Ter filhos depende de sua disponibilidade de tempo para criá-los

Entender aumento da depressão infanto-juvenil requer uma reflexão profunda dos fatores não genéticos que disparam doenças psiquiátricas

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atualizado 30/05/2018 7:25

Quando temos acesso aos dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre os números crescentes de depressão infantil, a pergunta que emerge é: por que nossas crianças estão cada dia mais doentes?

Estudo da OMS demonstra que em torno de 10% das crianças e dos adolescentes apresentam sintomas de depressão ou transtorno de ansiedade.

Entender o aumento da depressão infanto-juvenil requer uma reflexão profunda dos fatores não genéticos que são o gatilho para o desenvolvimento de algumas doenças psiquiátricas. Um deles está ligado à relação entre pais e filhos.

A família exerce fator decisivo na saúde mental das crianças. A psicóloga Suzana Myrian Gonçalves dos Santos, especialista em neuropsicologia e terapia cognitiva comportamental, é contundente: “A presença dos pais na rotina do filho promove estímulo, segurança, sentimento de proteção, afetividade e limites. Esse acompanhamento deve ser com qualidade, ou seja, durante o tempo destinado a passar ao lado dele, demonstre interesse em estar junto, é preciso que haja interação e participação nas atividades da criança/adolescente”.

Segundo Suzana, “na falta do cuidado afetivo, a criança que se apresenta emocionalmente imatura e com mecanismos de defesas ainda frágeis torna-se vulnerável a transtornos mentais, como depressão ou ansiedade, por exemplo”.

A psicóloga Maria Raquel Gonçalves de Araújo segue o mesmo raciocínio. “Filho precisa de contato físico dos pais, contato visual, precisa ser ouvido, ouvir, falar com os pais, ser compreendido por eles”, detalha. “Filho precisa do afeto dos pais, afeto que acolhe, abraça, sorri e recebe de volta sorrisos, mas que também exige, corrige, educa, cobra disciplina, impõe respeito/regras, forma um cidadão. Mas, acima de tudo, mostra que amor é a junção de todas as nossas obrigações e escolhas”, acrescenta a especialista.

Assim, quando escolhemos ter filhos, precisamos considerar como será nosso dia a dia com um novo serzinho que necessitará de tempo e amor para ser saudável. A psicóloga Mariana Pinto destaca a relevância da rotina na vida dos pequenos.

É fundamental buscar uma rotina organizada que adeque tanto nossas atividades profissionais quanto o tempo para estar presente no dia a dia dos nossos filhos. Encontrar tempo para exercer de maneira equilibrada todos os nossos papéis é uma meta bem audaciosa

Mariana Pinto, psicóloga

Alice Simão, fundadora e diretora da Kingdom Kids, afirma perceber que muitos pais, durante a gestação do filho, pensam mais sobre questões logísticas – decoração do quarto, compra de banheira e cadeirinha etc. – e não planejam temas macros. “Poucas pessoas fazem uma reflexão sobre qual tipo de pais queremos ser, que tipo de cidadão queremos formar, quanto tempo para formar este cidadão eu vou dedicar”.

Isso leva, segundo Alice, algumas pessoas a serem pais “presentes-ausentes”: ou seja, ficam ao lado do filho, mas grudados no celular ou no computador, sem estarem, de fato, com os pequenos. “O ideal é a mãe e o pai criarem uma programação de tempo com qualidade.

A qualidade é que vai determinar o processo emocional, o crescimento familiar, o envolvendo de laços e valores daquele núcleo. É preciso ter um momento só para o seu filho, dedicado a ele – ainda que seja um período curto de tempo, ele precisa ser intenso”, afirma a expert.

Nossos filhos precisam de pais emocionalmente disponíveis, dispostos a educar. Para tanto, é preciso entender que nossos filhos exigirão muito do nosso tempo. Planeje-se para tê-los.

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