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Quando tomamos a decisão de ter filhos, a grande maioria dos pais estuda arduamente, compra livros, participa de grupos de discussão sobre maternidade, alimentação, parto normal x cesárea, amamentação exclusiva, andador, enfim, uma imersão no mundo das crianças.

E mesmo os pais mais cuidadosos não costumam estudar sobre o funcionamento do cérebro. Não é surpreendente? Digo isso porque o cérebro desempenha papel determinante em boa parte dos aspectos da vida dos nossos filhos: disciplina, tomada de decisão, autoconhecimento, escola e relacionamentos. Desconhecer o funcionamento dele aumenta brutalmente nossas chances de errar em intervenções diárias com as crianças.

No livro “Cérebro da criança”, os autores Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson explicam: “A formação dos nossos filhos depende das informações que eles recebem diariamente do ambiente ao seu redor. Assim, as crianças crescem e se desenvolvem por espelhamento, aprendendo com o que observam do comportamento dos seus pais e responsáveis”.

Os especialistas lembram a evidência de estudos neurocientíficos, “de que a interação dos pais com seus filhos estimula o desenvolvimento cerebral, o crescimento emocional e a aprendizagem. Além disso, esses relacionamentos sociais são grandes preditores para a felicidade”. Segundo os autores, “para atingir esse objetivo precisamos conhecer o funcionamento do cérebro da criança e suas necessidades emocionais. Aprender com os próprios erros e usar momentos problemáticos do dia a dia para ensiná-los a serem mais felizes, organizados, responsáveis e mostrar suas potencialidades”.

Assim, quando se conhece o cérebro, você conhece os pilares da autorregulação e aprende a utilizar a inteligência emocional no dia a dia com os seus filhos. Um exemplo clássico citado no livro é de quando as crianças estão brigando pela terceira vez em três minutos. Em vez de simplesmente separar a briga e mandar os irmãos para quartos diferentes, pode-se usar a discussão como uma oportunidade de ensinar – ouvir e escutar ponderadamente o ponto de vista do outro, sobre comunicar os próprios desejos de maneira clara e respeitosa e sobre comportamento, sacrifício, negociação e perdão.

Segundo os autores, mais interessante do que separar os brigões, é transformar essa experiência em algo capaz de desenvolver não apenas o cérebro de cada criança, mas também as habilidades de relacionamento e o caráter. Com o tempo, os irmãos continuarão crescendo e se tornarão mais hábeis para lidar com conflitos sem a orientação dos pais.

O nosso cérebro tem muitas partes diferentes com funções diversas. O segredo para vivermos melhor e mais felizes é ajudar na integração dessas partes. O cérebro desempenha adequadamente seu papel quando as regiões trabalham juntas, de maneira coordenada.

Provavelmente, você sabe que o cérebro é dividido em dois hemisférios com funções distintas: o esquerdo é lógico, linguístico e literal; o direito é emocional, não verbal, experimental e autobiográfico. Se conseguirmos instigar nossos filhos a terem cérebro horizontalmente integrados, eles valorizarão tanto a lógica quanto as emoções.

Siegel e Bryson ensinam algumas estratégias simples para ajudarmos nossos filhos a usar o dois lados do cérebro na hora de uma birra! A técnica é conectar e redirecionar. Por exemplo, se a criança tem uma explosão incomum, um incomodo com um problema aparentemente sem lógica para você, como “quero pular na piscinaaaa! Você tem que deixar!!! Se você não deixar, vou te odiar para sempre!”. Essa explosão é relativamente comum quando os pais não deixam os filhos entrarem na água quando estão resfriados ou quando está frio.

O que fazer? Basta explicar: “Você não irá me odiar para sempre, mas está gripado e não pode pular na piscina hoje”"

Esse tipo de reação lógica do cérebro esquerdo bateria de frente no muro nada receptivo do cérebro direito e criaria um abismo entre vocês. A neuropsicóloga Susana Myrian explica que isso ocorre porque, na criança, as informações sensoriais são enviadas para a amígdala, área responsável pelo processamento de emoções e, por ocasião do nascimento, é proporcionalmente maior do que as estruturas pré-frontais no hemisfério direito.

“Ao longo do desenvolvimento, as porções pré-frontais aumentam de volume e a atividade da amígdala vai sendo gradativamente regulada por intermédio do cíngulo anterior e da área órbitofrontal. Essa última região é interconectada com áreas de processamento cognitivo e emocional e seus circuitos são associados ao comportamento social como empatia, cumprimento de regras sociais, controle inibitório e automonitoração”, diz a especialista.

Puxe seu filho para perto, acaricie suas costas e, com um tom de voz carinhoso e empático, diga: “Eu sei que não pular na piscina agora é frustrante, mas eu jamais falaria isso se não fosse realmente necessário. Estou sempre pensando no melhor para você. Eu te amo demais e sempre vou te proteger”. Abrace-o enquanto ele explica o quanto o clima estava quente e aquela água o ajudaria a ficar mais fresquinho. Você perceberá que, ao longo da conversa, ele ficará mais relaxado e tranquilo.

As evidências do neurodesenvolvimento e a estruturação das funções executivas têm demonstrado que as vivencias emocionais adequadas são determinantes para a constituição das redes neuronais funcionais e são fundamentais na expressão e na adaptação dos comportamentos e das atividades futuras, acrescenta a neuropsicóloga.

Essa história nos faz compreender algo importante: quando uma criança está incomodada, usar a lógica não funcionará até que tenhamos atendido às necessidades emocionais do cérebro direito. A regra é clara: criar empatia com o lado direito do cérebro e guiá-lo para o lado esquerdo. Com carinho e paciência. Muita paciência.



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