Terracap contrata ex-diretor da Via, acusada de superfaturar Mané, em gerência que lida com o Estádio

José Luis Wey de Brito foi diretor de projetos especiais da construtora entre 2007 e 2014. Desde fevereiro, tornou-se gerente na Terracap

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atualizado 08/05/2019 16:15

A Via Engenharia é parte de um dos grandes escândalos da história recente do Distrito Federal. A empreiteira de Brasília é acusada de estar envolvida em esquema de pagamento de propina e superfaturamento na construção do Estádio Nacional Mané Garrincha. O rastro de suspeitas em torno da empresa, no entanto, não criou qualquer embaraço na contratação de um de seus ex-executivos como braço da Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) que negocia, justamente, a privatização da arena mais cara do Brasil.

José Luis Wey de Brito foi diretor de projetos especiais da construtora entre 2007 e 2014. O governo entregou a obra do Mané Garrincha um ano antes de ele deixar a companhia. Hoje, Brito está lotado na Diretoria de Novos Negócios da Terracap, área responsável pela concessão da gestão do estádio à iniciativa privada.

A passagem de Brito pela Via Engenharia está registrada no currículo dele publicado no LinkedIn. Após deixar o posto de diretor na empreiteira, ele trabalhou em outras duas empresas, o Grupo Santa e a Almeida França Engenharia. Em fevereiro deste ano, assumiu o cargo público a convite do diretor de Novos Negócios da Terracap, Sérgio Nogueira.

Confira:
O nome do ex-executivo também aparece no Relatório Anual da Via Engenharia 2013/2014. A publicação comemora a reinauguração do Mané Garrincha e a entrega de outras obras da empreiteira no período.
O escândalo de desvio de dinheiro público envolvendo os executivos da Via Engenharia e integrantes do alto escalão do Governo do Distrito Federal foi alvo da Operação Panatenaico, em 2017. De acordo com as investigações, mais de R$ 16 milhões teriam sido pagos em propina durante a construção do Mané Garrincha.

O nome de Brito não aparece entre os réus e sequer foi investigado. Mas a indicação dele para atuar na diretoria que lidará com o repasse do equipamento público à iniciativa privada causou estranhamento entre servidores da própria Terracap e acendeu o alerta de integrantes do Ministério Público, que considera a nomeação inadequada devido ao vínculo que o profissional manteve com o projeto no passado. Não em um contexto qualquer, mas estando ligado a uma empresa que, segundo investigações, atuou no sentido de lesar o patrimônio público.

Superfaturamento no estádio
Ao todo, 12 investigados da Panatenaico tornaram-se réus após denúncia do Ministério Público Federal (MPF). Entre eles, os ex-governadores José Roberto Arruda (PR) e Agnelo Queiroz (PT), além do ex-vice-governador Tadeu Filippelli (MDB) e do dono da Via Engenharia, Fernando Queiroz. Em abril de 2018, a Justiça Federal impediu a empreiteira de celebrar novos contratos com o poder público .

O projeto do GDF para entregar o Mané Garrincha à iniciativa privada está paralisado desde abril deste ano. A reabertura da sessão pública de licitação foi suspensa por tempo indeterminado desde que o Metrópoles revelou o conteúdo de um parecer técnico que apontou falhas na proposta apresentada pelo Consórcio BSB, único interessado em gerir o Centro Esportivo de Brasília (Arenaplex) – que inclui o estádio, o Ginásio Nilson Nelson e o Complexo Aquático Mané Garrincha.

O parecer apontou que o consórcio não conseguiu descrever satisfatoriamente as fases de implantação e execução do projeto, não informou a contento o plano de execução das funções da concessionária e a descrição dos programas pretendidos. Também deixou de atender as exigências em relação à preservação do conjunto urbanístico de Brasília.

O documento foi elaborado a pedido da Diretoria de Novos Negócios da Terracap. Exatamente onde José Luis Wey de Brito trabalha atualmente.

Comissão dissolvida
A comissão técnica responsável pelo parecer foi dissolvida após a divulgação dos problemas constatados na proposta do Consórcio BSB. Todos os integrantes acabaram afastados e novos nomes foram chamados para a missão. A medida soou internamente como retaliação em função do vazamento do parecer, que acabou adiando os planos do governo de privatizar a operação da Arenaplex.

Agora, fazem parte do grupo a secretária adjunta de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Giselle Moll; o engenheiro agrônomo Danilo Cruz de Lima; o ex-secretário de Esporte Herbert William de Oliveira Felix; e o servidor da Terracap Israel Marcos da Costa Brandão, que foi diretor-administrativo da agência na gestão de Agnelo, quando da construção do estádio.

Mais um ponto de estranhamento entre os que acompanham com lupa a movimentação interna na Terracap é que Hebert William, um dos novos integrantes da comissão que deverá zelar pelo bom andamento da concessão pública, já foi alvo de processos durante o tempo em que foi secretário de Esporte. Em pelo menos um deles, que apurou irregularidades em contrato firmado pela secretaria e a Federação Brasiliense de Futebol, Hebert William foi condenado ao pagamento de multa de R$ 305,094,86 a título de reparação ao erário.

O outro lado
A Terracap informou que Brito, enquanto esteve na Via Engenharia, “atuou exclusivamente no segmento imobiliário e de obras privadas” e, segundo a companhia, “não teve envolvimento com contratos ou obras públicas”. Ainda de acordo com a agência, em sua atual ocupação, o engenheiro “não participa da licitação de concessão do estádio”.

Sobre a dissolução da comissão técnica que avalia a licitação de concessão do Mané Garrincha, a assessoria de imprensa da Terracap informou que os integrantes da comissão foram substituídos para preservar os técnicos responsáveis pelo parecer e que os trabalhos do grupo já foram retomados com a participação dos novos membros.

SOBRE OS AUTORES
Lilian Tahan

Dirige desde setembro de 2015 o site de notícias Metrópoles. É formada em comunicação social pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em jornalismo digital e gestão de empresa de comunicação pela ISE Business School, instituição vinculada à Universidade de Navarra, na Espanha. Antes do Metrópoles, trabalhou por 12 anos no Correio Braziliense e dois anos na revista Veja Brasília. Ao longo da carreira, conquistou prestigiados prêmios de jornalismo, como Esso, Embratel, CNT, CNI, AMB, MPT, Engenho.

Gabriella Furquim

Formada em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), com experiência em redação, assessoria de imprensa e gestão de comunicação. Atua na área desde 2009. Integrou as equipes de reportagem e edição dos jornais Correio Braziliense e Aqui DF. Em 2014, coordenou a comunicação da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente, Seção Defence for Children Brasil (Anced/ DCI Brasil), e do projeto internacional Red de Coaliciones Sur. De 2015 a 2017, foi assessora de imprensa do governador de Brasília, Rodrigo Rollemberg.

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