Pyer Moss trocará desfile por exibição em cinemas drive-in no próximo NYFW

Sem saber se apresentações em passarelas serão possíveis em setembro, Kerby Jean-Raymond decide divulgar seu trabalho em outra plataforma

Desfile Pyer MossDimitrios Kambouris/Getty Images

atualizado 23/05/2020 11:15

Há muitas incertezas sobre os desfiles da temporada de primavera/verão 2021, agendada para setembro. Sem saber como o mundo ficará após a pandemia do novo coronavírus, as organizações das principais semanas de moda não conseguem prever se conseguirão realizar shows presenciais ou se terão que recorrer a plataformas digitais e cancelamentos, como tem sido feito nos projetos dedicados ao menswear e à alta-costura. Neste clima de instabilidade, grifes começam a abandonar as tradicionais plataformas de divulgação para se dedicarem a formatos e cronogramas próprios. A Pyer Moss, por exemplo, dispensará as passarelas para investir em exibições em cinemas drive-in.

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Kerby Jean-Raymond, diretor criativo da grife, chegou ao mercado rejeitando o calendário das semanas de moda. Após vencer o CFDA/Vogue Fashion Fund, concurso que premia um jovem estilista entre nomes promissores do mercado todos os anos, ele ganhou um lugar reservado na temporada de outono/inverno 2019 do New Yok Fashion Week. Porém, decidiu pular a edição. “Participo quando tiver algo a dizer”, pontuou, em entrevista ao WWD na época.

Para a temporada de primavera/verão 2021, o estilista tem um discurso pronto, mas não pretende divulgá-lo nas passarelas, como de costume. Nessa segunda-feira (18/05), o norte-americano revelou que, em vez de investir em um desfile, na próxima edição do NYFW, programada para setembro, sua marca estará na programação do evento por meio do filme American, Also.

Kerby Jean-Raymond
Kerby Jean-Raymond é o idealizador e diretor criativo da Pyer Moss

 

Estilista sempre trabalhou a cultura negra em suas criações

 

Michelle Obama é uma das fãs da etiqueta

 

Kerby Jean-Raymond
Kerby não se atem à programação das semanas de moda

 

Pyer Moss
Vencedor do CFDA/Vogue Fashion Fund 2018, ele defende desfilar suas coleções apenas quando tem uma mensagem a passar

 

O documentário, que será exibido em cinemas drive-in, mostrará a concepção, a preparação e a execução do show de primavera 2020 da marca, realizado em setembro passado, no Kings Theatre do Brooklyn.  O local, por muito tempo proibido aos negros, foi o último palco para as gravações no longa, iniciadas em 2017.

“Nossa missão sempre foi mostrar a quantidade de trabalho necessária para montar uma coleção. Estamos diminuindo a velocidade da produção e melhorando a qualidade do que produzimos ao longo dos anos. Este filme tem como objetivo mostrar o amor e o cuidado que toda a empresa coloca em cada momento que criamos, apreciando a moda como forma de arte e comunicação”, disse Jean Raymond, ao WWD.

Documentário mostra os bastidores do último desfile de Kerby

 

Pyer Moss
Show marcante foi feito no Kings Theatre

 

Pyer Moss
Longa também destrincha a presença dos negros na indústria têxtil

 

O filme é dividido em três partes e fala, ainda, sobre a presença dos negros na cultura norte-americana. O primeiro ato é centrado na figura do caubói; o segundo, na família; e o terceiro, na irmã Rosetta Tharpe, pioneira do rock ‘n’ roll.

No trailer, que começa com o apresentador Matt Lauer, ex-NBC, dizendo que brancos ainda se mudam de um bairro quando negros chegam na vizinhança, os feitos de Kerby são evidenciados. “A primeira coisa que muitos de nós fazemos quando temos oportunidades é sair. Eu precisava encontrar meu caminho de volta. Agora, finalmente, estou em casa”, reflete o estilista no preview.

 

Após o NYFW, a Pyer Moss exibirá o documentário em vários cinemas drive-in dos Estados Unidos. De acordo com a Vogue América, a marca optou por não lançar uma coleção de primavera, mas investir em reabastecimentos periódicos nas lojas e pontos de venda.

“Eu acho que o negócio de vender roupas acabou. O que vendemos agora são experiências, alinhamento cultural e tribalismo. Precisa ser autêntico, porque as pessoas querem sentir que conhecem as personalidades e ideologias de quem produz”, comentou Jean-Raymond, ao WWD.

Pyer Moss
Para o diretor, ele vende não só roupas, mas um alinhamento cultural

 

Pyer Moss
A Pyer Moss não desfilará sua coleção de primavera/verão 2021.  A empresa vai abastecer pontos de venda de acordo com a demanda

 

Moda multimídia

A Pyer Moss foi criada em 2013, como uma marca de moda focada nas narrativas e heranças da população negra. Seu fundador, Kerby Jean-Raymond, conquistou a indústria têxtil com suas cores vívidas e personalidade marcante, sendo conhecido por não ceder às pressões do segmento. Chamado pelo WWD de “força cultural”, o estilista chegou a perder a direção da companhia porque seus acionistas o acham muito polêmico.

Descrita por ele como “um experimento social”, a etiqueta ganhou visibilidade em 2016, após estreia no New York Fashion Week. De lá para cá, a label faturou o prêmio CFDA/Vogue Fashion Fund 2018, cativou clientes como Michelle Obama, Ciara, Janet Jackson, Dua Lipa, Gabrielle Union, Tracee Ellis Ross, Anderson Paak e Tiffany Haddish, e foi convidada a colaborar com a Reebok. Atualmente, Kerby é o diretor artístico da empresa esportiva.

Apontado como o nome mais quente da moda norte-americana, o estilista é um dos queridinhos de Anna Wintour e tem o desejo de formar sua própria holding, para acabar com a dominância dos conglomerados europeus, como LVMH e Kering.

Kerby Jean-Raymond
Na imagem, o estilista agradece os aplausos em seu primeiro desfile

 

Desfile Pyer Moss
Estreia da Pyer Moss no New York Fashion Week, em 2016

 

Kerby e Anna Wintour
Kerby Jean-Raymond recebe o prêmio CFDA/Vogue Fashion Fund 2018, ao lado de Anna Wintour

 

Não é de hoje que o designer explora outras formas de arte e mídia para compor as experiências que oferece aos clientes. Em abril, ele estreou o filme Seven Mothers em sua loja pop-up no SoHo. No mesmo mês, o clipe da canção Sue Me, do rapper Wale, chegou ao YouTube sob a direção do norte-americano.

O comportamento de Kerby vai ao encontro da observação feita pela produtora de desfiles René Célestin à Vogue Business de que “as grifes se tornarão emissoras”, oferecendo aos consumidores conteúdos, programas e quadros especiais que divulgam suas criações. Ele é um gênio da criatividade.


Colaborou Danillo Costa 

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