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A Via Engenharia é parte de um dos grandes escândalos da história recente do Distrito Federal. A empreiteira de Brasília é acusada de estar envolvida em esquema de pagamento de propina e superfaturamento na construção do Estádio Nacional Mané Garrincha. O rastro de suspeitas em torno da empresa, no entanto, não criou qualquer embaraço na contratação de um de seus ex-executivos como braço da Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) que negocia, justamente, a privatização da arena mais cara do Brasil.

José Luis Wey de Brito foi diretor de projetos especiais da construtora entre 2007 e 2014. O governo entregou a obra do Mané Garrincha um ano antes de ele deixar a companhia. Hoje, Brito está lotado na Diretoria de Novos Negócios da Terracap, área responsável pela concessão da gestão do estádio à iniciativa privada.

A passagem de Brito pela Via Engenharia está registrada no currículo dele publicado no LinkedIn. Após deixar o posto de diretor na empreiteira, ele trabalhou em outras duas empresas, o Grupo Santa e a Almeida França Engenharia. Em fevereiro deste ano, assumiu o cargo público a convite do diretor de Novos Negócios da Terracap, Sérgio Nogueira.

Confira:
O nome do ex-executivo também aparece no Relatório Anual da Via Engenharia 2013/2014. A publicação comemora a reinauguração do Mané Garrincha e a entrega de outras obras da empreiteira no período.
O escândalo de desvio de dinheiro público envolvendo os executivos da Via Engenharia e integrantes do alto escalão do Governo do Distrito Federal foi alvo da Operação Panatenaico, em 2017. De acordo com as investigações, mais de R$ 16 milhões teriam sido pagos em propina durante a construção do Mané Garrincha.

O nome de Brito não aparece entre os réus e sequer foi investigado. Mas a indicação dele para atuar na diretoria que lidará com o repasse do equipamento público à iniciativa privada causou estranhamento entre servidores da própria Terracap e acendeu o alerta de integrantes do Ministério Público, que considera a nomeação inadequada devido ao vínculo que o profissional manteve com o projeto no passado. Não em um contexto qualquer, mas estando ligado a uma empresa que, segundo investigações, atuou no sentido de lesar o patrimônio público.

Superfaturamento no estádio
Ao todo, 12 investigados da Panatenaico tornaram-se réus após denúncia do Ministério Público Federal (MPF). Entre eles, os ex-governadores José Roberto Arruda (PR) e Agnelo Queiroz (PT), além do ex-vice-governador Tadeu Filippelli (MDB) e do dono da Via Engenharia, Fernando Queiroz. Em abril de 2018, a Justiça Federal impediu a empreiteira de celebrar novos contratos com o poder público .

O projeto do GDF para entregar o Mané Garrincha à iniciativa privada está paralisado desde abril deste ano. A reabertura da sessão pública de licitação foi suspensa por tempo indeterminado desde que o Metrópoles revelou o conteúdo de um parecer técnico que apontou falhas na proposta apresentada pelo Consórcio BSB, único interessado em gerir o Centro Esportivo de Brasília (Arenaplex) – que inclui o estádio, o Ginásio Nilson Nelson e o Complexo Aquático Mané Garrincha.

O parecer apontou que o consórcio não conseguiu descrever satisfatoriamente as fases de implantação e execução do projeto, não informou a contento o plano de execução das funções da concessionária e a descrição dos programas pretendidos. Também deixou de atender as exigências em relação à preservação do conjunto urbanístico de Brasília.

O documento foi elaborado a pedido da Diretoria de Novos Negócios da Terracap. Exatamente onde José Luis Wey de Brito trabalha atualmente.

Comissão dissolvida
A comissão técnica responsável pelo parecer foi dissolvida após a divulgação dos problemas constatados na proposta do Consórcio BSB. Todos os integrantes acabaram afastados e novos nomes foram chamados para a missão. A medida soou internamente como retaliação em função do vazamento do parecer, que acabou adiando os planos do governo de privatizar a operação da Arenaplex.

Agora, fazem parte do grupo a secretária adjunta de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Giselle Moll; o engenheiro agrônomo Danilo Cruz de Lima; o ex-secretário de Esporte Herbert William de Oliveira Felix; e o servidor da Terracap Israel Marcos da Costa Brandão, que foi diretor-administrativo da agência na gestão de Agnelo, quando da construção do estádio.

Mais um ponto de estranhamento entre os que acompanham com lupa a movimentação interna na Terracap é que Hebert William, um dos novos integrantes da comissão que deverá zelar pelo bom andamento da concessão pública, já foi alvo de processos durante o tempo em que foi secretário de Esporte. Em pelo menos um deles, que apurou irregularidades em contrato firmado pela secretaria e a Federação Brasiliense de Futebol, Hebert William foi condenado ao pagamento de multa de R$ 305,094,86 a título de reparação ao erário.

O outro lado
A Terracap informou que Brito, enquanto esteve na Via Engenharia, “atuou exclusivamente no segmento imobiliário e de obras privadas” e, segundo a companhia, “não teve envolvimento com contratos ou obras públicas”. Ainda de acordo com a agência, em sua atual ocupação, o engenheiro “não participa da licitação de concessão do estádio”.

Sobre a dissolução da comissão técnica que avalia a licitação de concessão do Mané Garrincha, a assessoria de imprensa da Terracap informou que os integrantes da comissão foram substituídos para preservar os técnicos responsáveis pelo parecer e que os trabalhos do grupo já foram retomados com a participação dos novos membros.



 


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