Agendar muitas aulas particulares garantirá boas notas ao meu filho?

Talvez o plano dê resultado, com as notas melhorando um pouco, mas o rebento estudará menos e cada vez mais lições serão agendadas. Entenda

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atualizado 23/05/2018 7:54

Paulinho é bom aluno, nunca tirou notas baixas. Não é um entusiasta do estudo, mas não preocupa os pais.

Vicente e Roberta são pais de Paulinho. Os dois sempre foram muito estudiosos. Não estão satisfeitos com o fato de o filho ir apenas bem na escola. Esperam dele mais brilhantismo.

Assim, querem ajudar o filho e escolhem dar um empurrãozinho nos estudos dele.

Chegam à conclusão: “Vamos contratar um professor particular todos os dias para que ele estude mais e as notas excelentes apareçam! Eureka!”.

O plano dará resultados? Talvez as notas melhorem um pouco. O fato é que Paulinho estudará cada dia menos e mais aulas particulares serão agendadas para atingir melhores notas.

O tiro sairá pela culatra: o adolescente usará a aula particular como muleta, estudará menos sozinho e terá o reforço escolar como parceiro diário até o fim do ensino médio

Para a psicóloga Maria Raquel Gonçalves, “os pais, em vez de ajudarem o filho, reforçam comportamento de dependência, de falta de autonomia e de falta de comprometimento”.

Pela linha behaviorista (comportamentalista), teoria criada por B.F. Skinner, o reforço positivo baseia-se em uma das mais poderosas técnicas comportamentais a favorecer modelagem e manutenção de comportamento. Maria Raquel, psicóloga behaviorista, esclarece: “no reforçamento positivo, o indivíduo vai encontrar um resultado mais rápido e eficaz. Consequência essa que, se reforçada positivamente, será mantida por mais tempo e será gradualmente mais presente”.

No caso de Paulinho, ao anteciparem a ajuda, seus pais reforçam uma dependência de um tutor até então inexistente – e nem era efetivamente necessário! Os pais do Paulinho, neste caso, reforçaram positivamente a passividade do filho em estudar mais, em dedicar-se mais. Por meio do reforço, Paulinho pode desenvolver comportamentos de dependência, falta de autonomia e de comprometimento.

E mais: no meu entendimento, deixamos claro para nossos filhos que não acreditamos neles, pois nos antecipamos na ajuda e reforçamos sua dependência. A autoestima da criançada foi jogada às traças.

No caso da educação, as intervenções mais benéficas são aquelas na quais permitimos a nossos filhos fazer esforço, errar, pedir ajuda depois de algumas tentativas, se frustrar, tentar de novo… Depois, mudam de estratégia e, finalmente, conseguem: essa sensação que seu filho terá do próprio esforço não tem preço.

O emprenho será a matéria-prima para a autoestima, essencial para a segurança e a felicidade. Servirá para toda a vida.

Do ponto de vista racional, é simples deixar nossos filhos tomarem decisões e sofrerem as consequências. Mas, do ponto de vista emocional, sabemos que é conflitante. Achar um equilíbrio nesta equação é o desafio do dia a dia de pais e educadores.

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