Black is back? Elle alemã se desculpa após conteúdo racista

Na edição de novembro, a revista confundiu duas modelos negras e foi criticada por dizer que “O preto está de volta”

atualizado 30/10/2019 20:50

Yanshan Zhang/Getty Images

Um conteúdo da edição de novembro da revista Elle alemã deu o que falar nas redes sociais nessa terça-feira (29/10/2019). Na página, com a chamada “Black is back” (O preto está de volta, em tradução livre), a intenção era destacar “mulheres negras que trabalham como modelos”. Porém, para o perfil Diet Prada e vários internautas, a publicação errou ao usar a expressão de conotação racista ao abordar o assunto. Para piorar, uma das manequins teve o nome confundido com o de outra colega. Depois da polêmica, a revista se desculpou pelo ocorrido.

Reprodução/Instagram/@diet_prada
Um conteúdo da edição de novembro da Elle alemã gerou polêmica nas redes sociais

 

Reprodução/Instagram/@diet_prada
Esta foto, compartilhada pelo perfil do Instagram Diet Prada, mostra duas coisas: a primeira é a chamada “Black is back” na parte de cima. Depois, uma foto da modelo Naomi Chin Wing identificada pelo nome de outra colega, Janaye Furman

 

Intitulado “Super, Girls!” (Super, Garotas), o texto apresenta seis modelos negras: Anok Yai, Adut Akech, Mayowa Nicholas, Aliet Sarah, Joan Smalls e “Janaye Furman”. A foto de cada uma acompanha uma pequena descrição e informações como idade e o username do Instagram.

“Modelos de cor nunca foram uma demanda como são agora, mas estas grandes mulheres também nos inspiram fora das passarelas”, diz um trecho da página polêmica.

Na imagem escolhida para Janaye Furman, no entanto, quem aparece é a modelo Naomi Chin Wing. Outro detalhe controverso é a inclusão da veterana Joan Smalls entre as “recém-chegadas”.

Yanshan Zhang/Getty Images
Naomi Chin Wing, modelo que foi confundida pela Elle alemã. Sua foto foi usada para descrever a top Janaye Furman

 

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Esta é Janaye Furman

 

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Joan Smalls, que já pode ser considerada uma veterana, foi mencionada entre as modelos negras recém-chegadas. Esse detalhe também foi comentado pelo Diet Prada

 

Conhecido pelas críticas ácidas a estilistas, marcas e publicações de moda, o perfil Diet Prada elencou vários problemas a respeito do conteúdo. Um deles é a própria capa da edição da revista, com a frase “Back to black” estampada com uma modelo branca.

Por mais que a edição seja voltada principalmente para a cor preta em peças de roupa – como pontuou o Fashionista –, também é polêmico que seres humanos sejam incluídos nessa “tendência”.

“Para a edição de novembro de 2019, uma publicação presumivelmente liderada por brancos declara que ‘o preto está de volta’. Irônico que eles, junto com grande parte da indústria da moda, foram cúmplices em negar visibilidade a modelos até recentemente”, escreveu a dupla por trás do Diet Prada, com 1,6 milhão de seguidores.

Em outro post, o perfil ironiza a situação com um trecho do filme Corra! (2017, Jordan Peele), no qual um casal diz: “Preto está na moda”.

Reprodução/Instagram/@diet_prada
Comparação feita pelo Diet Prada…

 

Reprodução/Instagram/@diet_prada
… e a verdadeira Janaye Furman!

 

Quem não gostou nada da abordagem da revista foi a supermodelo Naomi Campbell. Ela, inclusive, se ofereceu para ajudar caso a empresa não esteja esclarecida sobre “as linhas de diversidade”. Para a top, o erro da Elle é “altamente insultuoso em todos os sentidos”.

“Vocês vão além ao dizer que ‘O preto está de volta’. Eu já disse inúmeras vezes que não somos uma tendência, nós estamos aqui para ficar. Não há problema em celebrar modelos de cor, mas faça-o de maneira elegante e respeitosa”, escreveu no Instagram.

Naomi também disse que, ao longo da carreira, viu outras modelos negras serem chamadas por seu nome, só por causa da cor da pele. Segundo ela, isso é o que vem acontecendo com Adut Akech. “É muito importante que uma publicação seja culturalmente sensível e dê o crédito onde é devido.”

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Naomi Campbell se manifestou sobre a situação pelo Instagram

 

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Ela disse que já viu várias modelos sendo chamadas por seu nome apenas por serem negras

 

A diretora de moda da revista Garage, Gabriella Karefa-Johnson, que é negra, se manifestou no Instagram Stories. Nas declarações mencionadas pela Teen Vogue, ela chamou a atenção para o quão problemático é o erro no nome da modelo, uma vez que a produção de publicações impressas envolve várias pessoas.

“Isso significa que nada menos que quatro pessoas leram, e ninguém viu o erro… Ou os editores responsáveis ​​não se importam o suficiente para dar a mesma atenção que dariam a qualquer outro conteúdo da revista, ou não podem dizer a diferença entre dois modelos negros”, comentou.

Nos comentários do Diet Prada, vários internautas se manifestaram. Um deles foi a própria modelo Adut Akech, que aparece entre as seis listadas na página polêmica. “Tão repugnante! Estou farta disso, honestamente”, reclamou.

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Adut Akech comentou no post do Diet Prada: “Tão repugnante!”

 

Depois da polêmica, a publicação divulgou um comunicado sobre o caso nesta quarta-feira (30/10/2019). No texto, assinado pela editora-chefe Sabine Nedelchev, a revista alemã reconhece que cometeu “vários erros” e se desculpou pelas pessoas que se ofenderam com a situação.

A edição, segundo ela, tinha como intenção abordar a cor preta em “diferentes ângulos” – isso inclui modelos negras dentro da indústria fashion.

“Foi um erro usar a chamada ‘O preto está de volta’, que pode ser entendida como se os negros fossem uma espécie de tendência da moda. Obviamente, essa não foi nossa intenção, e foi nosso erro não sermos mais sensíveis a isso”, lamentou a Elle.

Sobre confundir os nomes das modelos, a nota diz que a empresa está “ciente do quão problemático isso é”. “Definitivamente, essa foi uma experiência de aprendizado para nós e pedimos desculpa”, finaliza.

Reprodução/Instagram/@ellegermany
Nota publicada pela Elle Alemanha no Instagram

 

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Adut Akech, uma das seis modelos mencionadas pela revista, também teve seu nome trocado em outra publicação há algumas semanas

 

Reprodução/Instagram/@adutakech
No lugar de Adut Akech, a revista australiana WHO Magazine usou uma foto de Flavia Lazarus

 

Divulgação/Gucci
A Gucci tomou medidas em prol da diversidade depois da polêmica envolvendo este moletom, quando foi acusada de blackface

 

Nas últimas semanas, a revista australiana WHO Magazine passou por uma situação parecida. Ao publicar uma entrevista com Adut Akech, a foto que ilustrava a matéria era de outra profissional negra, Flavia Lazarus. “Isso me chateou, me deixou com raiva, me fez sentir muito desrespeitada e, para mim, é inaceitável e indesculpável sob quaisquer circunstâncias”, desabafou Adut.

Problemas como esse chamam atenção para a falta de diversidade nos ambientes corporativos e cargos de chefia. Infelizmente, situações como essa se repetirão enquanto isso não for uma unanimidade.

A Gucci, por exemplo, contratou uma chefe de diversidade e criou um programa global de inclusão após ser acusada de blackface por causa de um moletom da coleção FW18. Será que a Elle vai seguir o exemplo?

 

Colaborou Hebert Madeira

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