Não gosto do Felipe Neto. Mas acho que você deveria ouvir o que ele disse

Felipe, nesses tempos em que tudo desmorona, foi o brasileiro que falou, na língua do Império, tudo que se passa aqui

atualizado 17/07/2020 23:03

Ilustração para coluna de Anderson França sobre Felipe Neto Gui Prímola/Metrópoles

Por exemplo:

Eu queria que Pernambuco um dia fosse um país.
Tentativa já teve.

No dia em que Pernambuco declarasse independência, a gente ia ver como se constrói um sentimento de nação. A moeda de Pernambuco ia ter a imagem dos seus filhos e filhas mais importantes. Não ia ser uma figura insossa olhando pro nada como a que temos no Real, a “República”.

O povo pernambucano nas ruas, tocando frevo, com seu orgulho, lotando o Marco Zero. Imagine o Exército, a Marinha e a Força Aérea da República de Pernambuco.

É fantasia. Mas eu penso nessas coisas para me localizar com o que tenho hoje. E temos um problema sério. O Brasil não tem um sentimento de unidade nacional. Tudo de orgulho brasileiro está capturado por uma direita doente ou foi dilacerado por ela.

Pra ter sentimento de nação, precisamos de uma coisa: memória.

Eu dei esse exemplo pra dizer que, daqui a alguns anos, quem se dedicar a escrever ou fazer um filme sobre esse tempo vai ver o que não estamos vendo hoje: há notícias boas no meio de tanta notícia ruim.

E é por causa das pessoas que promovem essas notícias que o Brasil não vai quebrar, mas vai se recriar.

Não conseguimos ver isso agora. Estamos imersos no caos.
Mas nossos filhos verão, quando se tornarem os próximos escritores, jornalistas, cineastas, que esses anos foram duros, mas foram incríveis.

E eles, no futuro, tentarão resgatar a memória que hoje não conseguimos consolidar, pois temos entre nós muitas divergências. Onde há dois brasileiros, há três opiniões.

Mas eu não posso deixar de dizer que alguém, com visão menos turva que a minha, vai perceber que, no futuro, o padre Julio Lancelloti em São Paulo será um dos maiores brasileiros que tivemos. Padre Julio caminha com a população em situação de rua e nós somos contemporâneos dele, um apóstolo do Cristo dos pobres.

Essa semana nos trouxe outras notícias igualmente importantes. Djamila Ribeiro está na capa de uma das maiores revistas brasileiras, e pelo seu trabalho como escritora e pensadora negra brasileira. Isso é, em si mesmo, uma vitória. Mesmo que você e eu tenhamos divergências com ela, padre Julio ou qualquer outra pessoa, é pouco lúcido não oferecer o reconhecimento aos brasileiros que estão lutando em suas frentes, mesmo que nós nunca nos cruzemos.

E isso inclui o Felipe Neto.

Todo mundo sabe que eu tenho minhas críticas ao Felipe, porque eu o considero muito mais um comunicador de massa se posicionando politicamente para fins pessoais do que alguém que tenha caminhada com movimentos sociais.

Duro dizer isso, mas, quando eu disse, Renata Corrêa e Demori do Intercept falaram que eu trabalhei pro Crivella, com a intenção de proteger Neto e Freixo, do PSol, outro que critico e eles protegem. Por motivo simples: a burguesia da esquerda branca se protege.

Apesar de nunca nem ter falado com Crivella, fui muitas vezes pisado pelo PSol e seus influenciadores, porque critiquei Freixo em 2016, numa evidente campanha desconectada com a periferia, que não apenas elegeu Crivella, mas, dois anos depois, Bolsonaro. Com Mano Brown dizendo as mesmas coisas numa Lapa lotada, para ódio dos esquerda branco.

Perdemos o Brasil. E foi só ladeira abaixo.

Não me surpreende se Neto vier com Luciano Huck ou outra pessoa de centro ou direita.

Eu divirjo dele. E muito. E continuarei divergindo.

Mas isso não significa que Felipe no New York Times ontem seja algo desprezível.
Porque não foi. Felipe, nesses tempos em que tudo desmorona, foi o brasileiro que falou, na língua do Império, tudo que se passa aqui. Apesar de ainda questionar por que sempre somos representados por homens brancos. Apesar disso, daquilo – eu não estarei nunca satisfeito –, a verdade é que Felipe está fazendo a parte dele como brasileiro. Mesmo que eu nunca concordei com os rumos políticos dele, ele (assim como as outras pessoas que citei aqui) está lutando uma luta no lugar que tem.

E lá fora ele falou por mim.

Não podemos deixar de lembrar que Neto também vem do subúrbio, da Zona Norte.

Minha visão é turva e eu talvez nunca sente numa mesa com nenhuma dessas pessoas para ajustar contas ou promover conciliação e paz. Mas todas essas pessoas, e eu, somos brasileiros.

E esse sentimento é o que chamamos de sentimento de nação.
Que só existe um Brasil no mundo, que é o lugar onde a gente mora.
Não tem outro Brasil. Ninguém nos ama como a gente nos ama.

Somos diferentes. Não vamos ser amigos.
Mas isso não me impede de reconhecer que os meus distintos estão enchendo de orgulho a história, que será contada no futuro, não apenas para falar dos que nos mataram, mas também dos que, em suas lutas, nos mantiveram vivos.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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