamos os legados destas narrativas da modernidade nacional-colonial no campo da arquitetura?”, reflete.

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No grupo fechado e exclusivo para alunos e professores da faculdade de urbanismo – ou seja, um ambiente propício e coerente para a discussão desse nível –, o docente anunciou o início de um projeto para o mapeamento dos “sítios de memória da violência colonial” que atravessam a arquitetura de Brasília.

A argumentação ocorre em meio a vários protestos mundiais, incluindo a derrubada da estátua de um traficante de escravos na Inglaterra e o anúncio feito pelo prefeito de Londres, Sadiq Khan, de rever todos os nomes de monumentos e de ruas da capital inglesa.

Com o objetivo de levantar o debate sobre os fatos silenciosos que atuam como figurantes numa narrativa essencialmente patriótica, a discussão tem rendido reflexão dos estudantes e participantes para um olhar mais aprofundado sobre as narrativas históricas impostas na formação intelectual de cada um.

Herança violenta

Sem conotação política, o professor explica que, tanto nas eras antigas da esquerda e de direita, a estrutura colonial-racial sempre foi uma constante, antes e após o período colonial, ainda que a narrativa da nacionalidade desenvolvimentista classifique JK como um gestor ‘progressista’.

“Há mesmo aqueles que defendem a ditadura getulista como progressista, o que, em certos aspectos, realmente esses dois governos foram. A questão é como a estrutura colonial-patriarcal-racial atravessa ditaduras e democracias, marcando profundamente a história/memória em cidades brasileiras”, explica.

Paulo Tavares esclarece que a ideia do projeto não é a de renegar tudo aquilo que está representado na história do Brasil. A discussão serve para reconhecer que há um outro lado, nem tão poético, e que também tem o direito de ser admitido e legitimado.

“A destruição em si não pressupõe necessariamente a demolição ou a destruição física. Eventualmente, a deslocação de um monumento para outro lugar, em larga medida, a fundação teórica e prática do preservacionismo é a destruição – dos mundos, de objetos, de paisagens”, teoriza.

E dá o exemplo dos museus como “cenas de crimes, não depósitos de cultura”. “Grande parte do patrimônio histórico-etnográfico brasileiro é resultado de pilhagens, violações, ocupações coloniais-violentas de territórios: é uma questão a se pensar”, continuou o acadêmico.

Além da polêmica

O urbanista esclarece não estar “advogando” pela destruição de nossas instituições culturais, consideradas por ele como “nossos mais queridos patrimônios”. “Isso não significa que temos que comungar de um discurso nacionalista – e no limite colonialista-racista – sob o qual estas instituições foram erguidas”.

Após o acesso ao teor do debate, o Metrópoles conversou com o professor Paulo Tavares. Segundo o acadêmico, o tema é de extrema relevância, mas foi tratado dentro de uma comunidade universitária com o contexto do momento político sob o olhar da arquitetura mundial.

Assim, o professor reforçou que as conversas virtuais têm sido usadas pela UnB como forma de estimular o conhecimento dos estudantes durante a fase da pandemia causada pelo novo coronavírus. Ou seja, um ambiente feito para os questionamentos como forma de crescimento.

A Universidade de Brasília afirmou, por meio de nota, que não acompanha a referida página. No texto, a instituição frisou que opiniões emitidas por membros da ampla e diversa comunidade universitária não refletem, necessariamente, a opinião da Administração Superior da UnB.

Ponte

Não é a primeira vez que o debate sobre a revisitação do passado toma conta de Brasília. Recentemente, a placa da Ponte Costa e Silva foi alvo de intervenção e protesto. O Movimento de Mulheres Olga Benário “renomeou” o local. Os integrantes do grupo colaram um adesivo com o nome de Marielle Franco, vereadora morta a tiros em março de 2018, no Rio de Janeiro. Porém, momentos depois, a “homenagem” havia sido retirada do local.

Na verdade, em 2018, findou-se uma polêmica sobre a construção que liga a Asa Sul ao Lago Sul. Uma lei distrital aprovada na Câmara Legislativa retirou o nome do ex-presidente militar do país do monumento e rebatizou de Honestino Guimarães, líder estudantil que desapareceu durante o regime do Exército. A Justiça considerou a lei anticonstitucional, porque só cabe ao governador em exercício definir a nomenclatura de logradouros.

Estátua em Londres

Nesse domingo (07/06), uma estátua de Edward Colston, homem que enriqueceu no século XVII por vender pessoas escravizadas na África, foi derrubada e jogada no porto de Bristol por um grupo de manifestantes que participavam de um ato em protesto à morte de George Floyd, nos Estados Unidos.

No dia seguinte, o prefeito da capital inglesa, Marvin Rees, anunciou que não reinstalaria a homenagem no local e guardaria a escultura em um museu.

O prefeito também disse estudar criar uma comissão para avaliar os nomes de ruas e monumentos da cidade europeia que têm relação com a rápida expansão da riqueza e do poder de Londres no auge do Império Britânico durante o reinado da rainha Vitória.

“É uma verdade desconfortável que a riqueza da nossa nação e da nossa cidade se devam em grande parte ao comércio de escravos. E, embora isso esteja em domínio público, a contribuição de muitas de nossas comunidades para a vida em nossa capital tem sido deliberadamente ignorada”, declarou o político.

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