Que tempos de ódio, possessão coletiva e desespero. Onde erramos?

Não tenho respostas. A única, é a pior e mais pessimista de todas: vamos presenciar a destruição do nosso país

atualizado 12/06/2020 14:26

Ilustração para coluna do Anderson França - Onde erramos? Moisés Dias/Metrópoles

Nestes dias, leitores me enviaram duas denúncias.

A primeira, de uma mulher chamada Camila Freitas Sá Teles, num grupo denominado “Somos Todas Childfree”, onde ela publicava uma mensagem de ódio, racismo, ódio a crianças, à maternidade, misoginia e praticava ainda crimes de injúria e difamação.

Tudo, num único post.

Já vi pessoas praticarem crimes de informática, inclusive contra mim, mas Camila Teles se superou.

Ela disse que o episódio ocorrido na semana passada em Recife [a morte do menino Miguel, aos 5 anos, ao cair do 9º andar de um prédio de luxo onde a mãe trabalhava], tema desta coluna, não havia sido assassinato – ou homicídio culposo, como investiga a Secretaria de Segurança Pública do Estado de Pernambuco. Era “acidente”.

Além disso, se dirige a Mirtes Renata com palavras extremamente agressivas. A “caca parideira”, “paribosta”, se referindo a Mirtes, era “a única responsável”, sendo a “patroa inocente” pela morte do “projeto de marginal”, referindo-se ao menino.

Há aí algumas questões, além do racismo que atravessa toda essa construção afirmativa. Mas para mim, juridicamente, o racismo é a primeira coisa que precisa ser colocada em pauta.

Trata-se de uma mulher criminalizando outra mulher, negra, e seu filho, morto.

Fui checar os fatos. Encontrei não um, mas cinco perfis dela, e fiquei assustado. Em todos eles, ela dizia “fora bolsominion”. Ou “antifascista”, ou “Quem matou Marielle”.

Se afirma como feminista de esquerda, antifascista e, por aparentemente se importar com Marielle, que tem uma filha, diga-se de passagem, ela poderia ser enquadrada como antirracista. Votou no Haddad, logo, na Manuela, que também tem uma filha.

As coisas não se conectam.

Fui pesquisar sobre o movimento childfree. Trata-se de pessoas que optaram por não ter filhos. Alegam desde total desinteresse ao desejo de fruir dos seus corpos sem imposições do Estado ou sociedade. E são preocupadas com o futuro do planeta, pois não concordam com o que chamam de “superpopulação”.

Tudo bem. Direito seu não ter filhos, e inclusive vociferar isso, por vezes até de forma agressiva, como fazem os veganos brancos.

Mas não é o que Camila está fazendo.
Nesse caso, é crime o nome.

Mais denúncias sobre ela chegaram. Pessoas de todo Brasil. E ela faz parte de um grupo de “antinatalistas”, pessoas que ODEIAM crianças.

É o terraplanismo da vida mamífera. Como essas pessoas vieram ao mundo?
Com CNH e nome no SPC?

Alegam, algumas, terem “fobia de criança”, algo que na literatura médica, seria um tipo raro de patologia, tratada na psiquiatria como “pedofobia”. No entanto, raro. E tratável.

A maior parte das pessoas que vi nestes grupos são brancos e brancas. Alguns muito jovens, adolescentes que se recusam a ter filhos, o que é psicologicamente compreensível, pois não estão formados para adquirir maturidade neste campo, e outros com mais de 40 anos, cujo ódio a maternidade e a criança beira a ameaça.

Há muitos grupos de direitos humanos que protegem crianças e mães, e cada vez mais voltados à proteção diante de ataques de seguidores do pensamento childfree, e antinatalistas.

Nos grupos públicos, insistem em humilhar casais, e tem como arquétipo casais heteronormativos, mas esquecem que casais homoafetivos e trans também tem filhos.

São afirmações confusas, sobretudo feitas por pessoas que FORAM CRIANÇAS, a menos que tenham elas conseguido outra forma evolutiva e biológica desconhecida da humanidade.

É um tipo de patologia séria. A que se vê nos posts e comentários. O grau de frustração, ódio, questões interrompidas com a figura da mãe e do pai, abusos, traumas, e a solução mais simples é se abrigar num movimento que, antes, era apenas para firmar uma posição do âmbito da liberdade individual: o direito de não ter filhos.

E passa a ser, agora, um movimento onde os que não têm filhos são melhores que os que têm. E que os que não têm podem agredir e constranger os que têm.

Mesmo a indústria de alimentos, acessórios, roupas, tecnologia, a educação, o entretenimento empregar milhões de pessoas, e muitas delas sem filhos, e sendo a maternidade um fator político e econômico nítido, essas pessoas gritam de maneira infantil, como as crianças que odeiam. E a maior parte delas exibem, no perfil “sometimes anti-social, always antifascist”.

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A segunda denúncia que veio, foi de um outro grupo na internet, organizado para “expor bandas e músicos que assediaram fãs.”

Me mandaram muitos prints daquilo que seria o influencer PC Siqueira dizendo para uma fã atônita que ele recebe fotos nuas de uma criança de 6 anos.

PC se manifestou na tarde desta quarta feira, dia 11, dizendo ser inverídico o conteúdo, se colocou à disposição das autoridades e diz ser isso um tipo de perseguição de grupos extremistas que sabem que seu único trabalho é com o seu próprio nome.

Denúncias anônimas. Outra questão que me faz sempre ter um pé atrás. Como foram as ondas de denúncias no estilo #metoo feitas por publicitários, que denunciavam os abusos nas relações de trabalho numa planilha. Não saiu disso. Não teve greve, não teve manifestação, denúncia em sindicato, nada. Só um monte de denúncia on-line, sem nomes.

Onde erramos?

Estamos falando aqui de pessoas, até onde se pode ver, que não “votaram 17”, considerando este tipo de voto um adjetivo, uma classificação de uma pessoa no Brasil de 2020.

Estamos falando de mulheres, homens, muitos de esquerda, que se apresentam como progressistas. Pessoas que estão usando o pouco espaço que têm nas redes, para destruir pessoas, reputações e praticar crimes, protegidas por bandeiras nem tão bandeiras assim.

Imersos no ódio, seguimos em direção ao choque definitivo com a parede de concreto. O Brasil perdeu todos os esteios, todas as âncoras. A impressão que eu tenho é de que se Bolsonaro fizer agora uma promoção compre 1 leve 2 Taurus 45mm, a gente vai comprar e não vai sobrar ninguém.

Que tempos de ódio, possessão coletiva e desespero estes que vivemos.
Defendemos coisas importantes nas redes, e destruímos a vida de uma mãe negra.

O que teve de feminista branca, socialista, antifascista, mulher, homem, todo mundo dizendo que “mas nem todo branco é assim”, lotou minha página.

Não tenho respostas. A única, é a pior e mais pessimista de todas:
Vamos presenciar a destruição do nosso país.
E o Messias que veio não morre na cruz, pelo contrário, mata os próprios discípulos.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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